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Ceará
NOTÍCIA

Cartilha orienta sobre prevenção à Covid-19 para população em situação de rua

Organizações sociais apontam importância do conteúdo, mas também ressaltam as dificuldades de aplicar algumas orientações e a necessidade de programas de apoio mais incisivos

Catalina Leite
15:30 | 22/07/2020
FORTALEZA, CE, 13-07-2020: ONGs relatam que casos de covid-19 sao mais frequentes em pessoas em situacao de rua. As fotos destacam as condicoes de vida de quem vive na Praca do Ferreira no contexto da pandmeia. Praca do Ferreira, Centro, Fortaleza. (BARBARA MOIRA/ O POVO)................................ (Foto: Barbara Moira)
FORTALEZA, CE, 13-07-2020: ONGs relatam que casos de covid-19 sao mais frequentes em pessoas em situacao de rua. As fotos destacam as condicoes de vida de quem vive na Praca do Ferreira no contexto da pandmeia. Praca do Ferreira, Centro, Fortaleza. (BARBARA MOIRA/ O POVO)................................ (Foto: Barbara Moira)

A Secretaria de Saúde do Ceará (Sesa) desenvolveu uma cartilha que orienta sobre as medidas de prevenção à Covid-19 para a população em situação de rua. A população configura uma das mais vulneráveis à infecção pelo coronavírus, principalmente pelo pouco acesso à água potável e assistência médica.

A cartilha será repassada para 20 entidades do Ceará que trabalham com pessoas em situação de rua. Nela, a Sesa descreve como se contrai a Covid-19 e reforça as medidas sanitárias, como lavar as mãos com água e sabão e usar máscaras de proteção. Ainda, recomenda evitar o compartilhamento de utensílios: “latinhas, canudos, cachimbos, cigarros e similares, copos, garrafas e talheres”.

Apesar de ser apontada como uma boa iniciativa por organizações sociais, a cartilha também apresenta orientações que podem ser difíceis de se seguir na prática. Uma delas é a lavagem das mãos ou uso de álcool em gel, já que o acesso a esta população é custoso. Além disso, poucos possuem mais de uma máscara - geralmente doadas por coletivos - para trocar de duas em duas horas ou sempre que estiverem úmidas, como indica o documento.

“Acho que a cartilha pode ser útil. Eles são muito carentes de afeto e de atenção. Saber que existe uma política pública, mesmo que seja uma cartilha simples, já os faz se sentir alguém. Mas reforço que o papel sozinho não resolve nada. Seria muito importante ter apoio de agentes comunitários, visitas, entrevistas… É uma população muito esquecida”, opina Mariana Marques, coordenadora geral do projeto Auê do Amor.

O Auê do Amor surgiu durante a pandemia de Covid-19 em Fortaleza e já distribuiu mais de 10.600 máscaras, mais de 3.700 kits de higiene e mais de 156.700 refeições. O alcance é de pelo menos 45 comunidades. Segundo Mariana, em nenhuma das ações do coletivo foram vistos representantes do governo.

 


“Entendo que toda a máquina da saúde estava focada no atendimento emergencial, nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e nos hospitais. Tem sido um trabalho muito efetivo e importante, mas acho que é preciso pensar nessa outra parte, a da prevenção”, reforça. Além disso, ela reflete sobre o desconhecimento dos moradores de rua em relação aos próprios direitos.

Mariana fala sobre o caso de um homem que estava com o braço fraturado e de uma mulher com o útero exposto: “Os dois tiveram medo que chamássemos o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Ambos disseram: ‘Não vão me atender porque não tenho documento’. E não tem isso, o Samu atende mesmo quem não tenha documento”, relembra.

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Acesso à água

Lavar as mãos é a instrução básica para se proteger da Covid-19, o que não significa que seja simples. O Projeto Shalom Amigo dos Pobres tenta reduzir os danos ao oferecer locais de banho, higienização das mãos, roupas limpas e refeições para pessoas em situação de rua. Acompanhe o projeto pelo Instagram @shalomamigodospobres

Ao mesmo tempo, os voluntários aproveitam para conversar com os irmãos sobre o contexto da sociedade e explicar a importância do uso das máscaras, do banho e de se usar roupas limpas. “Esse trabalho de conscientização é unido ao serviço que começamos a oferecer o banho. Abrimos, durante a pandemia quatro casas, onde dispomos o serviço do banho, damos a eles uma roupa limpa e distribuímos as máscaras”, explica Jeovana Freitas, coordenadora geral do Projeto Amigo dos Pobres. Na primeira fase do projeto, foram realizados 1.332 serviços de higienização.

A dificuldade para higienização pela população já era observada pelo coletivo Florescer desde 2019. Focado na pobreza menstrual - quando as pessoas não têm acesso a falta de acesso a água e de produtos para higiene menstrual -, o projeto está com campanha aberta para doações de kits de higiene com álcool em gel e máscaras.

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A idealizadora do Florescer, Ágata Cabral, afirma a importância da cartilha da Sesa, mas reforça a necessidade de uma atenção continuada. “Tem que ser um lembrete diário. Até para quem não está em situação de rua é difícil aprender, as pessoas não seguem. E imagina para eles agora que o Centro abriu. Para eles parece estar tudo bem, mas não está”, diz.

Aumento populacional

Enquanto boa parte da população fortalezense trancava-se entre quatro paredes para cumprir as medidas de isolamento social, outra parcela viveu o despejo. De acordo com as organizações sociais entrevistadas pelo O POVO, o número de pessoas em situação de rua aumentou durante a pandemia, já que muitas famílias foram despejadas após perder a forma de renda.

“O número de pessoas de rua cresceu bastante. Se algum tempo atrás eram 1.700, só na Parangaba atendemos 800 pessoas durante a pandemia. Existe uma parte que é a mesma, mas nós recebemos novas pessoas todos os dias”, observa Jeovana. A mesma constatação é feita por Mariana.

O único censo sobre essa população foi realizado em 2014, contabilizando 1.718 pessoas vivendo em situação de rua na Capital. Uma pesquisa da Secretaria de Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SDHDS), de 2017, mostra que há 247 homens e mulheres morando na Praça do Ferreira. Um novo censo estava previsto para ser entregue em agosto, mas foi suspenso temporariamente devido à pandemia.

A reportagem do O POVO entrou em contato com a SDHDS questionando a previsão de dados atualizados em relação à população em situação de rua e quais ações voltadas para essa população têm sido desenvolvidas. A pasta não respondeu até a publicação desta matéria. No dia 11 de julho, para outra matéria do jornal, a secretaria respondeu, em nota, os projetos desenvolvidos pela SDHDS durante a pandemia. Leia na íntegra:

"A Prefeitura de Fortaleza, por meio da Secretaria dos Direitos Humanos e Desenvolvimento Social, realizou diversas ações para população de rua em combate ao coronavírus. Foram abertos três abrigos temporários, com 170 vagas a mais do que as existentes na rede de assistência. Descentralizou o serviço do Refeitório Social, passando a entregar 1.450 quentinhas diárias. Em parceria com a Secretaria da Saúde criou o consultório na rua, onde equipes puderam alcançar a população para disponibilização de vacinas, orientação das medidas sanitárias e outros encaminhamentos de saúde, nessas ações foram distribuídas 3.500 máscaras. Para higiene pessoal foram inaugurados dois espaços de Higiene Cidadã, que realiza 200 atendimentos por dia."