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Análise

A diplomacia que fala fino e fala grosso

Confira a coluna Meio Político, escrita semanalmente pelo jornalista Guálter George

18:55 | 25/07/2018

É de Chico Buarque o termo que ficou marcado como o grande elogio à era petista da diplomacia brasileira. Disse ele, em ato de apoio à então candidata Dilma Rousseff, que disputava a presidência da República: "o Brasil agora não fala grosso com a Bolívia e fino com os Estados Unidos". Talvez seja hora de repassar a história diante da atuação do ministério das Relações Exteriores do governo Michel Temer. 
 
 
Em relação a dois episódios pontuais recentes, pelo menos, pode-se dizer que as palavras do artista perderam completamente o sentido: o caso das crianças brasileiras mantidas afastadas dos país em abrigos pelo governo norte-americano, em ação contra a imigração ilegal, e o assassinato da jovem estudante de medicina pernambucana Raynéia Gabrielle Lima, que aconteceu na Nicarágua. Na primeira situação, silêncio, cuidado e alguma dose de covardia; na segunda, muito barulho, ação firme e uma valentia política impressionante.
 

O chanceler Aloysio Nunes Ferreira, um senador do PSDB que tem um passado de protagonismo na guerrilha brasileira de esquerda, nos anos de governo militar, hoje alinha-se em outra visão de mundo. Nada de extraordinário, não seria o primeiro caso de quem pensa as coisas de uma certa forma em determinado momento e refaz conceitos e muda de convicções em outra passagem da vida. Há, inclusive,  exemplos de quem fez o caminho contrário, saindo de uma linha conservadora, de direita ou o  que valha, para uma postura considerada progressista, de esquerda ou algo assim.
 
 
Desde quando noticiou-se as desumanas condições em que autoridades dos Estados Unidos estavam tratando cidadãos brasileiros, cerca de 52 das quais crianças, o prestigiado Itamaraty permaneceu entre o calar e o gaguejar nas suas manifestações. Claro que há um problema de origem, porque eram famílias inteiras tentando entrar de maneira ilegal em território norte-americano, mas, a despeito disso, faz-se necessário que o governo atue em defesa dos seus nacionais. No mínimo, para exigir que recebam tratamento digno, o que não tem acontecido.
 
 
O ministro, que esteve no local onde os pequenos brasileiros permaneciam detidos, distante dos pais ou responsáveis, chegou a dar declarações á saída que tentavam amenizar o quadro. Ora falando de condições "muito boas, considerando a limitação de privação", ora destacando que há bom "atendimento, "do ponto de vista material, até do ponto de vista psicológico", enfim, o tempo todo tentando se demonstrar compreensivo diante de uma situação absolutamente inaceitável. 
 
 
No exemplo da crise com os excessos do estilo Trump, diplomacia do diálogo levada ao seu extremo. Já em relação à pobre Nicarágua, pequena e isolada politicamente, disposição quase nenhuma para conversa e diante das primeiras informações de que uma brasileira fora assassinada em circunstâncias ainda por serem esclarecidas, dentro de um país há algum tempo entregue a uma grave crise política, adotou-se logo medidas de linha mais agressiva. Exigência de explicações ao governo de lá, convocação da embaixadora para dar explicações e chamamento do representante brasileiro em Manágua de volta a Brasília.
 

Falar grosso com Ortega e fino com Trump, de fato, não representa praticar diplomacia com o nível que permite a alta qualidade dos quadros técnicos do nosso Itamaraty. 

GUÁLTER GEORGE