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A justiça de todos, coxinhas e petralhas incluídos

16:27 | 26/04/2017

O ofício de dar opinião com equilíbrio anda meio em xeque no Brasil. Uma coisa estranha. É só ver algumas reações ao que tem sido escrito neste espaço, nos comentários que acompanham textos anteriores, para sentir como o mundo anda exigindo de todos uma linguagem que seja logo identificável como petralha ou coxinha. Mesmo daqueles que, não sendo uma coisa e nem outra, posicionam-se buscando esperar que a justiça continue fazendo-se prevalecer na confusão política que envolve o Brasil dos últimos anos.

 

Outro dia mesmo, numa roda de conversa de alto nível, vi em discussão o tema da gravidade da denúncia feita pelo empresário Leo Pinheiro, da OAS, contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para recordar, ele acusou o petista, durante depoimento recente ao juiz Sérgio Moro, da Lava Jato, de tê-lo orientado a destruir eventuais provas de que dispusesse acerca de pagamentos irregulares feitos a João Vaccari, à época tesoureiro do partido. Claro que a unanimidade dos presentes concordou se tratar de uma acusação contundente e que complica muito a situação de Lula dentro da investigação.

 

A discordância veio quando uma parte passou a defender como necessário que o empreiteiro juntasse provas à sua fala, em relação a este fato e também quanto à outra denúncia do mesmo depoimento, onde cravou que o tal triplex do Guarajá seria mesmo de propriedade do ex-presidente. Uma outra parte dos presentes, ao contrário, relativizava a necessidade, considerando inimaginável que ainda exista alguém capaz de acreditar que o petista seja inocente, que Dilma Rousseff não soubesse de nada à sua volta, que pareça possível oferecer o benefício da dúvida a políticos como Renan Calheiros, Aécio Neves, José Serra etc etc.

 

Era uma discussão fundamentada na boa fé, não se tratava do vale-tudo que envolve as redes sociais, o que torna ainda mais preocupantes aquelas manifestações pouco atentas à necessidade de exigir consistência das condenações, sejam quais forem os atingidos por elas. Um agente público flagrado em irregularidades precisa, de fato, de um corretivo ainda mais exemplar pelo fato de sua ação direta ilegal envolver desvios de dinheiro que, em muitos casos, deveria chegar a setores vitais à sociedade mais necessitada, valendo sempre citar saúde e educação. No entanto, o que entendo é que também contra eles sempre será necessário que as punições aconteçam respaldadas pelas provas devidas e na oferta básica do direito ao contraditório.

 

Confesso que a cada dia fica mais cansativa a tarefa de, qual Sísifo, carregar uma pedra até o topo da montanha sem nunca conseguir chegar ao objetivo final. Exigir de cada autoridade que cumpra sua tarefa, no limite mas sem abuso, nunca deveria ser entendido como manifestação pró-alguém dentro de um ambiente em que o Brasil assiste, de forma inédita, pessoas de alto calibre social e econômico serem levadas ao banco dos réus e, mais importante, enfrentarem a prisão. Com ânimos mais serenados, a situação hoje deveria unir todas as pessoas de bem, incluídos coxinhas e petralhas eventuais, no apoio à aplicação rigorosa, e honesta, das leis para que a justiça se faça. O que representa, numa conclusão simples, punir quem merece punição e inocentar quem se demonstrar inocente.

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