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Ceará
NOTÍCIA

Violência psicológica sofrida por mulheres impede que denúncias de abuso sejam feitas

Conforme pesquisa da Defensoria Pública do Estado do Ceará, 163 mulheres, entre 2016 e 2019 revelaram ter passado dez anos para denunciar seus agressores por medo

08:47 | 08/01/2020
Criança com cartaz de protesto contra a violência contra a mulher, no cruzamento das avenidas Godofredo Maciel com Perimental, no Mondubim.
Criança com cartaz de protesto contra a violência contra a mulher, no cruzamento das avenidas Godofredo Maciel com Perimental, no Mondubim. (Foto: MAURI MELO)

Levantamento do setor psicossocial da Defensoria Pública do Estado do Ceará mostra que a violência psicológica sofrida por mulheres em relacionamentos abusivos é fator chave na decisão de não denunciar os abusos. A realidade é traduzida em dados: de 2016 a 2019, um total de 163 mulheres revelaram ter passado mais de dez anos para buscar ajuda.

Outras 155 relataram ter passado até cinco anos para ter coragem de denunciar. De acordo com Anna Kelly Nantua, defensora pública do Núcleo de Enfrentamento à Violência contra a Mulher (Nudem), o medo e a desinformação são os principais fatores que levam estas mulheres a ficaram em silêncio.

"A violência psicológica às vezes é muito difícil de ser percebida por elas logo no início, por isso que elas entram por anos nesse ciclo até que o tipo de violência se agrava. Quando elas buscam ajuda já têm vivenciado diversos tipos de abusos", aponta a defensora.

Perfil

Dados do Nudem mostram que em Fortaleza, até novembro de 2019, o perfil das vítimas de violência doméstica permaneceu o mesmo nos últimos quatro anos, desde quando o levantamento é feito. Amostragem foi feita com 573 mulheres que buscaram assistência no Núcleo e identificou que 35% das vítimas têm entre 36 e 45 anos, pardas e que estudaram até o Ensino Médio.

Sobre os agressores, eles são em maioria (47%) ex-companheiros e em 38% dos casos são os atuais cônjuges, 38%. Estes, mostra o levantamento, têm histórico de terem sido agredidos na infância.

Alarme

Um dos dados mais alarmantes, segundo a defensora pública Anna Kelly Nantua, é que 273 das entrevistadas afirmaram não pretender entrar com representação criminal contra os agressores.

"Muitas conseguem buscar o núcleo para resolver questões familiares e cíveis, mas ainda têm muito medo de denunciar o agressor. Elas até querem a medida protetiva, mas não aceitam a representação criminal por uma lesão corporal cometida, por exemplo. A maioria delas se sujeita a anos de agressão em razão de dependência econômica e também pelos filhos", indica.

A denúncia, no entanto, segundo Nantua, pode ser feita independente da vontade da vítima, caso constatada a lesão corporal, por exemplo. O Ministério Público pode ingressar com ação contra o agressor.

"Existe a nossa rede apoio, que vem crescendo e hoje funciona dentro da Casa da Mulher Brasileira. Temos todo o apoio possível para que essa vítima seja acolhida e possa denunciar e ter todo sustento para o que precisar, tanto no jurídico quanto no psicológico", indica.

Quebra do ciclo

Na avaliação da defensora Anna Kelly Nantua, nos últimos anos as mulheres vêm se empoderando e tendo mais forças para lutar e quebrar o ciclo de violência.

"Elas têm tido mais essa coragem. A Lei Maria da Penha proporcionou essa segurança para as mulheres mas, é claro, que não estamos no mundo ideal. Mas, aos poucos a mulher demonstra mais confiança na nossa rede de apoio"

Interior

Desde 2018, o Nudem passou também a funcionar na Região do Cariri. Anna Kelly pondera a importância do núcleo chegar ao Interior para abranger cada vez mais vítimas e incrementar a rede de apoio.

No Cariri, pesquisa realizada com 686 mulheres que buscaram ajuda indica que em 49,2% das vezes o agressor já responde por crimes previstos na Lei Maria da Penha e ainda que 98,9% destes se encontram em liberdade.

O perfil difere um pouco do da mulher fortalezense. As vítimas são geralmente mulheres entre 21 e 30 anos (38,6%). Outro dado de destaque é que em 84,7&% dos casos, os filhos destas vítimas já presenciaram a violência doméstica acontecendo. Em 96,8% das vezes foi a do tipo psicológica e 73,7% a física.

Apoio

Núcleo de Enfrentamento à Violência contra a Mulher – Nudem Fortaleza

Rua Tabuleiro do Norte, S/N, Couto Fernandes (Casa da Mulher Brasileira).

(85) 3108-2986

Núcleo de Enfrentamento à Violência contra a Mulher – Nudem Cariri

Travessa Iguatu, 304, CEP 63122045, Santa Luzia, Crato Ceará.