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IPCA retoma desinflação, mas pressão de alimentos preocupa, dizem analistas

15:20 | 08/07/2016
O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) retomou sua trajetória de desinflação em junho, interrompida momentaneamente em maio, e deve continuar perdendo força nos próximos meses, afirmam analistas ouvidos pelo Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado. Mesmo assim, a pressão do grupo alimentos preocupa e, em meio a outras incertezas, inclusive com a política fiscal, ainda não há consenso sobre quando começará o esperado ciclo de corte de juros.

O IBGE divulgou na manhã desta sexta-feira, 8, que o IPCA de junho subiu 0,35% ante maio, abaixo da mediana das previsões dos analistas ouvidos pelo Broadcast Projeções, de 0,37%. No acumulado em 12 meses, a inflação passou para 8,84%, de 9,32%. Para o Bradesco, a inflação deve continuar desacelerando e terminar o ano no teto da meta, de 6,50%.

O banco aponta que o IPCA do mês passado trouxe diversas notícias positivas. O índice de difusão, por exemplo, caiu de 63% para 55,2%, abaixo da média histórica pela primeira vez desde o fim de 2014. No mesmo sentido, o núcleo por exclusão acumulou alta de 6,8% nos últimos 12 meses, inferior à variação de 7,2% verificada em maio. "Por fim, o hiato negativo do produto continuou mostrando seu efeito desinflacionário sobre os preços de serviços, cuja variação positiva de 0,32% veio ligeiramente abaixo da observada em maio, de 0,36%", destaca o Bradesco.

Nem tudo vai bem, no entanto. O grupo alimentação tem surpreendido para cima, e o feijão, item essencial da dieta do brasileiro, ficou bem mais caro na passagem de maio para junho. O tipo carioca subiu 41,78%. Já o leite (longa vida) avançou 10,16%. Esses dois itens responderam por 60% do IPCA. O economista da RC Consultores Marcel Caparoz ressalta que a média de inflação em junho, desde 2005, é de 0,26%, ou seja, neste ano a inflação ainda foi mais forte.

Na análise do economista-chefe da Icatu Vanguarda, Rodrigo Melo, a inflação de julho pode voltar a acelerar, justamente por causa do choque das commodities. "Pode bater em 0,50% em julho. Mas em algum momento esse choque agrícola passará e a inflação vai desacelerar", explica. Já o professor de economia da PUC-RJ Luiz Roberto Cunha aponta que o período de junho a agosto tem mesmo taxas de inflação mais baixas, especialmente em invernos com frio ameno como tem sido este ano. "Épocas de temperaturas amenas são favoráveis à produção de frutas, verduras e legumes."

De qualquer forma, a inflação de junho também marcou praticamente uma vitória de Alexandre Tombini, que comandou o BC até o início do mês passado. Ele havia prometido em diversas ocasiões uma redução de dois pontos porcentuais no IPCA no primeiro semestre deste ano. A inflação saiu de 10,67% no final de 2015 para 8,84% agora, o que significa uma queda de 1,83 ponto. "Ainda está em nível elevado, longe de ser confortável, mas a tendência de desaceleração é visível", diz Melo, da Icatu.

Nesse contexto, ainda não há consenso entre os analistas sobre quando o Banco Central, agora sob o comando de Ilan Goldfajn, vai começar a cortar juros. A britânica Capital Economics diz que mesmo com a inflação em queda a resposta da autoridade monetária será lenta. "Ainda há incertezas sobre se o governo vai conseguir de fato apertar a política fiscal e os novos membros do Copom vão querer demonstrar suas credenciais de combatentes da inflação", diz a consultoria.

O gerente de renda fixa da Leme Investimentos, Paulo Petrassi, acredita que o BC deve iniciar um ciclo de corte de juros em outubro, com redução de 0,5 ponto porcentual. "Com a aprovação do impeachment de Dilma Rousseff, com o dólar voltando para perto de R$ 3 e se o governo conseguir passar a PEC do teto de gastos, talvez o início do ciclo de afrouxamento possa ser antecipado para setembro, mas seria necessário um cenário muito positivo, por isso nossa projeção ainda é outubro", aponta. Ele estima que a Selic, atualmente em 14,25%, deve terminar o ano a 13,25%, e pode cair a 11,25% no fim do ciclo de afrouxamento.

Apesar desse ciclo de corte não ter começado, alguns analistas já estão preocupados sobre o que vai ocorrer com a inflação em um futuro não tão distante assim. Caparoz, da RC Consultores, aponta que muitas empresas de serviços e comércio, por exemplo, não estão conseguindo repassar aumentos de custos aos consumidores. "Mas quando elas perceberem um início de recuperação da economia e uma melhora na confiança do consumidor pode haver pressão de alta nos preços", alerta.

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