É boa a resposta dos militares à histeria
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É boa a resposta dos militares à histeria

15:40 | 30/05/2018
É particularmente assustador confessar isso, mas, vou reconhecer, as declarações de vozes militares têm sido mais tranquilizadoras em tempos recentes do que o comportamento de gente da própria imprensa. Isso, no debate sobre as consequências possíveis do ambiente de gritos, faixas e outras manifestações de apelo por uma intervenção das Forças Armadas na democracia brasileira, interrompendo-a a pretexto de por ordem no País. Uma bobagem que não deve convencer sequer aqueles que se abraçam à proposta sem saber ao certo o que ela contém ou para onde nos encaminharia.


Acompanhei nos dias mais quentes da mobilização dos caminhoneiros que paralisou o País algumas das várias entrevistas de autoridades de alguma forma envolvidas com a busca de soluções e, mais do que as respostas, fiquei paralisado por algumas perguntas. Percebi muitos repórteres interessados em saber de generais, por exemplo, se não estava faltando "energia" das tropas para lidar com os bloqueios. O que consegui vislumbrar daquela curiosidade, presente, repito, em mais de uma conversa coletiva com jornalistas que acompanhei ao vivo, foi a ideia de que alguém, em meio a tanto caos, ainda conseguiu sentir falta de confronto ou  repressão. Pelo menos em quantidade maior, já que conflitos houve.


Foi nesse contexto que considero ter encontrado uma postura bastante serena dos oficiais provocados acerca do tema. O caso mais exemplar, na minha ótica, foi o do general Sérgio Etchegoyen, principal assessor militar do presidente Michel Temer, chefe do seu Gabinete de Segurança Institucional, que, chamado a falar sobre o clima nos quarteis e nas Forças Armadas diante dos pedidos por intervenção militar, agiu, no conteúdo e na forma, de uma maneira aquietadora. Claro que nunca se pode deixar de considerar que sejam meras palavras de alguém que se sente confortável no papel estratégico que ocupa dentro de um governo que, à parte traições e "golpismos", resulta de um processo democrático e de alguma forma se legitima nele.


Acontece que a forma vale tanto quanto o conteúdo em algumas situações. Esta é uma delas. O general Etchegoyen não saiu a produzir frases prontas, declarações protocolares etc, ao contrário, elaborou uma resposta muito sofisticada, recheada de metáforas, recados, humor como elemento eficiente de transmissão (e captação) de uma mensagem e, até, uma dose de cobrança correta a estudiosos e jornalistas para se fazer um mergulho mais profundo no problema no sentido de se buscar o "por quê", ao invés de ficar apenas lendo as faixas estendidas por gente que não tinha, e não tem, a mínima ideia do peso político que aquilo carrega de fato.  


Houve falas na mesma linha de outras vozes importantes das Forças Armadas, como a do interventor na segurança do Rio de Janeiro, general Braga Netto, quando também provocado sobre o assunto, diferenciando-se, em relação ao general Etchegoyen, no aspecto importante em que este último costuma ser apresentado como uma liderança ouvida com respeito no ambiente militar. É, portanto, a visão exposta de quem fala não apenas por si, mas de quem representa um pensamento de peso e que é considerado no espaço que se tenta estimular a uma nova aventura que a realidade geopolítica mundial contemporânea não estimula e nem conseguiria sustentar.
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