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Quem investiga não pode ser investigado

Confira a coluna Meio Político, escrita semanalmente pelo jornalista Guálter George

19:44 | 20/06/2018
O caminho que poderia levar à instalação da barulhenta CPI das Delações Premiadas já parece mais difícil do que se demonstrava antes na Câmara dos Deputados, diante da indisfarçável má vontade do presidente Rodrigo Maia (DEM-RJ). Uma pena, porque seria uma chance excepcional de se esclarecer as muitas dúvidas que surgiram sobre a aplicação do importante instrumento nas investigações em curso no País, que cresceram muito devido à disposição quase nenhuma de Ministério Pùblico e de Justiça de fazerem eles próprios uma apuração realmente firme nas suas instâncias de controle das histórias nebulosas de um submundo de negociações dos acordos entre advogados e acusados, com benefícios prováveis anunciados, inclusive em dinheiro, para agentes públicos.

É equivocada a ideia que se tenta estabelecer de que qualquer crítica às ações relacionadas à Lava Jato indicam intenção deliberada de deslegitimar ou mesmo inviabilizar a operação. Erro grave, porque uma das maneiras de fortalecer o que tem sido feito é, exatamente, manter suas ações abertas ao acompanhamento dos cidadãos, corrigindo-as sempre que verificada a procedência de uma irregularidade eventual apontada. Encobrir ou esconder problemas nunca será solução para garantir o fortalecimento necessário de um processo cujo avanço é de interesse da sociedade.

Nos últimos dias, deu-se uma corrida vergonhosa de parlamentares ao comando da Câmara para solicitação de retirada de seus nomes de uma lista de assinatura para instalação de uma CPI cujo objetivo seria investigar a tal suspeita de que um grupo de advogados ofereceu condições especiais a investigados, alegando prévio acerto com gente vinculada às instâncias de investigação. Vergonhosa porque isso representa o Congresso abre mão de um papel que é seu, ampliando mais ainda um vácuo institucinal que pouco ajuda à necessidade de construção de um ambiente de tranquiliade qauando se trata de acreditar no que move os envolvidos numa das maiores ações de combate à corrupção que o País já vivenciou.

Os primeiros interessados em ver tudo esclarecido deveriam ser os procuradores e os magistrados que, enfrentando duras adversidades em vários momentos, tocaram adiante as investigações que resultaram no desmonte de uma teia criminosa que atuou durante anos, a partir da política, para prática de desvios de recursos públicos. O apoio que a sociedade tem emprestado à operação resulta, numa parte grande, da alta confiança que há nas intenções e na honestidade de todos os envolvidos, o que faz ainda mais fundamental que a transparência e a disposição de enfrentar e corrigir os erros seja absoluta.

O pensamento de que não existe mais a figura do intocável é a base principal do momento novo do Brasil que, ironicamente, a Lava Jato tenta demarcar com suas ações implacáveis e certeiras. Será mais fácil todos entendermos que assim o é, de fato, na medida em que também os festejados agentes públicos responsáveis pela condução da operação aceitarem ter seus atos submetidos à investigação necessária, pondo-se a limpo qualquer dúvida apresentada e lhes permitindo mostrar, como diferença fundamental em relação àqueles que mantêm sob alvo, de que não temem porque não devem.
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