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Economia
NOTÍCIA

Qual o impacto do coronavírus na geopolítica mundial?

15:54 | 22/04/2020
HUNTINGTON BEACH, CA - APRIL 20: Offshore oil platforms are seen on April 20, 2020 in Huntington Beach, California. Oil prices traded in negative territory for the first time as the spread of coronavirus (COVID-19) impacts demand.   Michael Heiman/Getty Images/AFP
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HUNTINGTON BEACH, CA - APRIL 20: Offshore oil platforms are seen on April 20, 2020 in Huntington Beach, California. Oil prices traded in negative territory for the first time as the spread of coronavirus (COVID-19) impacts demand. Michael Heiman/Getty Images/AFP Caption (Foto: Michael Heiman/AFP)

Um golpe final no multilateralismo? Uma crescente polarização entre Estados Unidos e China? O advento de um totalitarismo digital? A pandemia de coronavírus terá consequências para a geopolítica global, mas antecipá-las continua sendo um desafio.

"Meu medo é que o mundo depois seja semelhante ao anterior, mas pior", disse o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian, há alguns dias em uma entrevista ao jornal Le Monde.

"Parece-me que estamos testemunhando uma amplificação das fraturas que minam a ordem internacional há anos", acrescentou, pessimista.

Uma das consequências da pandemia de COVID-19, da qual quase não há dúvida, é essa. A degradação do multilateralismo que prevaleceu do Pós-Guerra até meados de 2010 está se acelerando, entre a expansão metódica da China e o unilateralismo dos Estados Unidos sob Donald Trump.

"Preso entre sua relutância a tomar qualquer ação multilateral e seu confronto com Pequim, será difícil para os Estados Unidos evitarem uma redistribuição das cartas, mas é claro que muito dependerá das eleições (presidenciais) de novembro", resumiu o ex-diretor do Fundo Monetário Internacional Dominique Strauss-Khan.

"A China não está em posição de exercer liderança mundial, mas não é certo que os Estados Unidos continuem conseguindo fazer isso", acrescentou Strauss-Khan, na revista Politique Internationale.

"Nenhuma grande potência emergirá mais forte dessa crise, seja como Estado, ou como modelo", antecipa a Strategic Research Foundation (FRS).

Enquanto isso, o multilateralismo está enfraquecendo: os Estados Unidos suspenderam sua contribuição financeira para a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) não conseguiu manter o preço do petróleo, que registrou uma queda histórica.

 

Mas que conceito substituirá o multilateralismo? O soberanismo? Um novo tipo de multilateralismo? O iliberalismo dos populistas? Um totalitarismo digital?

"Estamos em um período em que o soberanismo está retornando, e esta crise certamente incentivará os Estados a se tornarem ainda mais soberanos", disse à AFP Zaki Laïdi, professor da universidade francesa Science Po.

"A versão otimista gostaria que aproveitássemos a crise para refazer o multilateralismo, dando-lhe um significado mais contemporâneo", disse a pesquisadora Régine Perron, autora do livro "História do multilateralismo: a utopia do século americano de 1918 até os dias atuais".

Há alguns anos, os líderes iliberais têm sido bem-sucedidos nas urnas, como na Hungria, Turquia, Filipinas, ou Brasil. A gestão de crises por esses "homens fortes" poderia estimular o populismo?

Em princípio não, estima a FRS. "A ascensão do populismo governamental pode parar". Os povos poderiam punir sua incompetência e sua "falta de empatia" com as vítimas.

A chegada de um totalitarismo digital também é evocada, legitimado por seus resultados na luta contra a epidemia, e o surgimento de aplicativos para localizar os afetados, ou a análise de dados privados.

"Países inteiros estão sendo usados como cobaias em experimentos sociais em larga escala", disse Yuval Noah Harari, autor do best-seller "Sapiens", ao jornal Financial Times em março.

"Se não tomarmos cuidado, a epidemia será um marco na história da vigilância. Não apenas porque pode normalizar o uso de instrumentos de vigilância em massa em países que até agora os rejeitaram, mas também, e acima de tudo, porque marcaria uma transição drástica para o acompanhamento subcutâneo", acrescentou.

"Antes, quando seu dedo clicava em um link em seu smartphone, o governo queria saber qual era esse link. Agora, o governo quer saber a temperatura do seu dedo e a pressão sanguínea sob sua pele".

 

Também é provável que a economia global sofra uma transformação duradoura após o choque de alguns países surpreendidos pela pandemia, o que poderia impulsionar o conceito de autonomia estratégica e desafiar a globalização das cadeias de suprimentos e a famosa teoria da vantagem comparativa do economista britânico David Ricardo.

"Essa visão ricardiana do comércio internacional sustenta o desenvolvimento de cadeias de valor globais no século XXI", disse Bertrand Valiorgue, professor da universidade francesa Clermont-Auvergne.

"A crise financeira de 2008 marcou um revés na dinâmica de desenvolvimento das cadeias de valor globais. O impacto da crise da COVID-19 será mais profundo e duradouro", acrescentou ele no site The Conversation.

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