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Ceará
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Família suspeita de usar laranjas em fraudes de R$ 132 milhões é alvo de operação no Ceará

A quantia milionária teria sido movimentada nos últimos oito anos. Duas pessoas foram presas em flagrante e R$ 2 milhões foram bloqueados em bens móveis, imóveis e valores

Lais Oliveira
12:00 | 07/07/2021
Da esquerda para a direita, Paulo Cid, diretor do Departamento de Recuperação de Ativos da PCCE; Márcio Gutierrez, delegado geral adjunto; Osmar Berto, delegado titular da Delegacia de Combate à Corrupção e Marcelo Veiga, delegado adjunto da Delegacia de Combate à Corrupção.  (Foto: ANGÉLICA FEITOSA/O POVO)
Da esquerda para a direita, Paulo Cid, diretor do Departamento de Recuperação de Ativos da PCCE; Márcio Gutierrez, delegado geral adjunto; Osmar Berto, delegado titular da Delegacia de Combate à Corrupção e Marcelo Veiga, delegado adjunto da Delegacia de Combate à Corrupção. (Foto: ANGÉLICA FEITOSA/O POVO)

Quadrilha comandada por pessoas de mesma família suspeita de usar laranjas para fraudar licitações milionárias foi alvo de operação realizada em Fortaleza, Caucaia, Itatira e Pacatuba. O esquema é investigado na Operação Hasta, deflagrada pela Polícia Civil do Ceará (PC-CE). De acordo com as investigações, o grupo movimentou cerca de R$ 132 milhões nos últimos oito anos. Duas pessoas foram presas em flagrante e R$ 2 milhões foram bloqueados em bens móveis, imóveis e valores

Os municípios nos quais as licitações eram fraudadas não foram divulgados pela Polícia, embora os investigados tenham residência nos quatro municípios referidos. Pelo menos dez empresas administradas pela quadrilha já foram identificadas até o momento. A Polícia pretende aprofundar as investigações para averiguar o possível envolvimento de agentes públicos no esquema.

A operação, deflagrada na terça-feira, 6, cumpriu 15 mandados de busca e apreensão em residências. Foram alvo de sequestro judicial 38 veículos e um imóvel. Cerca de R$ 700 mil foram encontrados em quase 420 contas bancárias. Apenas de dinheiro em espécie, foi localizado o valor equivalente a R$ 120 mil em moedas variadas, entre dólar, euro e moeda coreana. 

Além do dinheiro em cédula, foram apreendidos 1.500 dólares falsificados, oito armas de fogo — duas espingardas calibre 12, uma espingarda calibre 22, uma espingarda calibre 28, um revólver calibre 32, um revólver 38, pistola calibre 22 e rifle calibre 40. Foram ainda apreendidos munições, telefones celulares, computadores e documentação.

Durante a operação a precariedade das empresas chamou a atenção dos policiais. "Uma das empresas sequer possuía um domicílio, pintaram na casa de um dos investigados um pedaço do muro e colocaram o nome da empresa nesse pedaço do muro, então ela sequer tinha um imóvel", conta Marcelo Veiga, delegado adjunto da Delegacia de Combate à Corrupção (Decor), que participou da operação em Itatira.

Uma das pessoas foi presa ao atirar contra os policiais ao ser abordada em Itatira. Ela foi enquadrada por tentativa de homicídio e porte ilegal de armas. 

A casa desse mesmo investigado foi considerada totalmente incompatível com a atividade financeira que ele exerce. No local, a Polícia apreendeu veículos de outras empresas que ele alegou não saber a quem pertenciam.

A outra pessoa foi presa por falsificação de moeda, em flagrante lavrado na Polícia Federal. O flagrante foi registrado na Delegacia Regional de Canindé. A identidade dos presos é preservada para não atrapalhar as investigações.

Como funcionava o esquema

Segundo a Polícia, os titulares das empresas investigadas estavam nessa condição apenas de maneira jurídica, ou seja, eram "laranjas". Na verdade, outras pessoas, também identificadas no curso da investigação, administravam essas empresas.

Essas empresas contratavam com administrações públicas municipais valores milionários, mas a maioria delas não possuía condições técnicas de prestar esses serviços contratados. O principal portfólio delas era a locação de veículos.

Contudo, as empresas contratavam também com outros serviços, incluindo obras em geral. A atuação das empresas se dava a partir das demandas, fraudando processos administrativos de contratações na forma de licitação e na prestação dos serviços contratados.

Com base nos elementos apurados, foi fundamentada uma representação junto ao Poder Judiciário envolvendo as empresas e as pessoas identificadas durante a investigação, como sendo os mentores de todo esse processo criminoso.

Os alvos residem nos municípios de Fortaleza, Pacatuba, Caucaia e Itatira, mas não necessariamente essas prefeituras contratavam com as empresas, segundo a Polícia.

"Toda essa parte de identificação de quem realmente contratava com essas empresas está no curso da investigação e agora com as novas fases da investigação, a gente vai aprofundar ainda mais, especialmente com relação a possibilidade de outros agentes envolvidos nesse processo criminoso", disse o delegado titular Delegacia de Combate à Corrupção, Osmar Berto. 

Segundo Osmar, a apuração busca esclarece se há agentes políticos e servidores públicos envolvidos no esquema criminoso, além de evidenciar se essas empresa tinham a facilidade pra contratar com os poderes públicos.

Como começou

As investigações da Polícia começaram ainda em junho de 2020, quando, a principio, se averiguava a falsificação de documentos públicos. O pontapé inicial ocorreu quando um rapaz morto em um acidente automobilístico teve sua empresa transferida para outra pessoa dois dias após seu óbito.

O fato levou à abertura de um inquérito policial. Durante a investigação se comprovou que tanto esse rapaz que veio a óbito, quanto essa terceira pessoa que passou a ser titular dessa empresa, na verdade ele figuravam como interpostas pessoas de outras, o que popularmente se conhece pelo nome de laranja.

"A partir dessa comprovação, outras empresas passaram também a ser investigadas, outros elos foram constatados na investigação e aí se passou a fazer uma investigação de cunho mais financeiro relacionado a essas empresas", explicou o delegado Osmar.

O nome da operação, Hasta, é referência a expressão de origem árabe, que significa "sob a lança", segundo a qual debaixo da lança nada deve ser oculto. Não deve, assim, haver suspeitas nos contratos.

 

Denúncias

Delegacia de Combate à Corrupção

Contato: (85) 3472 6687

Disque Denúncia SSPDS

Contato: 181 (85) 3101 0181

 

 

Com informações da repórter Angélica Feitosa. Colaborou Érico Firmo