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A trágica morte e a discussão que precisa nascer com ela

21:55 | 04/10/2017

Luiz Carlos Cancelier era reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) desde 2016. Nada havia contra ele que o desabonasse até o último dia 14 de setembro, já neste 2017, quando uma equipe da Polícia Federal bateu à sua porta para prendê-lo, sob acusação de tentativa de obstrução de justiça em meio a uma investigação sobre desvio de recursos na instituição que acontecera, inclusive, antes de sua chegada ao cargo. O final da história é trágico, porque Cancelier, liberado posteriormente, nunca se recuperou de verdade e chocou seu estado, e o País, atirando-se na última segunda-feira, dia 2, do quinto andar de um movimentado shopping da capital, Florianópolis, pondo fim ao sofrimento interior e à própria vida.

Um gesto extremo, de quem, alegando inocência, sesentiu humilhado pela prisão e as condições em que ela foi executada. Segundo relatava em desabafo com amigos e nas poucas entrevistas, com algum esforço dos policiais federais em humilhar as pessoas conduzidas, gente conhecida da sociedade e do mundo acadêmico, professores e diretores da instituição. Aliás, o mais lamentável é que se estranhou ali um tratamento que não difere daquele oferecido no cotidiano das ações policiais. Como tudo que acontece hoje no Brasil, a partir do lamentável episódio o esforço agora é de apontar o dedo e encontrar culpados, nominando-os, pelo desfecho trágico.

O caso é grave e precisa ser analisado com profundidade para entender as suas razões, até buscando-se identificar e punir responsabilidades pelos excessos, mas, fundamentalmente, o importante é que se tire dele todas as lições possíveis. É fato que o País vive tempos em que as investigações resvalam para o espetáculo com grande facilidade, especialmente quando agentes vão às ruas para operações que precisam começar a ganhar a mídia pelos nomes. Porém, reagir com sentimento de revanchismo pouco ajudará na necessidade urgente de se encontrar saídas reais e definitivas.

O caso Cancelier torna mais profunda a necessidade de se discutir a opção preferencial recente pela prisão quase como primeira iniciativa, invertendo-se a lógica natural de uma boa investigação. O constrangimento público parece ter virado uma perigosa arma de convencimento da opinião pública, cujo apoio pode virar uma ameaça ao esforço de buscar justiça quando gera uma dependência. Há sinais de que isto acontece neste País de grandes, frequentes e espetaculosas operações policiais no qual o Brasil se transformou.

O gesto fatal e desesperado do ex-reitor catarinense há de servir para uma reflexão que ajude a por ordem nas coisas e não para desestruturá-las mais ainda. O que precisamos é de uma racionalização do debate e dos comportamentos, demonstrando-se urgente que as autoridades entendam a importância de não expor os investigados, de respeitarem a presunção de inocência, de resguardaremdireitos individuais que a sociedade conquistou à custa de luta, e até sangue, de muitos.

Lamente-se que as distorções do processo, constantemente apontados aqui e ali, já tenham uma vítima fatal direta a contabilizar. Mas, pelo menos, que se saiba honrar a sua memória, agora, corrigindo os erros, excessos e abusos para que a situação reencontre seu rumo natural e se tenha de volta a boa sensação de que finalmente vemos um Estado capaz de agir de uma maneira que atinja também aos mais poderosos, àqueles que historicamente se sentiam imunes aos seus efeitos.

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