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Brasil
NOTÍCIA

Autoridades e entidades reagem a ato antidemocrático em Brasília assistido por Bolsonaro

Manifestação com apoiadores do presidente, neste domingo, teve agressão a jornalistas. Ato era contra o STF e o Congresso

Ítalo Cosme
21:48 | 03/05/2020
Supporters of Brazilian President Jair Bolsonaro gather outside Planalto Palace in Brasilia, on May 3, 2020 during the COVID-19 novel coronavirus pandemic. - The novel coronavirus has killed at least 243,637 people since the outbreak first emerged in China last December, according to a tally from official sources compiled by AFP at 1100 GMT on Sunday. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Foto: EVARISTO SA / AFP)
Supporters of Brazilian President Jair Bolsonaro gather outside Planalto Palace in Brasilia, on May 3, 2020 during the COVID-19 novel coronavirus pandemic. - The novel coronavirus has killed at least 243,637 people since the outbreak first emerged in China last December, according to a tally from official sources compiled by AFP at 1100 GMT on Sunday. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Foto: EVARISTO SA / AFP)

No dia Mundial da Liberdade de Imprensa, neste domingo, 3 de maio, apoiadores do presidente da República, Jair Bolsonaro, protagonizaram cenas grotescas contra a democracia. Não bastasse infringir as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para isolamento social contra a Covid-19, os manifestantes agrediram com socos e chutes jornalistas na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Os profissionais da imprensa tiveram de sair escoltados pela Polícia Militar.

Políticos, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e Associação Nacional dos Jornais (ANJ) repudiaram e cobraram pela identificação dos responsáveis. Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) também se manifestaram contra os atos antidemocráticos deste domingo. O governador do Ceará, Camilo Santana, foi um dos que emitiram críticas pelas redes sociais.

O fotógrafo Dida Sampaio, do jornal O Estado de São Paulo, registrava imagens de Bolsonaro na rampa do Palácio do Planalto, numa área restrita à imprensa, quando foi agredido. Conforme o periódico, o motorista Marcos Pereira sofreu uma rasteira dos manifestantes, que entoavam palavras de ordem contra o jornal. O repórter Fabio Pupo, da Folha de S.Paulo, foi empurrado enquanto tentava defender os colegas de profissão.

Durante o protesto, os eleitores do presidente entoaram gritos e estenderam faixas contra o presidente do Congresso Nacional, Rodrigo Maia (DEM), e ministros do STF. Os participantes do ato criticaram também a Rede Globo.

O presidente acompanhou o ato da rampa do Palácio do Planalto, ao lado dos filhos e correligionários.

Segundo o Estadão, quando o presidente soube dos ataques e que os jornalistas estavam sendo expulsos, endossou as atitudes. "Pessoal da Globo, vem aqui para pegar um cara ou outro falar besteira. Essa TV realmente foi longe demais", disse, enquanto transmitia ao vivo às redes sociais.

Frente aos ataques, dezenas de políticos de correntes políticas distintas saíram em defesa dos jornalistas e da democracia.  Em nota, a Associação Nacional de Jornais (ANJ) condenou as agressões sofridas por jornalistas e pelo motorista do jornal O Estado de S.Paulo. "Além de atentarem de maneira covarde contra a integridade física daqueles que exerciam sua atividade profissional, os agressores atacaram frontalmente a própria liberdade de imprensa", diz o texto. A ANJ também ressaltou que atentar contra o livre exercício da atividade jornalística é "ferir também o direito dos cidadãos de serem livremente informados."

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), usou sua conta no twitter para prestar solidariedade aos jornalistas agredidos no Palácio do Planalto. Maia afirmou que o grupo de agressores “confunde fazer política com tocar o terror” e chamou os manifestantes de “criminosos”.

A ministra Cármen Lúcia lamentou a agressão na data em que é comemorada o Dia da Liberdade de Imprensa. "É inaceitável, inexplicável, que ainda tenhamos cidadãos que não entenderam que o papel do profissional de imprensa é o que garante a cada um de nós poder ser livre. Estamos, portanto, quando falamos da liberdade de expressão e de imprensa, no campo das liberdades, sem a qual não há respeito à dignidade", disse.

Camilo Santana (PT), governador do Ceará, afirmou que o Brasil vive tempos sombrios. "As aglomerações estimuladas pelo presidente em meio a uma gravíssima pandemia. Jornalistas agredidos no Dia da Liberdade de Imprensa. O Brasil vive tempos sombrios. Mas este é o momento em que mais precisamos ser fortes, para defender a vida e para lutar pela nossa democracia."

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) assinou nota de repúdio junto ao Observatório da Liberdade de imprensa da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) contra o ocorrido. No texto, as entidades citam outros casos de agressão. Pontuam ainda que, em relação a 2019, o Brasil recuou duas posições no ranking da organização Repórteres Sem Fronteiras sobre liberdade de imprensa. 

"Tais agressões são incentivadas pelo comportamento e pelo discurso do presidente Jair Bolsonaro. Seus ataques aos meios de comunicação, teorias conspiratórias e comportamento ofensivo fomentam um clima de hostilidade à imprensa, além de servirem de exemplo e legitimarem o comportamento criminoso de seus apoiadores. É inaceitável que militantes favoráveis ao governo saiam às ruas com objetivo expresso de intimidar os profissionais de imprensa, quando o próprio governo federal definiu o jornalismo como atividade essencial durante a pandemia."

A manifestação dos bolsonaristas ocorre um dia depois do ex-juiz e ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, depor na sede da Polícia Federal, em Curitiba, contra o chefe de estado brasileiro. O "Judas", como se referiu Bolsonaro ao seu ex-ministro, pediu demissão do cargo e acusou o presidente de interferência política no comando da PF para proteger os filhos de investigações. Eduardo Bolsonaro, deputado filho do presidente, durante a manhã deste domingo, chamou o ex-juiz de "espião" após Moro depor por quase nove horas à PF.