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ANÁLISE

O dinheiro da Cultura, o grito do ministro e o governo que acabou

Confira a coluna Meio Político, escrita semanalmente pelo jornalista Guálter George

16:59 | 13/06/2018

Vamos concordar que o governo Michel Temer virou uma bagunça. A reação do ministro da Cultura, Sergio Sá Leitão, ao corte de recursos para sua pasta como resultado de realocação orçamentária exigida pela entrada em vigência real do Sistema Único de Segurança Pública (Susp) foi coisa de casa que já não tem dono e de um presidente que parece ter perdido por completo o controle sobre os subordinados. Assim não fosse, o tal ministro estaria demitido assim que a nota começou a circular.

Um breve resumo da situação: Sérgio Sá Leitão soltou nota na última terça-feira chamando de "equívoco" a transferência de recursos da Cultura para o Susp e anunciando que iria "trabalhar incansavelmente" pela modificação da Medida Provisória assinada por Michel Temer que a prevê, já tramitando no Congresso. Deu para entender? Um ministro investe contra uma iniciativa do governo do qual faz parte, certa ou errada, e diz que atuará contra ela no ambiente parlamentar! Como diriam lá no Iguatu, mais do que bagunça, virou (respeitosamente) bodega.

Outro sinal de que a coisa desandou foi o fato de a Agência Brasil, espaço oficial de notícias do governo, haver anunciado que o ministro iria pedir demissão. Logo depois, já depois de uma nova nota emitida por Sérgio Sá Leitão, na qual ele parecia mais consciente da função e do espaço que ocupa, inclusive esclarecendo que não iria trabalhar contra a MP, mas em apoio ao projeto do Minc (?!!), informava-se que ele permanecia no cargo e que a agenda dos próximos dias como ministro, inclusive, estava mantida.

Aliás, mais um sinal de que o governo Michel Temer virou "desgoverno" é a própria permanência no cargo do atual titular da Cultura. Na surpreendente manifestação inicial, mais verdadeira do que a segunda nota cheia de cuidados artificializados, revelou-se um auxiliar que não está mais em linha de sintonia com o presidente e um membro de primeiro escalão do governo que não parece mais a fim de encarar os sacríficos pessoais que ele impõe hoje àqueles que o integram.

Ainda no caso específico de tirar dinheiro de outras áreas para ter como dar forma ao Susp, há queixas também do esporte. Neste caso, porém, o ministro manifestou sua resistência em outro tom, reclamou que a atenção ao esporte é fator importante de combate à violência e, enfim, deixou seu recado de desagrado com a situação. Fê-lo, sem agravar a autoridade de um chefe que, abalado que esteja pelas circunstâncias de uma impopularidade recorde, permanece sendo o dono da última palavra quando se trata das decisões de governo.

A gestão Temer vai até 31 de dezembro de 2018, diz o calendário institucional brasileiro, embora a verdade diante dos olhos de todos nós indique que ele já acabou. O episódio, somado a vários outros cada vez mais comuns, de menor e maior monta, indica o tamanho do sacrifício que nos estará imposto, como cidadãos, para que o período seja atravessado com o mínimo possível de dores. Cabendo-nos, ainda, rezar para que em 1º de janeiro de 2019 tome posse alguém apto a assegurar tempos mais tranquilos para o País.

GUáLTER GEORGE