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A declaração de guerra e a convocação da tropa

12:00 | 21/07/2015
O ódio figadal entre o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e a presidente da República, Dilma Rousseff, vem de um encontro que durou menos de dois minutos quando ele era líder do PMDB, dois anos atrás. Foi numa audiência na qual ela o recebeu de pé, braços cruzados, quase à porta do gabinete no terceiro andar do Planalto. Poucas pessoas presenciaram: Dilma o interpelou sobre suas pretensões no conselho do fundo previdenciário Real Grandeza (de Furnas); Cunha respondeu com outra pergunta: o que ela, Lula e José Dirceu queriam com os outros fundos? Virou-se e foi embora, para não mais voltar.

Desde então até hoje, o resto da História entre os dois é consequência do cotidiano do jogo político. E o cenário só piorou.

Mas depois de ter declarado guerra escancaradamente na última sexta-feira – uma atitude impensada, para muitos, e criticada pelos experientes caciques e empresários – Eduardo Cunha não se recolheu ao bunker para cavar sua trincheira. Foi para o front e convocou a tropa. Gradativamente, nos últimos dias, os soldados começaram a apontar as armas contra o Palácio. Todos eles devem algo a Cunha, e agora o ‘general’ distribuiu ordens.

Pela primeira vez no cargo Cunha deu aval a um pedido de abertura de processo de impeachment contra a presidente, protocolado em março, de autoria de Jair Bolsonaro (PP-RJ). Solicitou que o deputado apresente até a próxima quarta (29) documentos que respaldem a eventual abertura do processo na Comissão de Constituição e Justiça – onde deixou de prontidão o presidente Arthur Lira (PP-AL), seu apadrinhado no cargo.

No sábado, arrancou do presidente do Senado, Renan Calheiros, um inédito depoimento de apoio gravado em vídeo. Acionou os líderes do PSDB, DEM e PPS a fim de arrancar deles a garantia de apoio incondicional – ele sabe que a oposição precisa de um porta-voz, e melhor para eles que seja o presidente da Casa. O PPS ainda analisa, mas pendendo para Cunha. Os tucanos desconversam, embora parte das bancadas na Câmara e Senado esteja fechada com o peemedebista. Do DEM, Efraim Filho (PB) e o líder Mendonça Filho (PE) já espalham que o partido não vai abandoná-lo.

Enquanto parte do PMDB – em especial o mais importante cacique, o vice-presidente Michel Temer – rejeita Cunha abertamente, por força do cargo (porque também está insatisfeito), o deputado usa de sua influência entre os pares para neutralizar adversários de plenário. Pediu a Sóstenes (PSC-RJ), um dos expoentes da bancada evangélica, para levantar a ficha do vice-líder do Governo, deputado Silvio Costa (PTB-PE), e fazer qualquer representação contra ele a fim de intimidá-lo. Porque virá de Silvio ofício pedindo o afastamento de Cunha do cargo.

Em suma, há front dos dois lados, e gente de sobra no campo de batalha. Cunha controla uma bancada suprapartidária de pelo menos 250 deputados. Tem aliados senadores – agora, declaradamente, o mais importante deles. Resta saber se este exército terá fôlego e armas suficientes contra o canhão do Planalto mirado para o seu comandante, o presidente da Câmara.

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Tô nem aí
Evidente que, no recesso de Julho, os parlamentares e figurões políticos do País têm o direito a um descanso. O semestre foi muito agitado. Mas os tucanos parecem não entender o papel de líderes da oposição que cabe ao maior partido rival do PT num cenário nada agradável. Há uma crise econômica séria. O pau quebra entre os Poderes Legislativo e Executivo, num Brasil atualmente muito Judicializado. Diante disso, o ex-presidente FHC parte num cruzeiro com a namorada, e o presidenciável Aécio Neves – que bateu na porta do Planalto na campanha, e agora exige Ordem na praça – viaja com a família para as paradisíacas praias da Croácia.

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Nem um ‘oi’
Ao que tudo indica, os cortes chegaram também à Receita Federal. O telefone 146 não tem atendentes para serviço de informação ao contribuinte. Um cidadão testou por dias. A linha cai repetidamente. Isso em meio às liberações de lotes de restituição.

Com Equipe DF, SP e Nordeste
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