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O mundo fantástico, e irreal, de Michel Temer

Confira coluna semanal do jornalista Guálter George

19:04 | 14/03/2018
Matérias que vi publicadas relatando o conteúdo de um discurso do presidente Michel Temer para empresários em São Paulo, outro dia, expunham uma realidade apresentada com nível tal de deturpação que avaliei conveniente checar se realmente acontecera conforme publicado. Foi então que assisti à íntegra do pronunciamento disponível em site da NBR (estatal de TV do governo) e, ao constatar que o relato era verdadeiro, percebi o grau preocupante de alienação que domina hoje o nosso principal governante em relação ao que realmente acontece à sua volta. 

Um dos trechos da fala, no qual expõe a sua luta para aprovar uma proposta de reforma trabalhista que encaminhara ao Congresso, Temer lembra a um dos presentes das situações em que ele (o presente) mobilizou "multidão para aprovar" o que seu governo estava fazendo. Multidão para apoiar as reformas do governo Temer?! Quando? Onde? Talvez seja uma das passagens mais impressionantes como demonstração do distanciamento entre a realidade que a vontade oficial constrói para vender aos seus e aquela que realmente está presente à vida de todos nós. 

O governo atual conseguiu mesmo levar adiante algumas matérias de grande complexidade, aprovando-as no Congresso, mas o fez em função de um toma-lá-dá-cá dos mais ostensivos e espúrios que nossa história política já registrou. Claro que não se pode exigir de Temer que seja ele a reconhecer que assim o foi, porém, dai a dizer que o povo aplaudiu o que se fez existe uma distância que governismo cego nenhum será capaz de encobrir. As ruas, no geral, manifestaram-se numa postura de resistência em relação à pauta abraçada pelo Planalto na era Temer, demonstrando a falta de qualquer sentido na citação de uma mobilização a favor que nunca houve. Pode-se dizer que no futuro o que está acontecendo será reconhecido como algo de grande importância, desde que se admita que o presente é de profunda rejeição. Quem tiver dúvida é só checar os índices humilhantes de aprovação que o governo apresenta.

Ainda mais entusiasmado quando abordou a luta atual para manter na agenda a reforma previdenciária, o presidente Michel Temer passou a transitar entre o delírio e o escárnio ao falar de sua saga e das resistências que enfrenta. O clássico caso da pessoa errada dizendo a coisa certa se vê materializado no conjunto de críticas que ele apresentou à falta de lógica de um sistema que permite a "privilegiados", que diz estar enfrentando com sua coragem cívica, ganharem mais de R$ 30 mil por mês de aposentadoria como servidor público, enquanto o regime geral impõe hoje um limite de pouco mais de R$ 5,6 mil como teto remuneratório mensal ao trabalhador comum.

No fundamento, até que um discurso correto. Na prática, porém, falava ali um homem de 77 anos, aposentado desde os 55 como Procurador do Estado de São Paulo, condição na qual recebe atualmente cerca de R$ 44 mil mensais. Portanto, para levar a sério a indignação do presidente com a situação seria necessário, primeiro, que ele apresentasse uma autocrítica tamanho grande e oferecesse alguma perspectiva de ressarcir os cofres públicos pelos ganhos indecentes dos últimos 22 anos, mesmo que legalmente justificados, como "privilegiado" servidor público aposentado. 

Para piorar tudo, finalmente, o presidente da República que quis se apresentar forte demonstrou-se fraco. Sua constatação de que o País perdeu completamente a ideia de hierarquia, de autoridade, tem a ver com o governo atual e o comportamento dos seus integrantes. Concentrando-se em apenas um (mau) exemplo, de muitos disponíveis, foi Temer quem abriu as portas da residência oficial da presidência da República para receber tarde da noite, e fora da agenda, uma pessoa que naquele momento estava sob investigação da Polícia Federal. Falo do caso Joelsey Batista, que lhe rende dor de cabeça até hoje. É incrível que quem protagonizou algo de tão baixo nível venha reclamar, agora, do desrespeito ao senso de autoridade no País.

Michel Temer, um experiente e septuagenário político, mostra com seu exemplo que, de fato, o poder cega, especialmente quando a disposição prévia é de não enxergar. 
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O mundo fantástico, e irreal, de Michel Temer

Confira coluna semanal do jornalista Guálter George

19:04 | 14/03/2018
Matérias que vi publicadas relatando o conteúdo de um discurso do presidente Michel Temer para empresários em São Paulo, outro dia, expunham uma realidade apresentada com nível tal de deturpação que avaliei conveniente checar se realmente acontecera conforme publicado. Foi então que assisti à íntegra do pronunciamento disponível em site da NBR (estatal de TV do governo) e, ao constatar que o relato era verdadeiro, percebi o grau preocupante de alienação que domina hoje o nosso principal governante em relação ao que realmente acontece à sua volta. 

Um dos trechos da fala, no qual expõe a sua luta para aprovar uma proposta de reforma trabalhista que encaminhara ao Congresso, Temer lembra a um dos presentes das situações em que ele (o presente) mobilizou "multidão para aprovar" o que seu governo estava fazendo. Multidão para apoiar as reformas do governo Temer?! Quando? Onde? Talvez seja uma das passagens mais impressionantes como demonstração do distanciamento entre a realidade que a vontade oficial constrói para vender aos seus e aquela que realmente está presente à vida de todos nós. 

O governo atual conseguiu mesmo levar adiante algumas matérias de grande complexidade, aprovando-as no Congresso, mas o fez em função de um toma-lá-dá-cá dos mais ostensivos e espúrios que nossa história política já registrou. Claro que não se pode exigir de Temer que seja ele a reconhecer que assim o foi, porém, dai a dizer que o povo aplaudiu o que se fez existe uma distância que governismo cego nenhum será capaz de encobrir. As ruas, no geral, manifestaram-se numa postura de resistência em relação à pauta abraçada pelo Planalto na era Temer, demonstrando a falta de qualquer sentido na citação de uma mobilização a favor que nunca houve. Pode-se dizer que no futuro o que está acontecendo será reconhecido como algo de grande importância, desde que se admita que o presente é de profunda rejeição. Quem tiver dúvida é só checar os índices humilhantes de aprovação que o governo apresenta.

Ainda mais entusiasmado quando abordou a luta atual para manter na agenda a reforma previdenciária, o presidente Michel Temer passou a transitar entre o delírio e o escárnio ao falar de sua saga e das resistências que enfrenta. O clássico caso da pessoa errada dizendo a coisa certa se vê materializado no conjunto de críticas que ele apresentou à falta de lógica de um sistema que permite a "privilegiados", que diz estar enfrentando com sua coragem cívica, ganharem mais de R$ 30 mil por mês de aposentadoria como servidor público, enquanto o regime geral impõe hoje um limite de pouco mais de R$ 5,6 mil como teto remuneratório mensal ao trabalhador comum.

No fundamento, até que um discurso correto. Na prática, porém, falava ali um homem de 77 anos, aposentado desde os 55 como Procurador do Estado de São Paulo, condição na qual recebe atualmente cerca de R$ 44 mil mensais. Portanto, para levar a sério a indignação do presidente com a situação seria necessário, primeiro, que ele apresentasse uma autocrítica tamanho grande e oferecesse alguma perspectiva de ressarcir os cofres públicos pelos ganhos indecentes dos últimos 22 anos, mesmo que legalmente justificados, como "privilegiado" servidor público aposentado. 

Para piorar tudo, finalmente, o presidente da República que quis se apresentar forte demonstrou-se fraco. Sua constatação de que o País perdeu completamente a ideia de hierarquia, de autoridade, tem a ver com o governo atual e o comportamento dos seus integrantes. Concentrando-se em apenas um (mau) exemplo, de muitos disponíveis, foi Temer quem abriu as portas da residência oficial da presidência da República para receber tarde da noite, e fora da agenda, uma pessoa que naquele momento estava sob investigação da Polícia Federal. Falo do caso Joelsey Batista, que lhe rende dor de cabeça até hoje. É incrível que quem protagonizou algo de tão baixo nível venha reclamar, agora, do desrespeito ao senso de autoridade no País.

Michel Temer, um experiente e septuagenário político, mostra com seu exemplo que, de fato, o poder cega, especialmente quando a disposição prévia é de não enxergar. 
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