Participamos do

Na democracia, a melhor arma é a palavra

Confira coluna semanal do jornalista Guálter George
22:43 | Mar. 21, 2018
Autor Guálter George
Foto do autor
Guálter George Editor executivo de Política
Ver perfil do autor
Tipo Notícia
O Brasil dos tempos atuais naturaliza com grande frequência situações que, vasculhando melhor, encontraremos no nascedouro de algumas das tragédias que compõem os seus dramas cotidianos. Lamentavelmente, a cada dia mais cotidianos. É, por exemplo, o País que assiste sem maiores atenções um cenário de confronto iminente no Rio Grande do Sul em meio à passagem da caravana liderada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, recebida por onde passou no estado, até agora, por grupos cuja postura situa-se alguns níveis acima do que seria possível denominar apenas como fruto da rejeição natural a um político e ao partido dele. Há ódio, muito ódio.

O ambiente é hostil, não há santo de nenhum dos lados e, de repente, abre-se um cenário que praticamente anuncia uma nova situação com potencial de nos envergonhar aos olhos do mundo na perspectiva de uma sociedade que se diga democrática. Já não há mais aquela nação estereotipada como exemplo de convivência entre diferentes, como espaço quase único da geografia mundial onde até os diálogos impossíveis pareciam encontrar espaço para acontecer. Hoje, muitas vezes, sequer a conversa entre brasileiros está mais exequível.

Há gente armada presente às tensões dos últimos dias no Sul entre petistas e seus contrários, Lula e seus antagonistas, entre quem quer vê-lo em liberdade e aqueles que comemoraram de maneira antecipada sua prisão quase inevitável. São imagens fortes e preocupantes, uma situação que exigiria das autoridades de segurança locais, do governo emedebista de José Sartori, preocupação que levasse ao desencadeamento de uma ação de caráter preventivo, de antecipação ao que ameaça acontecer. Como passo inicial, tomando as armas de todos que se apresentarem de posse delas, porque o País em que vivemos, até onde a lei se faz prevalecer, não oferece a ninguém o direito de sair por ai ameaçando dar tiros em quem quer que seja.

O PT sabia, muito possivelmente, que iria encontrar ambiente hostil na sua programação por terras gaúchas. Até imagino que tenha calculado a situação quando decidiu fazer a caravana, já realizada antes no Nordeste, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo, sem registro de tensão além daquela que diz respeito a qualquer ato político que aconteça hoje em torno da figura do ex-presidente Lula. Nas etapas anteriores à atual também houve protesto, houve vaia, críticas e ataques, mas tudo mantendo-se no limite do que determina uma vida civilizada, sem gente armada e sem tentativa de impedir o ir e vir das pessoas.

É sofrido ver o ponto ao qual foi levado o debate político no Brasil, substituindo a sua arma mais letal, que sempre foi o bom argumento, pela força bruta. As pessoas podem não gostar do Lula, podem reprovar sua conduta pública, podem defender sua condenação como passo necessário à melhoria da política, mas em circunstância alguma lhes é dado o direito de impedir que fale ou se movimente. Não dentro de um ambiente onde a palavra democracia seja prenunciada a sério.

Dúvidas, Críticas e Sugestões? Fale com a gente