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Não basta ser, é preciso parecer que é

16:32 | 31/05/2017

Há momentos que, de tão estranhos, criam em mim a sensação de que não vivo a mesma realidade que encontro retratada em determinadas informações e análises que circulam sobre o momento político. Por exemplo, quando se aponta o nome do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso como uma das possibilidades de escolha indireta para suceder Michel Temer, caso este seja afastado ou se afaste do cargo de presidente da República, na perspectiva de "acalmar o País". Na minha lista, dentro deste esforço de pacificar uma população dividida pelo ódio político, o nome dele seria um dos últimos, bem último mesmo, a ser considerado.

Independente do nome em si, qualquer conversa acerca de sucessão de Temer, especialmente se através de eleição indireta, precisará considerar um perfil de aceitação mínima dentro dos vários segmentos político-partidários que se digladiam atualmente pelo poder no País, quase de maneira autofágica. Precisaria ser alguém com alguma capacidade de interlocução com tucanos, petistas, peemedebistas e outros segmentos mais que tanto fazem parte do problema como precisam estar integrados à busca pelas soluções. Quando, claro, se imagina como ideal uma alternativa que não arranhe a institucionalidade.

O pós-Temer, se vier antes do previsto no calendário - que seria o começo de 2019, com eleições no final de 2018 -, exigirá ainda mais dos líderes políticos. Os parlamentares frustraram as expectativas da sociedade, de alguma forma, quando escolheram para presidência das mesas do Senado e da Câmara, alheios à crise ética e moral instalada, dois nomes já citados no âmbito da Lava Jato. Rodrigo Maia, do DEM, pelos deputados, e Eunício Oliveira, do PMDB, pelos senadores. Sem pré-julgamento nos dois casos, porque são denúncias em fase ainda embrionária de investigação, mas o momento recomendava escolhas mais cuidadosas.

Quanto mais distanciamento ativo o nome apresentar do atual cenário partidário menos chances haverá dele enfrentar resistências para o esforço inicial, que será necessário, de juntar os bons, de todas as siglas e, se possível, ideologias, para uma travessia rumo à próxima eleição. Vive-se uma excepcionalidade que exige muito cuidado na condução de cada passo, especialmente nos momentos de maior delicadeza, como este que ora enfrentamos, em que um presidente questionado na sua legitimidade desde a posse faz a crise se ampliar protagonizando, pessoalmente, já no cargo, novos episódios demonstradores de que a capacidade da política de produzir escândalos não parece encontrar barreira e nem limite.

A próxima etapa da crise, dando-se como inevitável a queda de Temer e de seu governo, oferecerá uma nova chance de demonstrar que alguma lição ficou de erros anteriores. A busca de um nome "limpo" ajudará, e muito, no estabelecimento de um ambiente político que ajude o Brasil a encontrar o caminho que levará, enfim, à saída para um quadro que se demonstra tão angustiante quanto desafiador e persistente.

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