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Novos atores e um velho aparelhamento

18:10 | Mai. 17, 2017
Autor Guálter George
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Guálter George Editor executivo de Política
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Tipo Notícia

Uma das mais fortes críticas que se fazia ao “jeito PT” de governar era o fato de o processo de ocupação dos cargos federais estar marcado pelo aparelhamento político e partidário. Uma verdade incontestável e de consequências trágicas, conforme aparece de maneira clara no escândalo dos desvios milionários na Petrobras, em boa parte estruturados a partir da distribuição das diretorias entre partidos com base na capacidade dos indicados de arrecadar propinas e fazê-las chegar aos aliados. Cheguei a imaginar que um novo governo traria uma nova prática, o que faz de mim um irremediável ingênuo.

Vejamos o caso da Polícia Rodoviária Federal, cujo superintendente no Ceará acaba de ser substituído em atendimento a pressão política de um grupo de deputados federais. Polícia Rodoviária, é isso mesmo!? Haverá poucos exemplos iguais de cargos cuja ocupação deveria se dar dentro de critérios absolutamente técnicos, livres de qualquer tipo de ingerência, especialmente as de origem política. Sai Stênio Pires, entra Marcos Sena, e fica, incólume, uma prática ruim e que resiste às mudanças de orientação partidária e ideológica nos governos.

Tudo que tem sido revelado ultimamente acerca dos bastidores das indicações para cargos de confiança na era PT impunha que, agora, se cobrasse parâmetros novos no processo de preenchimento. O critério político pode ter peso, não é, em si, um problema, desde que esteja considerado dentro de um conjunto equilibrado de elementos e que não seja o aspecto isoladamente definidor da escolha.

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O que preocupa neste caso da substituição na PRF, portanto, são os sinais de preponderância do aspecto político. Ou seja, vê-se uma prática condenável reafirmada, mudando apenas os atores e, pior, agora com participação direta daqueles que até outro dia se diziam críticos dela. O indicado é irmão de um vereador em Fortaleza, o que dá ainda mais força à desconfiança de que o parentesco forte na política foi decisivo para o bater final do martelo.

O episódio mostra que a simples mudança de um governante ou a remoção de um partido do poder, pela ordem natural do voto ou pela instância legal do afastamento, é insuficiente para garantir melhorias efetivas no trato do interesse público. É até possível que o indicado seja mais competente do que o sucessor e que aconteça uma melhoria no sofrível policiamento dos trechos cearenses das estradas federais, mas o roteiro que o inspetor Marcos Sena cumpriu para chegar o posto é o mesmo de outros filmes de final muito pouco feliz, Para a sociedade, pelo menos.

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