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Ciro, o bom de briga é ruim de estratégia

Confira a coluna semanal do jornalista Guálter George

22:30 | 11/04/2018
Ciro Gomes é um problema para Ciro Gomes. Continua sendo, na verdade, porque há um arquivo histórico da sua vida pública que o acompanha e ajuda muito a explicar as derrotas nas vezes em que correu atrás do sonho da presidência da República, especialmente naquela campanha de 2002. Quem ganhou foi Lula, do PT, mas ficou no ar um sentimento de que aquele momento seria naturalmente do ex-governador cearense, até que ele desandou a fazer e dizer bobagens. Parte das quais o perseguem até hoje.

A situação volta à baila quando Ciro perde mais uma oportunidade de mostrar que finalmente adquiriu maturidade e que já é capaz de manter o autocontrole quando provocado. Como o foi, nesta terça-feira, pelo blogueiro Artur do Val, ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL) e um notório agitador de direira, cujo espaço nas redes sociais sempre serviu às tentativas de tirar do sério, ou tentar, gente de pensamento mais à esquerda, nicho que o político cearense disputa com outros pretendentes ao Palácio do Planalto em 2018.

[SAIBAMAIS]O provocador foi lá e fez o que gosta de fazer: provocou! O que continua sendo estranho é que Ciro Gomes, já com seus 61 anos de idade, pelo menos 35 deles no meio da política, ainda não consiga ter sangue frio para, simplesmente, ignorar. Sobra para sua equipe de assessores, que desde ontem luta para minimizar o episódio, reduzindo tudo a mera fake news etc, mas o fato é que houve o entrevero. É possível que muito menor do que o blogueiro gaúcho propagandeia e faz circular, embora também pareça claro que o que aconteceu tem suficiente força política para causar um estrago na estratégia de recuperação de uma imagem que se mantém desgastada no aspecto do equilíbrio emocional.

O problema, em tais horas, é que o caso nem precisa mesmo ser grave, de contundência efetiva. Do tamanho que for ele basta para acionar a memória popular sobre os episódios do passado nos quais Ciro Gomes apareceu com protagonismo negativo pela sua incapacidade de conter o ímpeto violento, normalmente no campo apenas da verborragia, embora também haja as situações nas quais levou sua reação ao plano físico. Foi o que aconteceu agora, de novo.

Houve aquele dia em que ele quis descer de um palanque para enfrentar no braço um grupo de manifestantes, ou aquela ocasião na qual desclassificou os médicos com os quais teve desentendimento de ordem política comparando-os ao sal, por ser "branco, barato e ter em todo lugar". Dois exemplos, entre muitos, de como Ciro usou sua personalidade forte para tentar se impor no Ceará que governava, entre 1991 e 1993, época, claro, em que era muito mais jovem, o que terminava ainda permitindo uma certa compreensão com aquele jeito impetuoso de debater, discutir e resolver.

A trajetória, já incluindo a parte em que ele ganha status de nome da política nacional, apresenta outros fatos na mesma linha que se somam e ajudam a reforçar uma imagem que não é boa, dificultando um projeto que mira a cadeira mais alta do País, de cujo ocupante se espera, como mínimo necessário, que demonstre equilíbrio. É contra isso que Ciro Gomes precisa, mais experiente, encontrar administrar melhor quando lança em mais uma disputa eleitoral pela presidência da República. Até porque, reconheça-se, a verve se mantém no alto nível de sempre.
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