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Guálter George

Quem financia a corrupção é corrupto

12:00 | 19/04/2017

Está faltando um tratamento aos executivos e dirigentes da empreiteira Odebrecht pelo termo que realmente fazem por merecer, depois de tudo que tem sido revelado em seus depoimentos como delatores premiados: corruptos! Assim, exclamativamente. Claro que há motivo nas denúncias apresentadas até agora para a grande irritação que a sociedade demonstra com os agentes públicos de governo e os políticos detentores de mandatos flagrados em negociatas que desviaram bilhões (com "b") de reais dos nossos combalidos cofres. No entanto, são chocantes a desfaçatez e o cinismo que aparecem na forma como aqueles sisudos homens de negócios fazem seus relatos.

Dei-me ao trabalho de repassar um conjunto grande de vídeos entre os depoimentos tomados dos dirigentes da Odebrecht e não vislumbrei uma situação sequer, um relato pontual que fosse, em que alguém esboçasse qualquer reação diante daquele cenário de verdadeiro achaque, conforme alguns, protagonizado pela classe política. Pelo contrário, nota-se uma postura de convivência absoluta e tranquila com a situação, surreal e vergonhosa, e, quando muito, coloca-se em questão os valores exigidos. É o máximo de insurreição que se encontra em meio às falas daqueles senhores de aparência séria, engravatados e de terno quase todos, considerados executivos de alta competência, responsáveis pelo dia-a-dia de uma empresa cujo faturamento anual superava a faixa da centena de bilhões (com "b") de reais.

É certo que merecerão punições implacáveis os políticos, parlamentares, chefes e ex-chefes de Executivo nas mais variadas instâncias, enfim, quem valeu-se de mandatos obtidos nas urnas para trair a confiança popular e negociar propinas sobre o pretexto que for. Mesmo que pareça sempre necessário, também, advertir que o processo ainda tem uma caminhada a percorrer, no campo judicial, não podendo gerar qualquer condenação apenas com base nas tais delações. É preciso que tudo seja checado. No entanto, o que estes senhores representantes da iniciativa privada fizeram, pelo outro lado do balcão, demonstra-se igualmente reprovável e exige do aparelho de justiça uma resposta na forma de punição de peso semelhante ao reservado para os políticos.

Em resumo, teremos feito apenas uma parte do necessário ao processo de depuração caso a punição seja duramente exemplar contra os políticos e mansamente exemplar em relação aos empresários e seus representante neste ambiente turvo em que se transformou o gasto público com obras no Brasil. E, por favor, olhem a lista do ministro Edson Fachin evitando qualquer carimbo partidário ou ideológico. Quem for atrás de uma linha comum à bandalheira a encontrará muito mais clara na ação dos que financiavam o duto da corrupção nacional do que entre aqueles que, na outra ponta, recebiam a propina para suas campanhas eleitorais ou com objetivo de enriquecimento ilícito.

A denúncia clara que aparece é a de que tínhamos empresas, na área das obras públicas de construção civil, incapazes de brigar por espaço no mercado valendo-se apenas de suas reconhecidas competências e da capacidade técnica de apresentar vantagens diante de concorrentes. O irônico é, em trecho determinado do depoimento de Emílio Odebrecht, vê-lo falando do alto investimento que fazia em seus executivos mandando-os ao exterior para conhecer como é enfrentar um ambiente de concorrência. A considerar o protagonismo da empreiteira em tudo que tem sido revelado que acontecia nas últimas três décadas de política nacional para fraudar licitações e fugir de disputas comerciais, conforme recorte do próprio Emilio, o pessoal não aprendeu nada. Este dinheiro parece que também saiu pelo ralo.

GUáLTER GEORGE