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O alvo dos tiros contra o PT é a democracia

14:29 | Mar. 28, 2018
Autor Guálter George
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Guálter George Editor executivo de Política
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Tipo Notícia
Somente uma democracia doente, como se apresenta esta que temos hoje no Brasil, reage da forma passiva como há sido registrado às ações violentas contra o grupo liderado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que percorreu, nos últimos dias, cidades do sul do País. Gostar ou não do que defende o Partido dos Trabalhadores (PT), do que diz Lula ou dos resultados dos (quase) quatro governos em sequência liderados pela sigla é uma outra discussão, boa de ser feita em outra perspectiva. Neste caso, a obrigação de todos os campos ideológicos, até como gesto de inteligência, deveria ser o de condenar energicamente e pedir uma investigação rigorosa do caso, para identificar os autores dos tiros contra os ônibus da caravana petista e buscar suas responsabilizações perante a justiça.

Em muitas repercussões desvia-se o debate para um alegado histórico violento do partido e de sua militância. É uma espécie de "colheram o que plantaram" verbalizado pelo governador de São Paulo, e presidenciável tucano, Geraldo Alckmin, pelo menos na primeira versão de sua análise sobre o caso. Depois, certamente após pensar melhor e ver o tamanho da besteira que proferira, até, insisto, como autodefesa, veio uma protocolar condenação da violência contra a caravana, que era petista, mas poderia ser tucana, emedebista, socialista, liberal, comunista, direitista, enfim, poderia ter qualquer conotação ideológica e não mereceria o tratamento que recebe desde o primeiro quilômetro dos deslocamentos pelas cidades do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

Pensar diferente faz parte do jogo, fortalece o ambiente democrático, até, desde que regras básicas de convivência entre contrários sejam respeitadas. Nenhuma delas, certamente, legitima qualquer ação cujo objetivo seja calar o outro, impedir que ele expresse sua opinião, inviabilizar seu ir e vir, porque é assim que a política funciona de fato, valorizando o contrário e botando as ideias para disputar espaço. Usar a violência, chegando-se ao extremo de atirar contra um veículo apenas porque dentro dele estão pessoas que vêm o mundo de outra forma que eu, nunca poderá ser tolerado por uma sociedade que se diga civilizada.

Em resumo, não há situação que justifique os acontecimentos destes últimos dias e, com especialidade a parte dos tiros, a repulsa das forças políticas, todas elas, deveria ser contundente e incontinenti. Não é o que tem acontecido e a passividade geral poderá nos custar caro na perspectiva de futuro, seja este próximo, com as eleições de 2018 que caminham para um nível de violência na campanha nunca antes observado, seja o de médio e longo prazo, já que podemos caminhar para um mundo de intolerância política, em que ter opinião, dependendo de qual seja, ameaça voltar à categoria de crime.

Confesso minha incapacidade de entender o que está por trás do comportamento adotado, em especial, neste momento, pelos que não gostam do PT, muito menos de Lula, dentro da estrutura institucionalizada da política. Aceitando-se a criminalização da atividade, estimulando atos de intolerância apenas porque eles estão voltados para "o outro lado", ajudando a naturalizar o que não é natural, nem pode ser, enfim, escolhendo um caminho que sabem todos que não há como nos levar a um bom destino. A vítima neste momento é um partido e uma liderança específica, mas, não pode haver dúvida quanto a isso, o alvo é muito maior e não exclui ninguém. Entre os democráticos, pelo menos.   


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