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De: Glauber, 66. Para: Dino, 2014

12:00 | 15/01/2015

‘Ele não filmou a minha posse, ele filmou a miséria do Maranhão, a pobreza, filmou as esperanças que nasciam do Maranhão, dos casebres, dos hospitais, dos tipos de ruas, e no meio de tudo aquilo ele colocou a minha voz, mas não a voz do governador. Ele modificou a ciclagem para que a minha voz parecesse, dentro daquele documentário, como se fosse a voz de um fantasma diante daquelas coisas quase irreais, que era a miséria do Estado’. Este é o depoimento de José Sarney, 60 anos de vida pública e mandatos, registrado na Wikipedia, sobre a experiência de ter pedido ao então amigo Glauber Rocha, reconhecido cineasta, o registro filmado de sua posse como governador do Maranhão em 1966.

Corta! Para 2011.

O avião da Azul decola do Aeroporto Internacional de São Luís – por culpa da Infraero, tendas mal fixadas cobriam o saguão em obras, e passageiros andavam na pista entre tratores que puxavam bagagens. O repórter sentou-se ao lado de uma mulher triste, cerca de 40 anos. Soluçava ininterruptamente embora tentasse esconder o choro. Caiu em prantos ao ser indagada pelo jornalista do motivo: Revelou que não via a família há 14 anos, e voltara ao Maranhão para enterrar o pai, com passagem paga por amigos de Campinas, onde residia com marido e filhos. Chorava porque os sobrinhos, na despedida, imploravam com ela para tirá-los daquela situação de mazela, onde não frequentavam escola, bebiam água suja de poço, estavam doentes. E nada pode fazer. ‘Se eu pudesse eu trazia todos eles comigo’ – e continuou chorosa até o fim do voo.

Revi o filme de Glauber, e toda aquela ‘miséria’ narrada por José Sarney, cuja família dominou o Estado num script sem novidades por mais de 40 anos.

Corta! Para 2015.

Num momento de virada histórica, o comunista Flávio Dino superou toda uma campanha de desconstrução de sua imagem por parte do opositor bancado pela família Sarney. Ajudado pelo recall de votos de tentativas anteriores nas eleições, e pelo desgaste da família no Poder, Dino foi eleito como o governador da esperança, informalmente apontado nas ruas. Algo curioso. Sarney, em 66, também era o da esperança. Pelo visto, pouco, muito pouco fez. Um Estado belíssimo, com gente batalhadora e sofrida, o Maranhão continuou miserável, provam os índices. Inexplicável como não há estrutura maior e mais profissional de turismo no centro histórico da capital, idem nos Lençóis Maranhenses (Há poucos anos um hoteleiro trocou dois sobrados na Rua Portugal por um em Estoril, na Terra Mãe, porque o bairro estava um lixo, abandonado). Inexplicável como o porto, com o maior calado do Eixo Sul e excelente localização, não se mostra um grande concorrente na balança comercial em relação aos similares do Sudeste e Sul.

 

Dino se apoia agora, muito pertinente, na tentativa de enterrar o passado do clã e do ‘coronelismo’ que combateu na campanha, numa jogada que pode conotar marqueteira, ou eleitoreira, mas fundamental para a população se o resultado de fato melhorar: Este será o seu desafio com o Comitê Gestor do IDH – Índice de Desenvolvimento Humano, tão criticado na imprensa quando o assunto é o Maranhão.

‘O grupo fica responsável por articular ações pela Educação, Saneamento Básico, Habitação, Produção Rural e Saúde Preventiva nas 30 cidades com menor IDH do estado. O plano é chamado de “Mais IDH”. Ações emergenciais como o mutirão pelo combate ao analfabetismo e ações preventivas na saúde estão previstas para 2015, como forma de atacar fortemente as desigualdades sociais’, informa a assessoria.

Um decreto simples, mas importante em se tratando do Maranhão, foi proibir a prática de dar nomes de pessoas vivas a bens e logradouros públicos (já existe lei federal, mas não obedecida). Sarney acaba de ganhar uma avenida em seu nome na cidade Arame. É comum encontrar pelo Estado ruas, avenidas e hospitais com nome de Roseana e do pai.

Quatro ou oito anos são pouco para mudar um Estado castigado por quatro décadas pela fome de poder e dinheiro de uma família e patota políticas, comprovou o noticiário nos últimos tempos.

Quem dera Glauber vivo, na posse do novo governador, registrando esse novo momento praticamente 50 anos depois. Mas seu fantasma estava ali na posse, observador, e perseguirá Flávio Dino até o fim de seu mandato. Caberá ao governador com seus atos fazer justiça ao filme queimado pelo primeiro protagonista.

Cerveró x Sherlock Holmes

Duas perguntas sobre a nova prisão do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró, ontem, no aeroporto do Galeão (Rio): o que ele fez por muitos dias em Londres, e em especial por que a Justiça autorizou a viagem, ciente de que o elemento já é alvo da Operação Lava Jato acusado de receber US$ 30 milhões em propinas.

Depreende-se do episódio grotesco dois cenários: ou a Justiça e a Polícia Federal comeram mosca. Ou foi proposital, e Cerveró foi monitorado por agentes desde o embarque, durante sua agenda em Londres e até o retorno, quando foi algemado no Galeão. Disso pode surgir um roteiro interessante: a PF sabe o que ele fez e com quem se encontrou. Daí o pedido de nova investigação ser aberto.

Um detalhe, quem morou em Londres por quase um ano e atuou de lá como consultor foi o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci.

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