PUBLICIDADE
Notícias

Íntegra da entrevista com Maia Júnior

Maia Júnior chega à Seplag com agenda liberal e promete articular envolvimento de todas as áreas nisso

06:00 | 23/01/2017

Ele significa algo como uma rendição. Atado por uma agenda de crises e paliativos desde o nascedouro, o Governo Camilo Santana (ainda PT) se rendeu à necessidade de um secretário com a missão de revolucionar a gestão. Após idas e vindas, todas no setor privado, a decisão do governador foi mista. Tem perfil de mercado, mas DNA partidário. Um empresário tucano, ligado ao senador Tasso Jereissati (PSDB). A escolha de Camilo procura por a máquina para andar e ainda abre canal em Brasília.


Escolhido para comandar a Secretaria do Planejamento e Gestão (Seplag), o ex-vice-governador Francisco Queiroz Maia Júnior abre sem cerimônia uma agenda liberal. Promete agregar uma visão mais empresarial. “Eu quero secretários mais transversais e mais homens de negócios, isso é o que vai fazer o Estado ser melhor”.


Entre as missões que tem pela frente, está comandar o processo de concessões de ativos do Estado e resolver o rombo na Previdência, que terá um fundo criado com recursos das concessões. Também promete a implantação de um sistema de gestão por desempenho no serviço público, com metas e gratificações. “O servidor precisa entender que seu salário só cresce com crescimento da produtividade e da economia”. A medida integrará, conforme conta, um conjunto de ações para controle do orçamento. “O grande esforço é encaixar esses custos e tentar melhorar a receita”. Ele recebeu O POVO por 90 minutos em seu escritório no Pátio Dom Luís. Na sala ao lado, iria conversar em seguida com um economista convidado para o time.


OP – Como já publicado pelo O POVO, não é de hoje que seu nome é sondado para a Seplag. O que fez o senhor aceitar?


Maia Júnior - As sondagens começaram por três pessoas. O Eudoro Santana (pai do governador Camilo Santana e presidente do Instituto de Planejamento de Fortaleza), Geraldo Luciano (vice-presidente do Grupo M. Dias Branco), com quem eu tinha um compromisso profissional, e o Raimundo Padilha, que foi presidente da Bolsa (de Valores Regional). Essas vinham, há algum tempo, me consultando sobre algum trabalho, alguma ação, o que eu achava. Eles vinham conversando com o governador sistematicamente. E tinha um grupo até maior nisso pelo que estou tendo conhecimento. Essas pessoas começaram a me sondar. Depois, essas sondagens começaram a se transformar em convites. Esses convites, inicialmente, foram negados. Eu tinha uma proposta de ajudar, mas sem cargo. Terminou com o governador entrando em cena e tivemos três reuniões, que fizeram com que eu cedesse. Aprendi que, com um convite do Governo para qualquer cargo, qualquer cearense deve se sentir honrado. Na hora em que o governador convida você para um cargo, é porque ele está precisando do seu trabalho profissional e chegou ao seu nome como o mais viável. Tenho um compromisso muito grande com o Ceará. Acho que o tempo em que eu fiquei no Governo me ensinou muito, que para nós cearenses o Ceará tem que estar em primeiro lugar. Meus projetos pessoais ficaram em segundo plano.


OP - Apesar de ser uma escolha profissional, o senhor é um tucano em um governo petista. O deputado José Guimarães (PT) chegou a dizer que o senhor até pode ser tucano, mas o governador é petista e é ele quem vai dá a diretriz. Quando o senhor foi secretário do Planejamento no Governo de Lúcio Alcântara, a Secretaria acumulava um pouco das funções da Casa Civil, o que não é o caso agora. Como fica, neste cenário, a sua liberdade de atuação?


Maia Júnior – Eu sempre coloco essa questão ideológica em segundo lugar. Porque quando você vai servir alguém, você vai ter uma diretriz. Eu servi a governos do PT, mas a memória dos petistas é curta. Eu servi ao Governo da Maria Luiza Fontenele, com bastante intensidade. Naquela época, eu também não queria aceitar cargos. Acho que os cearenses se lembram da então secretária Cristina Bardini, da Secretária Marta e do secretário Bosco. Eu ajudei a todos com um propósito profissional, na área de transportes, que era a minha área de atuação. Ajudei bastante a Maria Luiza e com bastante envolvimento. Não aceitei cargo exatamente para não ter que dar explicação a ninguém, mas fui muito envolvido, contribui ativamente, participei de uma forma muito ativa do trabalho da Cristina Bardini. Em momento nenhum, tive dificuldade. Pelo contrário, até porque comunista também já fui. Participar de movimento estudantil também participei. Agora chega uma hora que a gente, seja na vida pessoal, seja na vida profissional, amadurece. Hoje, a minha visão sobre essas questões ideológicas é fazer o bem, o que é certo, o que é bom para o Estado, e não o que é bom para um partido político em primeiro lugar. As decisões, normalmente, são políticas, a base é técnica. Normalmente, ninguém toma decisão em cima de uma base que não é técnica. Outra coisa que precisa ser abolida em cima da administração pública são as decisões intuitivas. O fracasso de algumas ações é a falta de fundamento, a falta de informações corretas para você poder tomar uma decisão.


OP – Por exemplo?


Maia Júnior - Hoje a gente vive uma crise sem tamanho no Brasil, e um dos maiores desafios que eu acho que o País tem é essa questão fiscal. Sem o fiscal, não tem solução para o resto. Um país que está arrasado do ponto de vista fiscal fica sem fôlego para estruturar programas, políticas de investimentos, Ter um estado arrumando, onde as receitas são suficientes para cobrir as despesas e deixar uma boa margem para investir e atender as demandas da população, isso nem é de esquerda, nem é de direita. Apenas as diretrizes de algum investimento podem ter um prisma com uma guinada mais social do que uma razão econômica. Eu acho hoje nós estamos saindo de um momento no qual temos sérios problemas na razão social. A população não está satisfeita com a Saúde. Na Educação, o Ceará está melhorando. Na segurança, a questão penitenciária é um grande problema, o crime organizado está maior que o Estado e precisa ser ferozmente combatido. A população não pode se submeter a uma estrutura dessas, paralela ao Estado, comandando os principais presídios e comandando o direito de ir e vir com tranquilidade da população. Essa é minha visão, sou mais pragmático e gosto de fazer o bem dentro da melhor forma.

OP - A sua liberdade de atuação foi negociada?


Maia Júnior - Foi, logicamente, ao definir o papel, o governador queria uma pessoa que viesse comandar essas ações públicas. Não tem lugar, na minha opinião, mais indicado do que a Seplag, porque ela foi criada para isso. Eu coloquei claramente que eu precisava do apoio dele. Eu não venho mandar em secretários, venho articular com os secretários e unir para que a gente possa fazer melhor com o que tem aí. Esse é o meu maior desafio. Sem apoio é difícil fazer isso.

OP - O Governo Camilo até agora se notabilizou por não ter um braço político, agora ele monta uma Casa Civil, que, pelo que está desenhado, vai ter esse papel. Ao mesmo tempo, entrega para a Seplag a missão de ser uma gerenciadora. Em que medida o senhor acredita que, daqui a dois anos, é possível deixar um marca na política e na gestão?


Maia Júnior - Na politica, eu acredito que até o Camilo tem criado uma marca. Ele passa para todos que é uma pessoa elegante e educada, que circula bem em todos os meios, é admirado pela capacidade de dialogo, bom nível de articulação política. Ele tem uma qualidade que é ouvir bastante. Isso é uma qualidade boa para a politica.


OP – O senhor já conversava com ele antes de você já conversava com ele antes?


Maia Júnior - Não, eu vim conhecer o Camilo um pouco mais de perto agora. A minha relação com o Camilo era meramente social, cumprimentava ele como secretario, depois como governador.


OP - Em que fase está o seu trabalho prestes a assumir a Secretaria?


Maia Júnior - Estou numa fase de conhecimento, trabalhando com as equipes, montando uma estratégia de trabalho, vou dar início a essa transição oficialmente. Já tive reunião com o Hugo (Figueiredo, atual titular da Seplag), com o chefe de gabinete (Elcio Batista), estivr com o chefe da casa civil anterior e o novo, Alexandre Lamdim e Nelson Martins. Priorizei primeiro conversar com o núcleo duro do governo. Conversei com o Nelson até porque a gente precisava alinhar um pouco as ações e também porque a gente precisava definir o que da Casa Civil iria para a Secretaria do Planejamento. Basicamente, programas que estavam sendo estruturados com o Alexandre. Já estive com o secretário Mauro Filho, para alinhar algumas medidas, e pedi para marcar com o Flávio Jucá, da Controladoria, que terá importantíssimo trabalho dentro dos vetores que discute com o governador. Um deles é o da mroalidade pública. Vamos ser muito intensos no zelo e no que vai ser feito com o dinheiro publico. Com o procurador, pretendo ter a primeira reunião com a comissão de programação financeira, que também era presidida pela Casa Civil e vai para a Seplag.


OP - Quais nomes vão compor sua equipe?


Maia Júnior - Para a gestão de ativos e previdência, vou levar o (economista) Célio Fernando. Ele vai reorganizar e orientar os trabalhos de concessões públicas e da previdência. Vamos aprofundar um forte trabalho estrutural na area de previdência. Estou levando para ser secretário adjunto da Seplag o Sérgio Cavalcante, que vai ser responsável pela área de adminsitração e gestão do Governo, de políticas públicas, fontes orçamentárias para grantir programas. Ele foi secretário de Planejamento do Lúcio Alcântara. E estou levando o Júlio Cavalcante para a gente arredondar uma gestão de resultados, uma gestão de PMO. Vamos prioritariamente aprofundar a questão fiscal, saber a real situação fiscal do Estado, para dar algumas diretrizes de reajuste, vamos avaliar se os ajustes que vem sendo feitos são suficientes.


OP - O Ceará, assim como a União, está em processo de ajuste fiscal. Qual A situação orçamentária do Estado?


Maia Júnior - O que está acontecendo nos últimos anos é que a receita tem uma taxa de crescimento, por conta da crise econômica, inferior ao crescimento dos custos. O Ceará tem que botar o tamanho dos custos no tamanho da receita. Tem um outro ponto importante que é o serviço da dívida, amortização e juros, a gente tem que avaliar. A situação do Estado do ponto de vista de dívida é boa no aspecto da margem para se endividar. O problema é que a receita está caindo. A maior parte da dívida é atrelada ao câmbio e está crescendo, assim como cresce o desembolso. O Estado está honrando, agora a gente tem que avaliar se a gente pode neutralizar esse fluxo de pagamento, assim como precisa dar estabilidade às despesas correntes. Se você perde investimentos, quem mais perde é a população. O grande esforço é encaixar os custos e tentar melhorar a receita para mirar em duas coisas: elevar o máximo possível o investimento com receita própria e ser mais agressivo na atração de investimentos.


OP – Como ser mais agressivo na atração de investimentos?


Maia Júnior - Eu diria a você que o Ceará hoje, para a sua realidade econômico-financeira, tem uma belíssima infraestrutura. O que eu pretendo contribuir é mostrar aos secretários que o foco é voltar as ações sempre para fortalecer o emprego, a economia. O Japão fez isso muito bem. Eles são um País sem insumo, que tirou proveito do conhecimento tecnológico e da logística, começou a botar produtos no mundo desenvolvido. Nós aqui não temos insumos também, acho que a gente tem até uma condição melhor que o Japão há 70 anos. É preciso que os secretários entendam o seu papel especifico, temático, mas eles têm que entender a contribuição transversal deles com a questão econômica. Não vai ter política de atração de investimentos sem infraestrutura, e eu diria o mesmo para o secretário de Trabalho, o de Ciência e Tecnologia. Não vai ter competitividade sem inovação, sem as universidades estarem dentro desse jogo, sem romper a barreira das universidades. Então eu quero dos secretários essa visão, que eles pensem em negócios, fazer um negócio bem feito, identificar onde o Estado precisa trazer parceiros dentro das suas áreas. eu acho que é um dever dos secretários. Vou estruturar uma área com o Célio Fernando para discutir com eles. É muito importante que os secretários enxerguem essa necessidade de eles não estarem mobilizados apenas da gestão das suas secretarias. Eu quero secretários mais transversais, e mais homens de negócios, isso é o que vai fazer o estado ser melhor.


OP - Quando o senhor fala nessa agenda e nesse vigor, fala como no começo de Governo. O senhor está com espirito, montando a equipe, diretriz, revendo modelo, é um pique de início de Governo. Mas esse Governo tem dois anos para ser concluído. Como se consegue dar resultado em curto prazo, ainda mais com uma agenda, como essa sua, que não é de curtíssimo prazo?


Maia Júnior - Em primeiro lugar, tem muita coisa boa andando, mas o Governo está mostrando pouco.Por exemplo, o grande sonho do Ceará era uma siderúrgica, a siderúrgica está funcionando e poucos cearenses sabem. Se a gente voltar no tempo 20 anos, eu ajudei muito a conceber isso, nós não tinhamos um porto, agora nós temos. Esse porto agora é muito maior do que ele foi concebido em termos de infraestrutura, já movimenta muito mais cargas do que a previsão inicial. Eu diria que o Pecém, hoje, é uma infraestrutura quase pronta, lógico que ainda tem o que fazer, não tenho essa arrogancia de achar que o pecem chegou no topo.


OP - Mas essa siderúrgica é voltada para exportação. Pouco fica no Ceará...

Maia Júnior - Eu acho que esses é que são os desafios que aqui tem que ter agora. A exportação tem coisas boas. Há uma critica muito grande de que a gente está agregando valor lá fora, como se fosse barriga de aluguel do ponto de vista industrial. A gente aqui produz as placas, mas ela agrega valor lá fora. Acho que essa é uma segunda etapa, porque ela também tem a previsão de laminar aqui, mas a gente precisa criar uma demanda. Com esses 20% (que a legislação sobre ZPEs permite manter no mercado interno), a gente precisa criar esse mercado e buscar consolidar esse polo metalmecanico bem moderno. Outra coisa, a gente precisa começar a enxergar onde eu vou produzir e quem vai me comprar, porque não adianta eu produzir uma coisa que não tem comprador. Acho que é o grande desafio inclusive da ZPE. Existem 3 mil ZPEs no mundo e nós vamos competir com quem, para mandar para quais mercados. Eu venho da vida privada, por exemplo, na minha atividade, que é a construção civil, eu construo imóveis para vender. Hoje, estou parado porque terminei alguns empreendimentos no ano passado, mas segurei alguns porque eu não tenho mercado para vender, não adianta eu produzir e deixar uma divida. Quem trabalha nessa área precisa enxergar. As primeiras perguntas vou fazer às equipes econômicas do Estado: vocês querem fazer o que? Vender para quem? Criar condições para competir com quem?


OP - O Governo tem três órgãos na prospecção de investimentos. Eles não são uníssonos?


Maia Júnior - A gente pode ter até 100 órgãos, desde que tenham um único motivo, que falem a mesma linguagem. Hoje não falam. Esse é um desafio meu, fazer o Governo falar a mesma linguagem, se focar no que é prioritário e naquilo que pode dar resultado. O tempo é curto, a gente precisa já apresentar alguns resultados, a gente precisa mudar a agenda do Governo agora e precisa vender a agenda que foi feita. Há dez anos, quando saí do Governo, nós tínhamos duas ou três indústrias implantadas no Pecém. Hoje, nós temos 30. Se pudermos, até o fim do Governo dobrar esse número...


OP - Essa meta parece viável?


Eu não diria viável ainda porque eu teria que tomar pé. O que eu vou pedir é que saia do papel tudo aquilo que alguém botou nesses ultimos dez anos, agora é para acontecer, ter uma cadeia bem instalada no Ceará. Nessa área, do Pecém, tem energias alternativas, tem fábricas de placas solares para vir. Ou seja, tem coisa boa e é essa agenda boa que eu vou procurar e vou focar o meu trabalho naquilo que possa ter em dois anos. Começo, meio e fim


OP - Secretário, o pacote de concessões do Governo Camilo pareceu um trunfo da agenda positiva, uma agenda de caráter liberal, que ganhou força no País com o fracasso da era petista. O que era satanizado como neoliberal, se tornou uma expectativa de agenda positiva até para o Governo Dilma, que fez a privatização de aeroportos pelo brasil. O senhor vai ter ingerência sobre esse processo?

Maia Júnior - Esses projetos de concessões vai ficar todo centralizado na Seplag. Vai ficar na mão do celio fernando, com a minha particicipação.


OP - Quando o senhor prtetendar dar uma resposta?


Maia Júnior - Esse ano eu quero botar ainda a coisa na rua, fazer leilão. O tem hoje é um trabalho de oportunidades, um plano de negócios que foi feito pela McKinsey. Eu quero, com o Célio, avaliar esse trabalho e quero conectar com alguém que saiba realmente avaliar uma concessão. Uma concessão é uma coisa para ter muitos cuidados. Quando a gente concede um serviço, a gente tem que ter a capacidade de fiscalizar e defender o interesse do cidadão. Para fiscalizar bem, tem que ter um bom contrato. Quando nós fizemos algumas privatizações no Governo Tasso, por exemplo, o terminal João Tomé, a gente obrigou a construir um terminal novo no Antônio Bezerra. Esses terminais foram concedidos há mais de 20 anos e nós não tivemos problemas, porque foram boas ações regulatórias e contratuais. A Coelce, quando eu fui privatizar, procurei separar, quem dita as políticas é o Estado. E eu disse ˜eu não privatizo a coelce enquanto não tiver um departamento de energia que possa pensar as políticas do Estado˜. A Coelce é uma empresa que executa as políticas de energia que o Estado dita, aí criamos um departamento de energia (na Secretaria da Infraestrutura). Aí tinha a necessidade de fiscalizar. Daí saiu a necessidade de criar a Agência Reguladora (Arce). Na época, o Ceará precisava de um grande projeto que, hoje, é essa siderúrgica. Mas não tinha energia para atender a essa siderúrgica, aí no contrato da privatização a gente obrigou a Coelce a fazer uma termelétrica. Ainda tinha a vulnerabilidade de acesso. Alguém tinha que levar energia para quem está em comunidades distantes e nós criamos essas garantias dentro do contrato da Coelce. O Ceará ainda hoje recebe o percentual da receita da coelce para atender essas áreas econômicas. Isso a gente garantiu no processo de privatização, além de contrapartida em outros projetos. Então, para eu conceder alguma coisa, tem que definir claramente as obrigações daqueles terceiros com o Estado e seus cidadãos.


OP- O senhor ja leu o projeto das concessões do Governo Camilo. Mudaria alguma coisa nele?


Maia Júnior - O que tem agora são os planos de negócios, eu tenho que avaliar os contratos, se é que foram feitos. Preciso ter os preços de espelho, o Estado tem que saber os preços e ter mais de um para para garantir ao Estado concessões bem feitas. Agora, vamos tentar tocar isso celeremente.


OP - Além dos dez ativos que estão postos, o senhor incluiria mais algum? A Cagece por exemplo?


Maia Júnior - Se eu vender a Cagece hoje, vai ser por um preço vil, porque desestruturaram a empresa.Ela não vale nada hoje. Ela não tem fluxo positivo. A gente tem que arrumar a casa para dar valor, meu primeiro desafio com relação a Cagece é retomar o valor dessa empresa.

OP - Como se deu isso na cagece?


Maia Júnior - Eu acho que foram gestões que não compreenderam que a Cagece é uma empresa de mercado, que recebe pagamento pelos seus serviços, tem monopólio de água e esgoto. Ela tem que entender que ela é uma empresa e que ela tem que se sustentar, não pode ser fazer apologia política nas tarifas.


OP - Não é a politica que faz isso com uma empresa como a Cagece?

Maia Júnior - As intervenções podem ser políticas, mas tem que ser meritórias. Hoje, administrar uma empresa é muito complexo e esses equívocos são de profissionais que não estão focados na gestão da empresa. Governador nenhum quer deixar de ter uma empresa lucrativa. Por exemplo, no sentido inverso, ainda não apurei direito, mas Detran é órgão superavitário e é como tem que ser. Tenho notícia que a Cegás paga dividendos anuais ao estado. Nós temos que entender isso, quando a gente cria uma empresa, o Estado põe dinheiro, ele receber esse dinheiro. Não colocamos esse dinheiro lá a fundo perdido, ela tem que ser bem administrada. Eu acho que até outros programas que não estejam nessa lista, mas a princípio vejo algumas coisas boas nessa proposta. Por exemplo, o terminal de regaseificação, acho que o Ceará precisa de um. Outra coisa importante, está se falando muito em estações de reúso e de dessalinização, eu acho que isso é urgente para estruturar um backup, como foi feito com a crise de energia. A gente não pode esperar que alguém fique sem água para acionar os instrumentos reservas. Hoje, como na crise de energia de 2002, quem deixou o Brasil sem energia foi falta de recursos hídricos. Estamos num período de cinco anos de seca e todas as reservas que a gente tinha para acumular não foi suficiente. Por outro lado, o consumo está crescendo. Então é preciso que se encontre uma estrutura que possa agregar ã oferta de água nos períodos secos, ou que possa ajudar no gerenciamento dessas reservas. Então deve lançar esses projetos de reúso de água, de dessalinização, sobretudo onde se produz, em Maracanaú, Pecém... tratar águas poluidas para reúso.


OP - O Ceará vem beirando o limite de gastos com servidores. A folha de pagamento é crescente, tanto por número de servidores quanto por reajustes. Como equacionar isso?


Maia Júnior - A situação fiscal hoje é adversa. A economia vem crescendo a taxas mínimas para suportar essa pressão que vem do custo. Estamos há três anos em recessão e isso exige esforços de muitas áreas, pessoal é uma delas. O ideal é todos os anos a gente estudar não só prêmios, mas realinhamentos de ganho pela produtividade do Estado. O servidor precisa entender que seu salário só cresce com crescimento da produtividade e da economia. Se a economia é idêntica há três, quatro anos eu não tive crescimento de receita, eu não posso aumentar meus custos. Este é o principal desafio dessa questão fiscal. Esse limitador de crescimento de gastos ã inflação é um passo importante. Mas eu diria que eu vou focar muito no aumento da produtividade do servidor. Temos alguns resultados de sucesso, no caso da Polícia, que vem melhorando os indicadores. Na educação, já há alguns anos tem um esforço nessa direção. Precisamos ampliar esse mecanismo para o estado e seus servidores públicos atingirem essas metas, ter prêmios. Não podemos deixar em hipótese nenhuma que o Ceará leve seus servidores públicos à humilhação que foi feita no Rio de Janeiro. Salário não se atrasa. Não há profissional que aguente ficar quatro meses sem salário. A prioridade é assegurar essas obrigações que temos com o servidor público, não adianta prometer o que não podemos cumprir.


OP - O governador se comprometeu a conceder reajuste para os servidores, mas a mensagem ainda não foi enviada à Assembleia. Isso deve ser mantido?

Maia Júnior - A minha obrigação é que os compromissos do governador sejam cumpridos. Ele recentemente assumiu alguns compromissos de ajustes. Isso tem um impacto grande na folha, e o Estado vem dando aumentos diferenciados nas áreas de educação e segurança pública. Isso pesa na folha. Acho que essas políticas a gente tem que avaliar tendo margem e com responsabilidade.


OP - O senhor é conhecido pelo seu estilo trator, no sentido de ser incisivo. Para a função que você vai assumir, você provavelmente vai ter atritos com outros secretários, Como você pretende lidar com isso?

Maia Júnior - O Maia de 2017 não será diferente do Maia de outros carnavais, porque isso é uma questão profissional. Eu vou mudar sempre para melhorar o que não fiz de bom. Nesse campo, tive embates com secretários no Governo Lúcio. Vou citar um caso, a secretária Cláudia Leitão demorou a entender o papel dela. O secretário tem que entender que ele não pode ser só o organizador de projetos e programas, sem saber gerenciar esses projetos e sua secretária. Depois de alguns anos, ela lançou um livro sobre seu trabalho no Governo e destacou em um capítulo o que tinha aprendido com o Maia Júnior, que não era importante só ter um grande conhecimento sobre a Cultura, mas era muito importante saber gerir essa cultura. Eu vou procurar agradar as pessoas que estão fora do balcão, o povo do Ceará. Um dos grandes problemas da máquina pública é que eles governam olhando para eles, e eu governo olhando pros 8 milhões de cearenses.


OP - O Governo Camilo herdou obras não concluídas e problemáticasdo Governo Cid Gomes, sobretudo o Acquario. Assim, o Ceará deverá dar início a novas obras?


Maia Júnior - Eu comecei essa conversa dizendo que o objetivo do esforço fiscal é aumentar o nível de investimento. Pelo contrário, eu acho que a gente tem que ter a melhor margem possível de investimento, para a sociedade. Quem vai para Flecheiras vai feliz porque tem uma estrada duplicada que diminuiu em 15min o tempo de viagem. Não quer dizer que quem está em Camocim não quer uma estrada duplicada, mas é preciso ter tráfego suficiente para justificar o Estado investir esse dinheiro. Confesso que estou satisfeito com o que o Estado tem. Na saúde, tem uma belíssima rede, então o que a gente tem que botar pra funcionar. Não quer dizer que não se façam mais hospitais, mas se a gente botar pra funcionar bem o que tem, a gente já dá um salto muito grande. No serviço público, o discurso é quais serviços posso aumentar se eu fizer esse investimentos. Então uma análise mínima de viabilidade econômica de benefícios/custos, com foco no nível de serviços que eu posso melhorar para a população, eu acho que isso tem que ser feito. O segundo ponto é como vai se financiar esse investimento, porque todo mundo quer investir, mas não traz a solução das fontes. O Estado tem dinheiro pra fazer esses investimentos realmente? Porque pegar um investimento que pode ser feito em dois anos, três anos e jogar para 5, 6, isso é mais caro. Aí começa o investimento, mas a população não recebe esse serviço por falta de dinheiro. Qualquer investimento tem que comprovar que tem fontes para ser executado, prazos e custeio.


OP- O Ceará vai receber recursos das concessões. Qual o destino deles?

Maia Júnior - Os recursos obtidos com as concessões de ativos do Governo do Estado serão destinados à Previdência Estadual. O buraco, para você ter uma ideia, é de mais de R$ 1 bilhão. Ainda vou alinhar isso com o governador, mas o Estado precisa cuidar da sua Previdência de uma forma muito estrutural. E muito profissional. Isso é um prognostico atuarial futuro enorme, de uma dimensão muito grande. Temos que avaliar esses gestores de ativos. O Ceará, por exemplo, tem ativos que nem escritura não tem. Quando a gente compra um imóvel, a primeira coisa que a gente quer é a posse. E a escritura dessa posse. Então o Célio está indo para fazer uma avaliação desses ativos. E as concessões, que são ativos, ações de empresas. A gente vai tentar centralizar isso tudo, numa única estrutura. Se for o caso, transformar tudo num fundo, que é para a Previdência.


OP - Vocês venderam a Coelce pra isso.


Maia Júnior - Só que não valia nada. O buraco, para você ter uma ideia, o Estado coloca R$ 1 bi mensal. Teria que ter 12 Coelces a preço de hoje para poder cobrir isso.


OP - Naquele momento, o argumento público do PSDB para vender a Coelce foi esse. Você faria uma autocrítica com relação a isso?


Maia Júnior - Faria. Uma boa intenção, mas mal avaliado. Quando se foi ver, o ativo que foi vendido naquela época, R$ 1,1 bi a preços da época, era insuficiente para suprir a diferença da previdência em um ano. E eu não estou olhando um ano. Um ano o Estado está conseguindo botar essa diferença.


OP – O senhor reconhece que foi um erro atuarial grosseiro? Como garantir que não se repetirá?


Maia Júnior - Foi um erro de avaliação. Erro grosseiro é quando há um desvio. Fizeram, com certeza, uma ideia sem avaliar o atuarial. Aqui, a primeira coisa que vou fazer é ter a dimensão dos ativos. Hoje a gente não tira um dinheiro no banco sem garantia. Se a gente tiver o suficiente para dar de 1,3 de garantia para que os bancos exigem, ninguém tira um centavo. Por outro lado, a gente precisa ver, em nível muito mais aprofundado, da questão previdenciária. Isso é uma bomba relógio. Para você ter uma ideia, dez anos atrás, quando saí do Estado. Para cada três (servidores) ativos, o Ceará pagava um (inativo). Hoje, para cada um, estou pagando um, praticamente. Ao correr dos próximos anos, vou pagar mais aposentados que ativos. E vou precisar contratar ativos. Porque tem os que saem. Então como fica isso? Vamos primeiro avaliar a estrutura que cuida disso, vamos ver se ela tem boas pessoas, se tem qualidade desses custos atuariais futuros e se esse modelo é diferente. Avaliando isso, se os ativos forem suficientes para a gente resolver... Na questão tem dois movimentos: os profissionais público que ingressaram até 2012, que têm uma situação de risco futuro mais elevado, porque a contribuição desses servidores, mais a do Estado, é insuficiente para garantir o pagamento dessas remunerações de inativos e pensionistas, e tem também quem entrou de 2012 para frente, que tem uma previdencia complementar. Esses últimos estão em um momento ótimo, só capitaliza. Então nós temos que ver essa questão, ver os cenários fiscais, se o Estado pode pagar esse déficit. Se, por acaso, esse fundo (das concessões) tiver condição de atenuar isso, é melhor pro Estado. Com isso, o Estado vai bloquear uma parte desse déficit através de seus ativos.


OP - Então vocês têm uma meta, a de cobrir o rombo. Haverá concessões até que esse fundo dê tranquilidade ao caixa estadual?

Maia Júnior - A orientação do governador é que a gente não só procure atuar nessa questão dos ativos, dimensionar bem isso, mas também melhore essa questão da previdência. Todos os recursos das concessões, a princípio, vão para esse fundo, para essa área, não vai se mexer nesse dinheiro para a gente ver se, com isso, a pode atenuar o processo da previdência.


OP - A sua entrada no Governo, ainda que seja sustentada como uma escolha profissional e não política, representa um canal do senador Tasso Jereissati, do PSDB dentro do governo Camilo. De certa forma, isso abre um horizonte de uma interlocução do Governo em Brasília, que hoje não há. Ao mesmo tempo, aumenta o isolamento do pmdb com relação ao Governo do Estado. Qual é o sentido político da sua ida para o Governo?


Maia Júnior - O sentido político eu vou deixar que o ambiente faça essa avaliação. A minha avaliação é que o convite foi técnico, profissional. Quem está indo é um quadro que é do PSDB e não vai negar que é do PSDB, mas quem tá indo é o profissional Maia Júnior. Não tenho como negar minha história e não negarei, o Ceará inteiro sabe da minha história de respeito e amizade com o senador Tasso. Temos um projeto muito alinhado em relação à questão pública e vamos continuar juntos nesse aspecto, sem dúvida nenhuma, da mesma maneira, não vou militar no momento, eu também não vinha militando dentro do PSDB. Eu não tenho cargo no partido, não vou, por questões éticas, militar politicamente, nem para o Governo Camilo, nem para o PSDB. Na minha época, havia vários do quadro do PT trabalhando comigo dentro do Governo. Por isso tenho essa relação boa com a maioria das pessoas do PT. O que é importante, em um momento como esse, não é as pessoas verem pelo lado pequeno, a gente não pode se apequenar na vida pública. O que eu vou tentar fazer é reunir essas equipes, esses programas e procurar agregar para esse Governo ser melhor. Isso é o que a população espera do governador, seus partidos políticos, suas equipes e esperam de mim também. Eu acho que a gente tem tanto problema no Ceará para ficar numa questão de quem vai é o Maia e o Maia é do PSDB. O Nelson (Martins) é do PT. Eu vou trabalhar com naturalidade dentro da linha que eu sempre trabalhei, respeitando as divergências, que elas são importantes, respeitando as posições contraditórias dentro da equipe, para buscar um consenso do que é melhor para o Estado.


OP - O senhor não se envolveu na campanha do Capitão Wagner.

Maia Júnior - Eu fui minoria dentro do PSDB e, em partido político, a gente tem que saber respeitar. Naquela época, eu defendia, como sempre defendi, que os partidos procurem lançar pessoas que, pelo menos na rua, eles saibam que vão defender as suas ideias. Eu vinha lutando muito no PSDB para a gente retomar esse caminho, de renovar o partido com novas pessoas, com novas ideias, e começar a apostar em novas lideranças que pudessem fazer pelo Ceará o que o PSDB sempre fez. Naquele momento, eu achava que era muito melhor apostar em uma liderança do PSDB.


OP - O senhor ja declarou que gostaria de ter sido prefeito de Fortaleza. Essa volta à vida pública pode significar voos mais altos?

Maia Júnior - Não, dentro dos inúmeros dilemas que me levaram a ser resistente com essa decisão (de assumir cargo no Governo) foi que, no momento, eu não via aspiração. Eu trabalho com uma quantidade imensa de pessoas na vida privada e eu sempre disse a eles que o que me fortalecia para trabalhar todo dia e fazer a empresa crescer era a aspiração deles, porque eu sabia que tinha profissionais que queriam crescer dentro do processo. E eu via com dificuldade (o convite) porque, no momento, eu não tinha nenhuma aspiração. Nunca tive aspiração pelo Legislativo, até porque sou muito operativo, e acho que ali se produz pouco. Tem muitas discussões, diferente da vida cartesiana do engenheiro, que é muito pragmático. Eu me sentia feliz que no fim do dia na Secretaria de Infraestrutura porque eu passava uma régua e dizia ˜hoje eu resolvi um problema de energia de não sei quantas mil pessoas˜, ˜hoje eu melhorei a estrada de não sei quantas mil pessoas˜. Isso, para mim, era uma coisa muito importante. Eu realizava, eu apurava o que eu realizava. Na política, acho que os que conversam comigo ao fim do dia não apuram nada, vão pra casa sem apurar e eu acho que, como engenheiro, eu tenho que todo dia apurar alguma coisa. Mas não tenho aspirações. Gostaria muito, contribui muito na Prefeitura, fiquei muitos anos lá. Lá foi minha vida pública e profissional inclusive. Eu tive esse sonho e tive essa oportunidade (de se candidatar à Prefeitura). Em alguns momentos essa oportunidade bateu na minha mesa e, no momento em que ela bateu, devo confessar que fui frouxo, achei que não era o momento. Um foi um convite de uma das maiores inteligências que Estado teve na na política, o senador Beni Veras. Foi na primeira eleição em que a Patrícia foi candidata, na época eu tinha o apoio do Ciro (Gomes), tinha o apoio do Tasso e do Beni para ser candidato, mas me sentia novo e me sentia orgulhoso de um trabalho que eu fiz na Seinfra, onde passei 8 anos como secretário. Depois tive uma outra oportunidade, ja fora do Governo, mas vi que não reunia condições. Foi nessa do Marcos Cals, mas eu ja me sentia um pouco fora desse contexto.Uma candidatura majoritáia não depende só da sua vontade, é um conjunto de coisas que desaguam em um momento onde você é ungido e dá certo. Mas acho que isso tudo já passou. Agora, o que eu quero muito é contribuir com o Estado.

TAGS