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Ser impopular não é uma qualidade, nem nunca será

13:24 | 05/04/2017

A política é uma ciência dinâmica e, como tal, comporta revisão, atualização e até criação de conceitos a partir do que a realidade circunstancial venha a exigir. Portanto, há como considerar natural o movimento que hoje se observa de buscar uma nova forma de enxergar vínculos entre a popularidade de um governante e a capacidade dele impor medidas de difícil aceitação pela sociedade devido às suas características negativas, mesmo que eventualmente necessárias. O que se tenta estabelecer agora é a ideia de que a relação seria inversamente proporcional, ou seja, que ao governante menos apoiado haveria maiores condições para tocar uma pauta impopular.

O debate tem a ver com o momento atual brasileiro, onde um presidente da República que ostenta uma faixa de aprovação em torno de 10% tenta liderar um agressivo processo reformista, com uma inédita frente simultânea de pautas aparentemente difíceis de tocar no Congresso Nacional. Há ousadia na postura de Michel Temer, que decidiu levar adiante uma agenda parlamentar que inclui mexidas profundas nas legislações trabalhista e previdenciária, por exemplo, apesar das pesquisas indicando que seu apoio popular seria insustentável até para um governante cujo objetivo fosse apenas se manter. A considerar sua própria avaliação da época em que via problemas para Dilma permanecer no Palácio do Planalto com o nível baixo de apoio popular que apresentava às portas do impeachment.

A tese que muita gente boa há defendido, entre analistas e políticos, é de que a falta de apoio popular acaba sendo uma espécie de trunfo para quem governa. O que se diz é que, sem preocupação de preservar simpatias, olhando para o caso presente, Temer sente-se à vontade para fazer o que precisa ser feito. Uma ideia, com todo respeito, que não tem pé e nem cabeça.

É inimaginável que funcione num ambiente democrático uma relação entre governo e povo, no qual a capacidade de um não atender o outro funcione como balizador de eficiência. O normal está no contrário, muito claramente. Há consenso, como reforço a esta tese, na constatação de que ninguém seria eleito em 2014 defendendo as reformas que Temer decidiu abraçar desde a primeira hora em que sentou na cadeira presidencial. O sentido de permitir à sociedade o direito de escolher quem vai governá-la está na capacidade que tiver o eleito de atender sua expectativa e não de contrariá-la.

Caso cheguemos à conclusão de que a relação que vale é a inversa, aplicando-se o novo entendimento de popularidade em construção, o problema brasileiro parece maior do que o que temos percebido. A ideia de que o bom político é aquele que dá as costas para as urnas futuras e age descompromissado com o julgamento popular fere de morte a compreensão de que o voto representa o meio mais eficaz de permitir à população que escolha quem considera realmente apto a comandar o seu destino. Colocar a questão nesta perspectiva representa, no fundamento, discutir se vale a pena pagar o preço de ser uma democracia.

 

 

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