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Íntegra da entrevista com Nilson Holanda

01:30 | 16/06/2012

No primeiro concurso do Banco do Nordeste (BNB), Antonio Nilson Craveiro Holanda, estava concorrendo. Foi aprovado e começou a trabalhar na instituição em 1955. Seguiu carreira até chegar à presidência do banco, cargo que ocupou de 1964 a 1979. Aos 76 anos, Nilson Holanda, mora em Brasília, é aposentado pela Universidade de Brasília (UNB) e dá consultorias. Em entrevista ao O POVO, o ex-presidente do BNB falou sobre como funcionava o banco até 1979, quando deixou as atividades por lá.

Como o senhor reagiu a essa onda de denúncias ao BNB?
para mim, foi um choque, né? Terminei minha administração em 1979. Durante os primeiros 25 anos do Banco do Nordeste, o banco foi a única instituição que jamais havia sido envolvida em qualquer escândalo e que jamais tinha criado quaisquer problemas para o Governo Federal. A partir daí, eu perdi o contato. O banco era uma instituição absolutamente excepcional, com padrões bem acima da média, em termos de competência, seriedade, de respeito da comunidade tanto política quanto empresarial. Então, esse banco que aparece nas reportagens é algo completamente diferente. Eu não sei até que ponto isso reflete um situação geral ou se é um fato isolado. De qualquer maneira, a gente fica chocado.

Uma das denúncias, essa do ex-chefe de gabinete do BNB, Robério Gress, é de que o banco estaria com direta interferência político-partidária nos cargos de diretoria e nas operações do banco. No período que o senhor estava na instituição, isso acontecia?
Havia alguma influência política. O banco foi criado ainda no regime democrático, ainda no Getúlio Vargas. O banco enfrentou a crise do Getúlio, depois veio a fase do Juscelino Kubitschek, que enfrentamos um período muito difícil do governo Jânio Quadros, porque o Jânio vinha com a proposta reformista, ele achava que estava tudo errado, um período em que houve uma intervenção no banco. O presidente foi o Antonio Alencar Araripe, indicado pelo Paulo Sarasate. Era um homem sério, mas sofreu muito a estratégia reformista do Jânio. Teve uma série de acidentes históricos favoráveis, um foi o Rômulo de Almeida, quando criou o banco e depois os 10 anos de Raul Barbosa, que consolidou a estrutura do banco. Depois veio o Governo Militar, que foi até mais fácil porque o banco tinha uma estrutura altamente técnica e foi beneficiado por isso. A Sudene foi muito prejudicada porque havia uma influência política muito grande nela. O banco não teve nenhum problema, porque os funcionário eram muito profissionais, não havia funcionário fazendo proselitismo político. Isso caía muito mal, a ética do banco é que era da instituição, da Região Nordeste.

Quando o senhor avalia que começou uma interferência política mais forte no BNB?

A coisa se complicou realmente a partir do governo Sarney, quando aumentou toda a politização da administração pública. Vivemos um período muito difícil, que foi o período do Fernando Henrique, quando, pela primeira vez, o banco apresentou um prejuízo. Durante 44 anos, o BNB era a única instituição federal que não tinha dado prejuízo. Foi um prejuízo de US$ 12 bilhões. Obviamente, isso foi resultado de operações que o banco fazia por ordem do governo.

O cenário é outro, mas o senhor considera que o BNB pode ter o mesmo rumo por qual já passou a Sudene, a extinção das suas atividades?

O Brasil é um País muito curioso. Ao invés de punir os maus administradores, você penaliza as instituições. Aqui no Brasil, sempre que há um problema de administração pública, não se pune o administrador público, pune-se as instituições. Ora, as instituições devem ser preservadas. Você deve punir quem traiu o mandato dessa instituição.

A mentalidade ainda hoje é de punir instituições ao invés das pessoas?

É a mesma. Então eu acho que há um perigo grande de que, em função desse escândalo, o banco seja... e aí nós teremos completado meio século de retrocesso em termos de política regional, porque você acabou com Sudene, acabou com Dnocs e acabou com o Banco do Nordeste. Vamos voltar à década de 1950.

No final, isso acaba apenando A Região Nordeste?

Não, isso é um desastre. O Governo tem dois projetos para o Nordeste. Uma é a transposição do Rio São Francisco, muito controvertida, que certamente vai ficar pelo meio do caminho. E o outro é a Ferrovia Transnordestina, que o Governo Federal está financiando 80% dos investimentos e o projeto não anda.

Como essa situação do Nordeste pode ser revertida?

Tem que haver uma reação das classes empresariais, as classes políticas, tentar restabelecer aquilo que a gente chamava de pacto de solidariedade regional. A Sudene representava um pacto regional, onde os estados se uniam para defender o interesse da região. Hoje cada estado só defende o interesse do próprio estado. Evidentemente isso enfraquece as reivindicações, porque os estados do Nordeste são todos pobres, exceto a Bahia que é um estado maior. Unidos já é difícil conseguir as coisas, desunidos, aí que não consegue mesmo.

Que comparações o senhor faria dessa situação atual do banco com o período da administração Bayron Queiroz, quando aconteceu a última grande crise no BNB?
Eu não quero falar sobre pessoas. Mesmo no período democrático anterior, o banco sempre foi respeitado. Havia indicações políticas, mas elas não se sobrepunham aquilo que era fundamental que era a administração e a gestão financeira têm que ser feitas de forma profissional. Sempre se procurou preservar o profissional sem nenhuma veiculação partidária. Uma coisa que nós observamos, eu vivi essa experiência, os políticos que foram diretores do Banco do Nordeste, quando chegavam ao banco, terminavam por entender a lógica do banco e não tentavam exercer nenhuma pressão política, porque eles percebiam que era aquela estrutura técnica que os protegia, porque amanhã ele não seria acusado de favorecimento de A ou B, porque a estrutura do banco não permitia aquele favorecimento. Havia uma separação muito clara entre o nível técnico e o nível política. Um gerente de banco no meu tampo jamais teria qualquer vinculação política. O gerente era um profissional absolutamente dedicado à instituição. Hoje têm gerentes autorizando operações por critérios políticos é uma aberração. Eu não consigo entender.

Essa estrutura técnica foi fragilizada?

Ela foi destruída. Para que essas coisas acontecessem, foi destruída a estrutura técnica que o Banco do Nordeste tinha. Os políticos que foram dirigentes do banco sabiam que eles podiam tomar qualquer decisão e assumiam responsabilidade por isso. Os técnicos sabiam que tinham liberdade para dar seus pareceres, ninguém impunha ao dirigente aceitar um parecer técnico, mas o dirigente que não obedecesse, ele assumia o risco. Não havia cooptação do quadro técnico. Hoje, está tudo misturado, ninguém sabe quem é técnico e que é político. Essa fronteira tem que ser definida com muita clareza.

No cenário atual, qual seria a solução adequada para o Banco do Nordeste?
Eu acho que teria que haver uma apuração rigorosa de todos os fatos, punição para os responsáveis e uma tentativa de fortalecer institucionalmente o banco para que ele possa superar essa fase. Agora, banco é fundamentalmente credibilidade, confiança. Quando uma instituição perde a confiança, tem a sua honra ameaçada, fica muito difícil. É possível, é uma obrigação moral e, se o banco, como banco de fomento, já foi um das mais importantes instituições da América Latina, não é possível que hoje, com os recursos técnicos que nós temos, você não possa recuperar a instituição e colocá-la em novos padrões. Isso que está acontecendo é a negação de tudo que nós acreditávamos e, durante tantos anos, trabalhamos para construir. É preciso tirar as conclusões corretas e não as equivocadas, como essa de extinguir a instituição, porque algum mau administrador passou por ela.

Há interesse do Governo Federal de fortalecer o Banco do Nordeste?
Em uma empresa privada, o maior interessado no sucesso da empresa é o dono da empresa. Às vezes, na empresa estatal, o dono, que é o governo, é que não está interessado no seu sucesso, está com outros objetivos políticos. Eu pergunto por que é que o governo tenta preservar o BNDES e o Banco do Brasil e não preserva o Banco do Nordeste e o Banco da Amazônia. Porque existem pressões políticas maiores até, mas o governo mantém controle absoluto da direção do Banco do Brasil e do BNDES deixa à margem os bancos regionais, esses sim podem ser levados ao esquartejamento por interesses políticos.

 

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