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Ibovespa fecha em queda de 1,14%, com Previdência e Fed no radar

18:58 | 20/02/2019
O Ibovespa iniciou o pregão desta quarta-feira, 20, em alta e quase chegou a superar a máxima histórica, em meio ao otimismo em relação ao texto da reforma da Previdência que foi entregue ao Congresso, considerada bastante robusta, com impacto total de R$ 1,164 trilhão em dez anos. Porém, ainda pela manhã o índice passou a operar com volatilidade e já reta final do pregão batia mínimas, sob o impacto também da divulgação da ata da última reunião do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), que alertou que os riscos para a economia global aumentaram. Segundo profissionais do mercado, investidores aproveitaram para realizar lucros recentes.
O índice doméstico fechou em queda de 1,14% pontos, aos 96.544,81 pontos, na mínima do pregão. O giro financeiro foi de R$ 17,5 bilhões. Na máxima intraday, chegou aos 98.543,68 pontos (+0,90%), perto da máxima histórica de 98.588,64 pontos, alcançada no último dia 4 de fevereiro.
"O texto da reforma da Previdência veio dentro do esperado pelo mercado, que agora opta pela cautela, colocando na balança o quanto dessa proposta deve ser aprovado, enquanto o governo ainda não conseguiu formar uma base no Congresso", comenta Victor Cândido, economista-chefe da Guide Investimentos.
"Uma vez apresentada a reforma da Previdência, devemos ver agora uma acomodação de preços na bolsa, que deve andar mais de lado", avalia Raphael Figueredo, sócio e analista da Eleven Financial. "O foco agora estará na capacidade do governo de comunicar o bom conteúdo da proposta para a sociedade e o Congresso, mas ela deve sofrer desidratação em alguns dos pontos", acrescenta.
Apesar de as bolsas em Nova York terem voltado ao campo positivo depois de terem renovado mínimas em reação à divulgação da ata do Fed, o Ibovespa firmou-se no campo negativo. Segundo analistas, pesou no mercado local a indicação dos dirigentes do Fed de que os riscos à economia mundial aumentaram, citando a desaceleração na China e na Europa, o Brexit, o aperto das condições financeiras e a rapidez na perda de força dos estímulos fiscais nos Estados Unidos. A paralisação parcial do governo americano (shutdown) também foi citada no documento como um fator negativo para o crescimento econômico.
Dólar - O dólar chegou a cair abaixo de R$ 3,70 após a apresentação da proposta de reforma da Previdência pelo governo, mas em seguida os investidores preferiram adotar um tom de cautela e a moeda passou a subir. A divulgação da ata da última reunião de política monetária do Fed, já perto do fechamento do mercado à vista, que alertou para aumento de riscos de desaceleração da economia mundial, ajudou a reforçar a prudência dos investidores e a moeda americana bateu máximas. O dólar terminou esta quarta-feira, 20, em R$ 3,7319, em alta de 0,42%.
As medidas que mudam as aposentadorias no Brasil foram consideradas "amplas e abrangentes", mas a percepção nas mesas de câmbio é de que o texto pode ser desidratado na tramitação no Congresso, reduzindo seu impacto. "Os mercados tiveram o que esperavam, uma proposta sólida de reforma, com economia de R$ 1 trilhão. A reação foi tímida porque essa economia fiscal provavelmente será reduzida no texto final", avalia o economista-chefe para a América Latina da consultoria norte-americana Continuum Economics, Pedro Tuesta. Para ele, o quanto o texto será desidratado durante a tramitação vai determinar o tipo de reação do mercado nos próximos meses. O economista vê o dólar entre R$ 3,70 a R$ 3,75 nos próximos dias. Na máxima desta quarta, a moeda chegou a R$ 3,73 e na mínima, a R$ 3,69.
Os estrategistas do banco norte-americano JPMorgan preveem que a proposta de reforma da Previdência terá um "longo caminho" no Congresso antes da votação final. Com a opção de Jair Bolsonaro de enviar nova Proposta de Emenda Constitucional (PEC) ao invés de aproveitar o texto de Michel Temer que já tramitou pelas comissões especiais e estava pronto para ser votado, o tempo de aprovação pode ser mais longo do que o estimado no cenário-base do banco, que previa apreciação na Câmara já no segundo trimestre e votação final no terceiro trimestre. O JP diz que vai reavaliar este cenário.
Já a ata do Fed acabou contribuindo para reforçar o tom de cautela no final da tarde. "A ata revelou que a decisão do Fed de adotar uma postura 'paciente' veio em resposta à fraqueza da economia mundial", avaliou o economista da consultoria Capital Economics, Paul Ashworth, citando a Europa e a China como as regiões com maior chance de desacelerarem. Ele nota que os dirigentes do Fed viram riscos "mais nítidos do que o esperado de desaceleração" da atividade mundial, o que levou alguns deles a reconhecerem que as chances de piora da atividade aumentaram. Pelo lado positivo, o Fed deve terminar em breve o programa de redução de seu balanço.
Taxas de juros - Um movimento de realização de lucros deu o tom nesta quarta-feira, 20, aos negócios no mercado de juros e as taxas devolveram a queda registrada na terça para fecharem em alta. A reforma da Previdência foi bastante elogiada, mas sua "robustez" - economia fiscal de R$ 1,164 trilhão em dez anos - já estava precificada e os investidores "realizaram no fato". No fim da tarde, a reação negativa do câmbio à ata do Fed contaminou a renda fixa e as taxas ampliaram a correção.
Num dia de liquidez forte, o avanço foi um pouco mais pronunciado nos vencimentos longos, que haviam recuado com mais força na sessão anterior. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2020 fechou com taxa de 6,425%, de 6,380% na terça no ajuste, e a do DI para janeiro de 2021 encerrou a 7,09%, de 6,991% na terça no ajuste. O DI para janeiro de 2023 fechou com taxa de 8,20%, de 8,062% na terça no ajuste, e o DI para janeiro de 2025 encerrou em 8,72%, de 8,561%.
"Estamos realizando lucro, porque a proposta da Previdência é muito boa, mas já era esperada. O marco inicial é bastante positivo e agora se debate o quanto vai ser diluído nas negociações com o Congresso. Se chegar a algo entre R$ 500 bilhões e R$ 600 bilhões está de bom tamanho", avaliou o trader de renda fixa do Banco Sicredi, Getúlio Ost, segundo o qual também o mercado já conta com certa dificuldade na tramitação da proposta.
A economia de R$ 1,164 trilhão já conta com a alteração nas regras de Previdência para militares, cujo projeto só deve ser encaminhado ao Congresso daqui a um mês. A principal mudança da PEC já havia sido antecipada na semana passada, que é a idade mínima de 65 anos para homens e 62 anos para mulheres se aposentarem. O período de transição é de 12 anos, menor do que o proposto no projeto do governo Temer, de 20 anos.
A reforma é a prova de fogo para a articulação política do governo, que foi abalada pela demissão de Gustavo Bebianno da Secretaria-Geral da Presidência, já que deve enfrentar grande resistência de parte dos governadores e algumas bancadas no Congresso. A expectativa do secretário especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia, Rogério Marinho, é de que a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) seja aprovada em dois turnos pela Câmara dos Deputados e do Senado até o recesso parlamentar de julho.
Após a divulgação da ata do Fed, as taxas, já na sessão estendida, aceleraram o avanço, na medida em que o dólar ganhava força ante o real, dados os alertas dos dirigentes trazidos pelo documento sobre o risco de desaceleração da economia global.

Agência Estado

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