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Os aplausos assustam, não o discurso de Bolsonaro

Confira a coluna semanal do jornalista Guálter George

19:35 | 23/05/2018
Vale uma boa reflexão o conteúdo geral da palestra do pré-candidato à presidência da República pelo PSL, Jair Bolsonaro, para seleto grupo de empresários, segunda-feira passada, durante almoço na Associação Comercial do Rio de Janeiro. O que ele anda dizendo me preocupa menos porque afinal é o que sai de sua boca faz tempo, ninguém pode acusar o deputado federal fluminense de, por conta de seus planos eleitorais ousados para 2018, ter buscado agora amoldar seu discurso àquilo que o público queira ouvir. Quem mudou, neste caso, foi quem hoje o aplaude pelo Brasil afora.

Homens de negócios, senhores engravatados, gente "do bem" etc compactuou com declarações agressivas, hostis, provocativas, através de aplausos entusiasmados em vários trechos da fala do polêmico pré-candidato no encontro do Rio. Uma tragédia, pois o homem público que estava ali se dispõe a assumir a condição de presidente da República em janeiro de 2019 e o cargo que almeja exige, como mínimo, capacidade de ouvir o diferente, respeitá-lo quando respeitado, enfim, de governar para todos. Nos casos de desrespeito, aplica-se o rigor da lei e não a violência como política de Estado. 

Argumentos que até bem pouco mereceriam repreensão e crítica hoje são abraçados, restando-nos tentar entender como essas pessoas imaginam que seria a vida no País prevalecendo o modelo que Bolsonaro anda defendendo como ideal, fundamentado no ódio e numa sociedade necessariamente dividida. Aos empresários, alguns extasiados ao ouvir tais palavras, o pré-candidato sugeriu "chumbo" contra quem invadir uma propriedade privada. Claro que não é o caso de compactuar com quem invade, mas, evidentemente, a maneira de combater a prática não é fazendo uso do "chumbo", do "lança-chama", outra recorrência de Bolsonaro no seu discurso, mas com o governo impondo-se diante da desordem e da barbárie. Parta de onde partir.

Sequer é o caso de abordar, olhando para o mesmo evento, a infelicidade do pré-candidato ao sugerir uma precarização do mercado de trabalho como alternativa para gerar mais empregos. Na sua abordagem cheia de primarismo o País precisa de uma legislação trabalhista que "beire a informalidade", expondo uma visão tosca do problema e indicando muita dificuldade para encaminhar soluções que insiram de maneira correta o interesse de quem trabalha. É outro fator de constrangimento observar a reação entusiasmada que esse tipo de manifestação determina de empresários que se dizem modernos, mas, como trata-se de uma "violência" diferente, a discussão sobre ela fica transferida para um outro momento.

Repito, preocupa menos o discurso do candidato do que o aplauso daquela plateia que deveria representar um Brasil civilizado, ao qual deve interessar um governo, de direita, esquerda ou centro, progressista ou conservador, que mantenha a ordem contendo a violência e não estimulando-a. Convenhamos que não fica bem a quem se propõe a assumir o comando do País sugerir o uso da violência por forças do Estado como instrumento de resolução de conflitos, considerando-se que a busca da pacificação impõe-se entre as tarefas prioritárias de quem vier a ser o próximo presidente da República dividida do Brasil. 
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