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MEIO POLÍTICO

Com quantos encontros casuais se faz uma crise?

19:45 | 13/09/2017

O que fazia o Procurador-geral da República num bar movimentado de Brasília naquele sábado, um dia depois de encaminhar ao STF um pedido de prisão que, aceito (como o foi), apresentava todas as condições para causar mais um pequeno turbilhão em meio ao grande furacão em que se transformou a política brasileira? O que há de mais incompreensível no comportamento de alguns dos protagonistas da Lava Jato, pelo lado da investigação, é a insistência que apresentam de manter uma agenda social como se nada de anormal estivesse acontecendo à volta deles.

Confesso considerar este aspecto mais preocupante do que, por exemplo, a polêmica em torno do conteúdo provável da documentada conversa de Janot no local com o advogado Pierpaollo Bertoni, que vem a ser o defensor do empresário Joesley Batista, de quem o chefe do Ministério Público acabara de solicitar a prisão. O encontro entre os dois pode mesmo ter sido casual, como ambos alegam, mas o ruim é que tenha acontecido naquelas circunstâncias, criando dúvidas para a fase delicada da investigação, às portas de uma nova denúncia contra o presidente da República, próximo do fim do mandato do atual Procurador-geral da República, enfim, numa hora em os passos precisam ser ainda mais cirurgicamente precisos.

Para evitar constrangimentos que possam contaminar o importante trabalho que desenvolvem, policiais, procuradores e juízes precisam entender que o momento exige deles o sacrifício da reclusão social como prioridade. Sérgio Moro, por exemplo, abre brechas importantes às críticas quando insiste em manter sua intensa atividade extrafuncional, assumindo postura de quase estrela pop em muitas oportunidades. Coisa absolutamente inadequada para uma carreira que já impõe discrição como regra, mas acentua muito tal exigência nas situações em que a exposição gratuita apresenta risco de prejudicar o processo. É o caso, concretamente.

Uma foto no qual o juiz paranaense é visto trocando confidências, aos risos, com o senador Aécio Neves, até hoje lhe rende questionamentos que só fazem sentido porque o fato realmente existiu. A imagem resulta de uma situação verdadeira, acontecida em dezembro de 2016, durante um evento da revista Isto É, na qual o magistrado e o parlamentar constavam na lista de homenageados. É evidente que cabe a Moro hoje, e não a Aécio, redobrar cuidados nas aparições públicas, resumindo-as ao mínimo suficiente e necessário. Neste caso, por exemplo, os prejuízos são evidentes, inclusive porque o tucano apareceria depois em flagrante explícito de corrupção.

As acusações de que o titular da 13ª Vara Federal do Paraná vale-se de motivações político-partidárias para direcionar suas investigações contra o PT e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ja condenado por Moro em uma das ações que lá enfrenta, encontram algum tipo de respaldo em imagens como esta que o evento da Isto É permitiu produzir. É a mesma situação agora de Janot com seu colega Pierpaolo, imaginando-se que havendo algo de ilegal em discussão ela não aconteceria sob a luz pública, num bar e emoldurada por toscos engradados de cerveja. Portanto, se alguém poderia ter contribuído para que a polêmica foto não existisse era o visado procurador-geral da República, evitando estar ali, e não o bem remunerado profissional que defende um dos empresários mais ricos do País.

GUáLTER GEORGE