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Viúva de funcionário que morreu em loja e foi coberto por guarda-sóis acionará supermercado na Justiça

"Eles não queriam que eu visse (o corpo). Mas eu exigi, e foi quando encontrei meu marido daquele jeito, estendido no meio da seção, a loja funcionando, as pessoas fazendo suas compras, como se fosse um cachorro que estivesse ali", falou Odeliva Cavalcante

09:17 | 02/09/2020
Odeliva Cavalcante e Moisés Santos estavam casados há 29 anos (Foto: Reprodução/JC Imagem)
Odeliva Cavalcante e Moisés Santos estavam casados há 29 anos (Foto: Reprodução/JC Imagem)

As memórias do último 14 de agosto são dolorosas demais para Odeliva da Silva Cavalcante, de 58 anos, recordar. “Um dia terrível. Não gosto nem de lembrar”, falou. Aquela foi a manhã em que encontrou o corpo do marido coberto por guarda-sóis e caixas de papelão na unidade do Carrefour no bairro da Torre, Zona Norte do Recife, um dos pontos onde ele trabalhava como promotor de vendas. Moisés Santos, 59, sofreu um mal súbito e morreu na loja, que o manteve escondido sob os itens por cerca de 3h30min, até que a própria família do vendedor viabilizasse o serviço funerário para buscá-lo. Nesse período, as portas do supermercado continuaram abertas, com funcionamento normal. Acusando descaso pela vida humana, advogado de Odeliva vai mover ação de danos morais contra a empresa.

Odeliva estava no ônibus quando recebeu a ligação de um colega de Moisés, por volta das 7h30min, informando do seu falecimento. Quando chegou no Carrefour, após as 8 horas, estranhou o estabelecimento estar operando. Ao invés de ser levada para ver o marido, foi encaminhada para a sala da administração. “Enquanto isso o corpo dele estava no meio da loja, e até então eu não sabia”, contou.

A senhora afirma que a empresa não ofereceu ajuda, auxílio ou assistência, nem na ocasião e nem depois. “Primeiramente, eles não queriam que eu visse (o corpo). Mas eu exigi, porque era meu marido e eu tinha direito de ver. Terminaram deixando, e foi quando encontrei meu marido daquele jeito, estendido ali no meio da seção, a loja funcionando, as pessoas fazendo suas compras, como se fosse um cachorro que estivesse ali”, falou.

“O pessoal não dá valor nenhum ao ser humano. Eles só querem saber de dinheiro. Me senti uma das piores pessoas naquele momento. Ver um ente querido no meio da loja como se não tivesse nada ali foi péssimo. Não gosto nem de lembrar.

Duas semanas depois, no dia 29, Odeliva completou 58 anos. Foi o primeiro aniversário após 29 anos de casamento que passou sozinha. “Para mim não foi nem aniversário. Era só eu e meu marido, a gente não tinha filhos. E você perder alguém desse jeito”, lamentou.

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O advogado Eduardo Barbosa, especialista em indenizações, assumiu o caso na última terça-feira, 25. Ele estima que a ação será encaminhada à Justiça nos próximos 20 dias. “Vamos procurar a justa reparação. Nada vai trazê-lo de volta, mas isso não pode ser tratado como se fosse um ato que se pede desculpa e está resolvido. Porque para a rede não mudou nada, mas como fica a vida da viúva? Como ela vai se recuperar disso?”, levantou. O jurista classificou a situação como gravíssima. “As pessoas com poder de decisão permitiram que Manoel Moisés se fosse de maneira indigna e permanecesse ali. Não foram 10 minutos. Foram horas. Deu tempo de se refletir e se dar conta de que aquilo não deveria permanecer”, defendeu.

“Aquela foto (do corpo sob os guarda-sóis) por si só já fala tudo: como é que um ser humano tem um problema de saúde, morre naquele chão por um mal súbito e é tratado dessa maneira? Ele foi tratado como se fosse um lixo, que se varre e põe para trás da porta. Mas nesse caso nem fecharam a porta. A ganância foi tão grande que continuaram vendendo”, pontuou.

Na sexta-feira, 28, o Carrefour respondeu à reportagem que “desde o falecimento do senhor Moisés, esteve em contato com a empresa para a qual ele trabalhava para garantir que toda a assistência necessária fosse dada para sua esposa, senhora Odeliva”. Em nota, falou que também entrou em contato com a viúva por meio do Departamento de Recursos Humanos, para oferecer auxílio. “Contudo, após uma solicitação da Sra. Odeliva, fomos orientados que deveríamos acionar apenas seu advogado. A empresa estabeleceu contato com seu representante legal, porém, durante as conversas, o Carrefour foi informado que o advogado foi substituído e que deveríamos aguardar novo contato”, falou. Nesta terça-feira, 1º, o JC entrou em contato novamente com o Carrefour, que manteve o posicionamento.

Eduardo Barbosa disse que não recebeu nenhuma tentativa de contato do grupo.

via Rede Nordeste