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O Brasil diante dos "espirros" da Argentina

Confira coluna semanal do jornalista Guálter George

19:36 | 09/05/2018

Do alto de minha ignorância sobre como funciona o mecanismo da economia, vejo ir à lona a Argentina do presidente Mauricio Macri, o celebrado homem que tirou o país das mãos "irresponsáveis" e "populistas" dos Kirchner, enquanto nós, aqui no Brasil de Michel Temer, vivemos os nossos sobressaltos cotidianos sem efeitos diretos maiores aparentes do que lá acontece. Por quê? Afinal, até outro dia qualquer susto de um parceiro importante, como o é o vizinho sul-americano, nos afetava quase que
imediatamente.

É importante olharmos a questão por sua importância política, até, considerando o momento de tantas divisões originadas apenas no ódio e em diferenças meramente doutrinárias. A sociedade brasileira dispõe hoje de uma situação mais confortável do que no passado, segundo sou levado a entender lendo o que há disponível acerca do quadro, porque governos de visões ideológicas e de compreensões de mundo diferentes, nos últimos 24 anos, pelo menos, souberam estabelecer um consenso mínimo numa área fundamental à estabilidade macroeconômica do País: a administração de suas reservas internacionais.

Um tucano, Fernando Henrique Cardoso, estabeleceu lá atrás as bases de um processo que o petista que veio depois dele, Luiz Inácio Lula da Silva, optou por preservar e, até, em alguns aspectos, aprofundar. É o caso da formação das reservas internacionais brasileiras, que, em janeiro passado, acumulavam volume superior a US$ 380 bilhões, funcionando de maneira decisiva para manter a confiabilidade na nossa capacidade de atender aos compromissos eventualmente firmados com o mercado, especialmente aqueles que são de curto prazo.

Dilma Rousseff, a outra petista que veio depois de Lula e que acabou atropelada por um processo de impeachment que interrompeu seu segundo mandato consecutivo, enquanto esteve no cargo resistiu firme às pressões, especialmente de aliados, para disponibilizar as reservas ao seu esforço de reversão de um quadro de crise econômica que já naquele momento se manifestava. Michel Temer, que herdou o poder dela e que hoje nos preside aos trancos e barrancos, blindou a área econômica de seu governo, cheio de político e de política para todos os outros lados, permitindo que se mantivesse inalterado o tratamento de preservação responsável das reservas, a despeito das necessidades imediatas do País que a microeconomia precisava (e precisa) encontrar um jeito de resolver.

Claro que não é um ponto pacífico e que correntes econômicas importantes defendem um uso diferente dos recursos, dando-lhes consequência mais objetiva na, chamada, economia real. A alegativa é que a fórmula atual serve mais ao mercado do que ao cidadão. Vale o debate, mas o fato objetivo é que hoje lidamos com os nossos problemas internos, decorrentes de decisões tomadas por um governo de plantão, sob muito menos pressão exterior do que havia antes.

Erros e acertos acontecem, como é normal, sem que as receitas prontas tentem impor saídas que não considerem as peculiaridades de cada mercado ou sociedade. Portanto, os "espirros" fortes da Argentina ainda não trouxeram qualquer sinal de "resfriado" para o Brasil, o que nos tranquiliza, mas não nos deve acomodar. Apenas precisa ser ressaltado como indicação de que, muitas vezes, a briga pelo poder pode se dar sem trazer consigo um sentimento fratricida em relação ao País e aos seus interesses.

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