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Lava Jato vira saia-justa para o Fórum Econômico Mundial

14:25 | 13/01/2016
A Operação Lava Jato da Polícia federal, que investiga um bilionário esquema de corrupção na etrobras, se transformou em uma saia-justa para o Fórum Econômico Mundial. A entidade, que se reúne a partir do dia 20 de janeiro na estação de esqui de Davos, tinha o ex-presidente da Odebrecht, Marcelo Bahia Odebrecht, como seu "co-presidente para a América Latina".

O empresário, hoje preso, foi ainda escolhido em 2006 como uma das jovens lideranças mundiais, no projeto do Fórum conhecido como "Jovens Líderes Mundiais".

Ao explicar a iniciativa, o Fórum destaca que os selecionados fazem parte das pessoas "mais brilhantes do mundo, a próxima geração de líderes". "Ambiciosos, corajosos, orientados à ação e empreendedores, essas pessoas dedicam parte de seu tempo para, juntos, moldar um futuro melhor e melhorar a situação do mundo".

Ao jornal "O Estado de S. Paulo", a entidade com sede em Genebra admitiu nesta semana que havia "suspendido a participação de Marcelo Odebrecht na Comunidade de Jovens Líderes Mundiais" no início do ano diante das "sérias alegações contra ele".

O banqueiro André Esteves, que também foi detido no Brasil, era outro que havia sido selecionado para o grupo de pessoas que "moldam um futuro melhor". Mas, segundo o Fórum, ele deixou de fazer parte do movimento ainda em 2013.

No ano passado, a entidade desfiliou a Petrobras de uma iniciativa de combate à corrupção e que tinha a empresa brasileira como uma das importantes doadoras de recursos para o projeto. Ainda assim, a estatal brasileira continua na lista de parceiros estratégicos do Fórum.

Em 2010, o Fórum ainda deu um prêmio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como "estadista global". "O presidente Lula é um modelo a ser seguido pela liderança global", afirmou Klaus Schwab, fundador do Fórum em nota à imprensa. Já em 2012, Schwab deu ao Brasil a possibilidade de organizar a festa de encerramento do evento, na estação de esqui. O governo gastou R$ 5 milhões para o banquete e música para impressionar os magnatas do mundo.

No evento com suíços caprichando na caipirinha, porém, nem Dilma, nem Tombini nem Guido Mantega, o ex-ministro da Fazenda, apareceram. Aquela foi a última vez que a participação do Brasil em Davos foi motivo de comentários eufóricos sobre o País.

Nesta quarta-feira, ao ser questionado pelo jornal "O Estado de S. Paulo" sobre os envolvidos na Lava Jato estarem relacionados com Davos, Schwab apenas "lamentou".

'Emergência parada'

Na reunião anual que realizará a partir de 20 de janeiro, o Fórum Econômico Mundial fará um alerta sobre a economia do Brasil: o País não fez as reformas enquanto sua economia se beneficiava do boom nos preços de commodities e, agora, promover uma transformação e criar um mercado mais produtivo será ainda mais difícil. Para o grupo, o Brasil "deixou, por enquanto, de emergir".

A presidente Dilma Rousseff era uma das figuras mais aguardadas, já que parte dos 2,5 mil empresários esperava ouvir da brasileira o que ela pretende fazer para restabelecer a confiança em seu governo. Mas ela acabou cancelando sua viagem e o Brasil, neste ano, desembarca com uma delegação pequena. O governo será representado pelo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, pelo ministro de Minas e Energia, Carlos Eduarda Braga, e pelo presidente do BNDES, Luciano Coutinho.

Mais de 50 chefes de governo ou Estado estarão neste ano na "Montanha Encantada" de Davos, entre eles o argentino Mauricio Macri, o mexicano Enrique Pena Nieto, o colombiano Juan Manuel Santos, mas também Alexis Tsipras, David Cameron, Joe Biden e o canadense Justin Trudeau.

Questionado se estava decepcionado com a ausência de Dilma, o fundador da iniciativa, Klaus Schwab, apontou que o foco agora ficará sobre Barbosa. "Vamos ouvir do novo ministro da Fazenda", disse. Philipp Rosler, chefe do Centro de Estratégias Regionais do Fórum de Davos, também destaca a presença de Barbosa. "O Brasil tem um novo ministro e essa é uma grande oportunidade para explicar o que estão planejando para o ano. Os empresários querem saber", afirmou.

Na sexta-feira, dia 22, Barbosa participa de um debate em Davos sobre como a América Latina pode criar resistências diante dos problemas econômicos enfrentados.

Para Jennifer Blanke, economista-chefe do Fórum de Davos, a realidade é que uma reforma econômica no Brasil promete ser "difícil". "Os anos bons, aqueles com um boom de commodities, era o momento de reformar a economia. Nós, no Fórum, já dissemos isso na época. O preço não iria continuar alto e o Brasil precisava olhar para sua produtividade. Lamentavelmente, eles não usaram esse momento para fazer as reformas. Em tempo de crise, será bem mais difícil", declarou.

Segundo a economista, o Brasil agora terá de "retornar ao básico". "Reduzir a burocracia, acabar com as oportunidades de corrupção, tornar o País atraente e construir novas ideias para sua economia", disse.

Emergentes

"Esperamos que seja apenas momentâneo", disse o chefe de Assuntos Geopolíticos do Fórum de Davos, Espen Eide, apontando que essa paralisação do desenvolvimento também foi registrada em outros países. "Alguns dessas economias emergentes deixaram de emergir", disse.

Em sua avaliação, a crise econômica não é a única que preocupa. "Em diversos países emergentes, as consequências políticas do choque vão continuar ainda. Para uma economia ser moderna e sólida, ela precisa de instituições sólidas. As instituições precisam ser mais importantes que os indivíduos", insistiu.

Para o diretor de Davos, a "confiança" entre a população e seus governantes precisa ser construída. "Esse é um capital social valioso e estamos vendo que, em muitos emergentes, esse é um dos aspectos da crise", disse.

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