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Brasil
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Coluna - Nova vida, sonho antigo

17:31 | 05/10/2020
Após vencer câncer e a contaminação pela covid-19, Denis Henrique, do goalball, sonha representar o Brasil na Paralimpíada de Tóquio (Foto: Divulgação / CBDV.)
Após vencer câncer e a contaminação pela covid-19, Denis Henrique, do goalball, sonha representar o Brasil na Paralimpíada de Tóquio (Foto: Divulgação / CBDV.)

Foram cerca de 10 meses de luta e apreensão, mas também de esperança. No último dia 24 de setembro, Denis Henrique de Oliveira renasceu – e quem diz isso é o próprio. A revelação de que estava curado do linfoma de Hodgkin, um tipo de câncer que tem origem no sistema linfático, foi um choque para o jogador de goalball do Sesi-SP, com passagem pela seleção brasileira da modalidade.

"Você tira um peso das costas. Quando você faz a quimioterapia, tem medo [de] que [o câncer] possa crescer em algum outro lugar, e se apalpa para saber se há novos nódulos. Então, é um alívio grande. Por causa do choque, a minha esposa até perguntou se eu não estava feliz. Eu respondi que sim, mas que não sabia como agir", recorda Denis, que passou por seis ciclos do tratamento, com duas sessões mensais.

Ele descobriu o linfoma no fim do ano passado, durante o última fase de treinos da seleção na temporada, em São Paulo. O cansaço excessivo nas atividades e as dores na cervical chamaram atenção. "O Denis é um cara muito vigoroso, muito forte, e não havia demonstrado nenhum tipo de sinal como esses antes. Na ocasião, ele sinalizou um inchaço na região do pescoço. Lembrei que o médico-chefe do CPB [Comitê Paralímpico Brasileiro] estava atendendo naquele dia, e fomos até ele depois do almoço", lembra Diego Colletes, treinador do Sesi e auxiliar técnico da seleção.

Os exames de tomografia constataram o câncer. "Foi a notícia mais difícil da minha vida. Eu venho de uma família muito humilde – então, ouvir a palavra câncer me fazia pensar quanto tempo de vida eu ainda teria. Mas, mesmo baqueado, eu tinha que ser forte, pelos meus companheiros e, ainda mais, pela minha família, passar a eles que tinha tratamento, que era possível, que tínhamos que acreditar para que as coisas acontecessem", conta Denis.

O site do Instituto Nacional do Câncer (Inca), do Ministério da Saúde, informa que, com a evolução no tratamento, a mortalidade causada pelo linfoma de Hodgkin foi reduzida em mais de 60% desde a década de 70 e que a maioria dos pacientes "pode ser curada com o tratamento disponível atualmente". Ou seja: todo cuidado era necessário para o processo de recuperação não ser interrompido.

"Antes da quimioterapia, a gente faz uma triagem. Realiza exame de sangue, mede pressão, os batimentos [cardíacos], tudo para ver se não está com imunidade baixa. Eu tinha que higienizar tudo, não comer carne crua, não ter muito contato com as pessoas", descreve o atleta.

Apesar de toda a precaução, Denis não escapou da doença que acometeu mais de 4 milhões de brasileiros nos últimos meses. Em junho, ele contraiu o novo coronavírus, causador da covid-19, em meio às idas e vindas do hospital. "Fazia três dias que eu estava com febre e não sentia gosto de comida. Fiz o exame do cotonete [PCR], que constatou a covid-19. Tive que ficar sozinho no hospital, isolado. Então, imagina como a gente não fica?", lembra o jogador, que precisou parar com a quimioterapia por cerca de 30 dias.

O apoio da esposa Tamires, da filha Eloiza e dos companheiros de goalball  – que rasparam a cabeça em solidariedade ao amigo – ajudaram-no encarar a dura recuperação. De tão bem-sucedida, ela permitiu que Denis retornasse às quadras no começo de setembro, antes mesmo do diagnóstico final, juntamente dos colegas de Sesi, liberados para retomar as atividades em Mogi das Cruzes (SP) após a interrupção causada pela pandemia.

"Quando terminou o tratamento, o Denis ainda teve de ficar cinco semanas esperando a resposta [sobre a cura]. Eu disse que achava legal se ele pudesse voltar a treinar. Ele pediu, e a médica disse que não havia problema nenhum. Antes de sair o resultado, pela performance dele, a gente dizia: 'Denis, graças a Deus, creio que você esteja curado. Se ainda estivesse debilitado, não suportaria o que estava suportando na quadra. Ele estava muito focado e treinando com muita qualidade, mesmo ainda retomando a condição física. Você vê o poder da mente de um atleta", destaca Diego.

"Pode parecer algo simples, pequeno, mas, para mim, representa muito [voltar a treinar]. Lógico, tomando todos os cuidados possíveis. Mas ver que estou curado, podendo fazer o que gosto, retornar ao Sesi, que é minha casa, rever meus companheiros, felizes com minha cura e me apoiando, simboliza muita coisa", comemora Denis.

E quem venceu o câncer e o coronavírus pode se dar o direito de sonhar com a volta à seleção, certo? Nascido com a doença de Stargardt (forma de degeneração macular juvenil, que leva à perda progressiva da visão), Denis conheceu o goalball em 2016. Dois anos depois, foi chamado pela primeira vez para defender o Brasil. No ano passado, vestindo a amarelinha, foi campeão da Malmo Cup, na Suécia, um dos mais tradicionais campeonatos internacionais da modalidade.

A pandemia fez com que a Paralimpíada de Tóquio fosse adiada para setembro do ano que vem. Uma nova chance para Denis. "Sei que agora não estaria na seleção, pois estou voltando, ainda não estou 100%, e os meninos que estão lá são de alto nível. Mas vou lutar. Não querendo passar na frente de ninguém ou ser mais que alguém, mas, assim como lutei pela minha cura, vou lutar pelo meu sonho. Isso para mim é primordial", afirma o atleta, que deseja inspirar outras pessoas com sua trajetória.

"Espero que possa ajudá-las a entender que há esperança, que a cura é alcançável. Você pode chegar aos seus objetivos", conclui Denis.