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Os homicídios e o nosso silêncio injustificável

Confira a coluna Meio Político, escrita semanalmente pelo jornalista Guálter George

19:33 | 06/06/2018
Há muita coisa clamando por um conserto na realidade brasileira. Nenhuma, porém, com a urgência de termos um plano para reverter as dramáticas estatísticas de homicídios com as quais temos convivido de maneira passiva, ultimamente, apesar de serem números assustadores. O Atlas da Violência 2018 que acaba de ser tornado público, a partir dos números produzidos no ano de 2016, indica um quadro de guerra imposto a um País que, na formalidade, vive tempos de paz.

Foram 62 mil e 517 homicídios entre 1º de janeiro e 31 de dezembro do período estudado. Segundo fui lembrado, vamos nos deparar com números ainda mais impactantes quando os dados de 2017 e 2018 forem consolidados, porque nestes anos o cenário de violência agravou-se ainda mais, com sequências de chacinas e outras ações que fizeram crescer sensivelmente o sentimento geral de que a situação ameaça sair do controle. O quadro do Rio de Janeiro, que levou a uma transferência da gestão da segurança no estado às forças federais, é o mais emblemático exemplo do quanto a conjuntura piorou. 

[SAIBAMAIS]Surpreendente, para mim, é que o debate de hoje no Brasil inteiro não esteja pautado por esta situação alarmante. Na perspectiva, em especial, de apontar caminhos que podemos trilhar para o começo de uma mudança, algo que não acontecerá num passo de mágica, exigirá paciência, consciência e articulação dos entes públicos. Não será tarefa de um governo trazer os números brasileiros da violência à racionalidade, precisaremos de tempo para que isso aconteça.

Seria necessário que o tema estivesse colocado de maneira racional no debate eleitoral prestes a começar, do qual resultará, acredita-se, a chegada de um novo presidente e o começo de um novo governo. Não para que busquemos um herói apto a resolver toda a situação com voluntarismo e ações radicais, excêntricas algumas delas, mas, ao contrário, para que a discussão leve ao entendimento de que uma crise de tal complexidade exige um ataque às causas para ser revertida. O País precisa definir um projeto de Estado para um combate eficiente e duradouro ao quadro de insegurança pública, do qual faz parte a verdadeira epidemia de homicídos que se registra.

Para hoje, agora, independente de campanhas eleitorais, é preciso que a situação incomode mais a cada um de nós, vítimas dela, afinal. Não apenas àqueles que governam e que se sentem obrigados a dar uma resposta por razões, muitas vezes, meramente eleitorais. A indignação precisa ser de todos, simpatizantes de quem ocupa o poder, aliados de quem luta para afastá-lo ou mesmo de quem se mantém indiferente às disputas políticas naturais de uma democracia.

Vamos repetir: 62,5 mil homicídios no período de 12 meses é estatística de País em situação de guerra declarada. O Brasil,  a despeito de sua complexa situação política, econômica e social, experimenta um momento de normalidade institucional que não comporta números de tal grandiosidade. Sem contar as várias leituras que um mergulho nos dados brutos permite, identificando que há perfis preferenciais de vítimas e que a condição social, econômica e de raça ajuda a explicar muita coisa relacionada à situação. Este, porém, é um debate complementar, a ser feito num segundo momento.
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