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Confira íntegra da entrevista com José Maria Zanocchi

01:30 | 19/09/2015
Presidente da Câmara Brasil Portugal de Comércio, Indústria e Turismo no Ceará, José Maria Zanocchi, diz que insegurança jurídica, burocracia confusa, infraestrutura e segurança pública estão entre as principais queixas do estrangeiro que investe no Ceará. Ele diz que após o boom de investimento estrangeiro nos últimos 10 anos muitos se decepcionaram e desistiram dos empreendimentos. Se o setor turístico foi o foco principal desses investimentos na área imobiliária, hoje, com o real depreciado, Zanocchi diz que há boas oportunidades em Fortaleza, que tem grande oferta e muitas promoções.

Apesar das incertezas econômicas e políticas, Zanocchi diz que para quem pensa no longo prazo, as oportunidades estão aí. Para o presidente da entidade, o impacto econômico gerado por um centro de conexões de voos internacionais, como o que a Latam pretende construir no Nordeste, seria mais significativo do que uma refinaria de petróleo. Na entrevista seguir, Zanocchi fala de como o investidor português vê a atual crise brasileira e diz que será necessário um grande esforço para recuperar a confiança dos investidores.

O POVO - Como o senhor avalia os investimentos no mercado imobiliário do Ceará feitos nos últimos 10 anos?

José Maria Zanocchi - Nos anos 2000 tivemos a chegada de investimentos de diversas nacionalidades. Com predominância de português, italiano e espanhol, mas você viu muitos investimentos holandeses também. E agora, mais recentemente, você vê a chegada dos coreanos. Existia naquela época toda uma política governamental de atração de investimento, principalmente voltado para o Turismo. Com isso, o Ceará conseguiu atrair diversos investimentos, para competir com outros estados do Nordeste, como a Bahia, que estava evoluindo muito na área de hotelaria, com investimentos na área de resorts. E o Ceará, olhando para esse processo, quis ser protagonista.

OP - Para o senhor, os grandes empreendimentos feitos nesse período, como resorts, foram bem sucedidos?

Zanocchi
- Acho que esses empreendimentos foram pegos de surpresa pela questão da crise europeia. Porque muitos deles estavam desenhados para receber o mercado estrangeiro. E o produto para atender esse público era diferente. Então, nesse contexto, acho que foi satisfatório. Mas o resultado desses investimentos ainda vão aparecer. O tempo de maturação vai ser mais longo do que o previsto. O Aquiraz Riviera foi recentemente premiado o melhor resort do Brasil e o melhor resort da América Latina. Ninguém faz aquilo, daquele jeito, no Ceará.

OP - De que forma o hub da TAM ajudaria na atração de investimentos estrangeiros?

Zanocchi - Existe uma relação direta entre a chegada do voo da TAP e o incremento de investimentos estrangeiros no Ceará, especialmente vindo da Europa. Porque o pequeno e médio investidor passou a ter um acesso rápido e diário ao destino Nordeste, estando a sete horas de voo de Lisboa. Então, se o Ceará conseguir realmente captar esse hub virá um fluxo maior de pessoas e se a gente conseguir captar essas pessoas elas acabam ficando aqui, investindo aqui e vindo mais vezes a Fortaleza. Isso tem um impacto muito maior do que o de uma refinaria, por exemplo. Porque você estimula toda uma cadeia produtiva muito mais moderna, baseada em serviço e no comércio.

OP - O senhor vê o Aeroporto de Fortaleza como favorito?

Zanocchi - Acho que o Ceará está muito no discurso. É preciso que as pessoas realmente trabalhem de forma assertiva com dados objetivos, com realizações mais do que com palavras. É como o Beto Studart disse na abertura do Dialoga Brasil. “Nós não nos convencemos mais com palavras. É preciso ação.” O Aeroporto Pinto Martins tem que sofrer melhorias. Mas certamente que nós estamos torcendo. A Câmara Brasil Portugal tem se engajado nessa missão, e se for convidada colaborará com o Governo. Com o hub, você coloca mais o Ceará no mapa.

OP - Muito se falou que a Copa do Mundo 2014 ajudaria o Estado a atrair investimentos estrangeiros. Que mudanças o senhor percebeu de lá para cá?

Zanocchi - Não mudou muita coisa.

OP - Como o senhor vê hoje no mercado imobiliário local para estrangeiros?

Zanocchi - Não há mais como nos anos 2000. Ainda há lançamentos que estão sendo feitos, embora neste momento não haja muita procura. Há projetos iniciados no passado que agora estão evoluindo. O momento é de cautela, mas todo momento de crise oferece oportunidades, principalmente pela apreciação do euro em relação ao real. Se a gente conseguir encontrar investidores que estiveram olhando para o longo prazo, e que tenham confiança na economia brasileira, então certamente há boas oportunidades.

OP - Onde o senhor vê essas oportunidades?

Zanocchi - No momento, vejo oportunidades principalmente em Fortaleza, e não mais no litoral, porque há uma grade oferta de imóveis, com promoções, e pela infraestrutura da cidade, embora haja muito trabalho a fazer. Mas uma coisa que pouco se fala, e que a Câmara tem discutido, são as oportunidades no Interior, onde faltam hotéis e obras de urbanização. Então nós temos insistido com alguns investidores estrangeiros, principalmente aquele pequeno e médio, para que olhem para cidades como Sobral, Juazeiro do Norte, esses centros regionais. Porque, por algum motivo, os grandes grupos locais não estão olhando para esses centros.

OP - O que falta então pata que esses investimentos cheguem ao Interior?

Zanocchi - Acho que o principal fator é o desconhecimento. Se o português é visto como um alienígena em cidades do Interior, você imagina um italiano. Tem o problema da confiança também. Muitas vezes, o português quando chega aqui ele acha que está em Portugal. E que os negócios são feitos da mesma forma. Só que não são.

OP - Como presidente da Câmara Brasil Portugal no Estado, qual a queixa mais frequentes que o senhor ouve dos empresários portugueses?

Zanocchi - Desrespeito aos contratos, essa é uma queixa frequente. E isso vai desde o grande investidor até o individuo que vem comprar um imóvel aqui. Muitos foram engados por advogados, por corretores, por contadores. Isso acaba repercutindo nos ciclos familiares dessas pessoas, que poderiam ser embaixadores do Ceará e acabam sendo desembaixadores. Mas não só portugueses. A gente atende pessoas de diversas nacionalidades. Também há casos de estrangeiros que dão golpes em outros estrangeiros.

OP - Quais os gargalos mais visíveis para atração de investimentos ao Estado?

Zanocchi - Tem a questão da segurança pública, da segurança jurídica, do respeito aos contratos, a infraestrutura. É preciso de qualificação na área do Turismo, que as pessoas sejam treinadas para receber o turista estrangeiro, que haja infraestrutura de hotéis, restaurantes. Na Beira Mar, você não tem uma grande bandeira de hotel internacional, diferente de Salvador, por exemplo.

OP - O brasileiro tem investido em Portugal?

Zanocchi - Logo após a crise de 2008, Portugal lançou um programa chamado “Golden Visa”, pelo qual na compra de imóveis a partir de 500 mil euros a pessoa recebia um visto de residência europeu, que a habilitava a transitar livremente por toda Europa. Esse programa foi muito bem sucedido. E os brasileiros só perdem para os chineses e para os russos. Nessa época, havia muita oportunidade de negócios em Portugal e muitos brasileiros compraram imóveis.

OP - Na atual crise ainda há esse movimento?

Zanocchi - Sim, principalmente de pessoas que querem tirar o dinheiro do País. Mas existem fatores que dificultam. Primeiro os preços. O preço do imóvel na Europa é uma coisa que assusta. Outra coisa é que agora, do jeito que está, existe uma instabilidade tão grande, e houve uma desvalorização tão acentuada do real que eu acho que todo mundo, tanto os brasileiros como os estrangeiros estão todos cautelosos. Estão todos esperando que o Brasil faça seu dever de casa, que faça o ajuste de suas contas para poder, num horizonte, não muito distante ter uma previsibilidade para, aí sim, voltarem a fazer negócios. Acho que agora a maioria das pessoas está observando.

OP - Que oportunidades há hoje em Portugal?

Zanocchi - Acho que o mercado imobiliário ainda está bom em Lisboa. Ainda há boas oportunidades. Assim como no Algarve, que é uma região turística, onde vão muitos ingleses, alemães. É um lugar seguro, quente, onde os preços não são exorbitantes e, pela temperatura, a baixa temporada não é tão longa.

OP - Como o investidor estrangeiro, em geral, e o português, em particular, estão vendo a crise no Brasil?

Zanocchi - Está todo mundo boquiaberto. Não sabem como um País como o Brasil, que é um país novo mas com instituições consolidadas, chega a esse ponto de desordem. A questão talvez seja mais política do que econômica, porque o Brasil tem um mercado forte, tem 200 milhões de habitantes. Temos um mercado consumidor forte. Somos o celeiro do mundo. Temos riquezas naturais, temos petróleo, temos energia. Temos todas as condições, mas a política continua atrapalhando a economia.

OP - O que o senhor acha que pode ser feito para mudar essa imagem?

Zanocchi
- É preciso fazer um grande trabalho para recuperar a credibilidade. Os grandes grupos que aqui tentaram fazer negócios e foram embora, estes não vão tentar mais. Outros, se nós tivermos a capacidade para ter um ambiente institucional favorável, como ocorre na área de geração de energia, de se ter previsibilidade e segurança, aí sim acho que a gente tem condições para receber grandes investimentos de grupos sérios. Nesses anos, o Ceará recebeu muito investidor sem lastro para investir. Então nós temos que procurar os grandes grupos consolidados e sérios. Nós esperamos que o Ceará siga investindo em infraestrutura e que possa atrair novos investimentos.
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