PUBLICIDADE
Brasil
NOTÍCIA

História de superação: baiano com paralisia cerebral lança segundo livro

Gilvã Mendes lançará o livro 'Aqueles Malditos Olhos Azuis'

08:38 | 18/07/2019
Gilvã lança seu segundo livro
Gilvã lança seu segundo livro (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Escritor. Foi assim que, aos 13 anos, Gilvã Mendes respondeu à conhecida pergunta: “O que você quer ser quando crescer?”. Para transformar o sonho em realidade, ele, que nasceu com paralisia cerebral, precisou superar muitas barreiras. Hoje, aos 34 anos, prestes a lançar o seu segundo livro, prova que não há limites para sonhar.

O talento para escrever foi percebido cedo. Logo na 5ª série do Ensino Fundamental, ao receber de Gilvã a resposta sobre a profissão que ele almejava seguir, a professora Cristiana Katiaci começou a notar que o sonho do garoto tinha tudo para se tornar realidade. “Ele tinha criatividade, e escrevia textos bons, com estrutura, boa linguagem. Os colegas, em um primeiro momento, estranharam a resposta dele, até pela dificuldade da fala, que na época era maior, mas depois todos passaram a vê-lo como uma referência”, conta a professora aposentada, que acompanhou o escritor nos quatro últimos anos do seu Ensino Fundamental.

Depois de um primeiro livro, lançado em 2009, onde Gilvã contou a própria história, o lançamento da nova obra vem carregado de símbolos. O livro, que ele mesmo digitou usando apenas uma mão, será disponibilizado ao público durante uma tarde de autógrafos na Escola Municipal Teodoro Sampaio, no bairro de Santa Cruz. Lá, onde estudou, Gilvã também realizou outros sonhos: viu seu nome batizar a biblioteca da escola.

“Ainda bem que não esperaram eu morrer para me homenagear. Ter uma biblioteca com meu nome é uma honra. É como se eu tivesse um país com meu nome, uma moeda com a minha foto”, conta, emocionado. Segundo a querida ‘pró Cris’, a homenagem, que ocorreu quando Gilvã ainda era aluno da escola, foi um pedido dos próprios colegas do agora escritor.

Ao falar da professora tão querida, ele se emociona. “‘Ela, além de me ensinar língua portuguesa, alimentou os meus sonhos, acreditou em mim. Para mim, é minha eterna professora”, lembra com carinho. O sentimento, inclusive, é mutúo. “Eu me sinto muito realizada e feliz por ter colaborado de alguma forma. Ele tem um amor muito bonito por mim, por ter se sentido apoiado, por ter sido incentivado. E é um amor recíproco. Dia 29 eu vou ve-lo com um abraço do tamanho do mundo”, diz a professora ansiosa.

 

Luta
Todo o apoio recebido na escola onde ficou por quatro anos não foi, no entanto, realidade durante toda a caminhada estudantil de Gilvã. O início da educação formal demorou e só aconteceu quando o menino já tinha quase 13 anos. Não por falta de vontade dele ou de sua mãe.

Gilvã conta que foi alfabetizado em casa, por sua mãe e um irmão mais velho. As tentativas de matriculá-lo em uma escola eram muitas, mas acabavam frustradas. Ele lembra que a mãe chegou a esconder que ele era uma criança com deficiência para tentar concluir o processo. “Quando descobriam, rapidamente a vaga desaparecia. As diretoras diziam que eu ia atrapalhar o desenvolvimento cognitivo da turma”.

O início da trajetória acadêmica só ocorreu depois da intervenção de uma pedagoga que acompanhava Gilvã. Ele, então, cursou os primeiros anos da vida escolar em uma unidade perto de casa, para depois chegar à 5ª série na escola que será palco para a realização desse novo sonho. Apesar da demora, Gilvã faz questão de dizer que não culpa aqueles professores que não o aceitaram. “‘Há quase 20 anos elas provavelmente estavam descobrindo como lidar com uma criança com deficiência. Se hoje o professor não recebe nenhum tipo de preparação, imagine há 20 anos”, pondera.

Caminhada
Depois de ultrapassado o desafio de encontrar escolas que o recebessem, o caminho de estudos não parou com o fim do terceiro ano. Gilvã queria realizar mais um sonho: ser professor, e foi fazer faculdade de Letras. A faculdade, ele conta que não concluiu por não se adaptar ao curso e ao método de ensino. O sonho de ensinar ele pôde realizar, no mesmo colégio que o acolheu. Gilvã voltou para dar aulas no Teodoro ainda durante os anos em que estudava letras, como uma espécie de estágio.

“Nossa, dar aula lá foi inesquecível. Foi como um sonho, como dizer para mim mesmo e para sociedade que, para mim, não existe barreiras, ou que elas existem, mas que eu pulo todas”, conta depois de um suspiro, demonstrando todo seu carinho pela escola. “A minha história se confunde com a do Teodoro”.

Mesmo tendo decidido, no último ano, não terminar a faculdade de Letras, o amor pelos estudos continuou falando alto. Gilvã escolheu então cursar Psicologia, curso que concluiu na Unime, em Lauro de Freitas. “Como a literatura basicamente trabalha com a alma humana, com a psiquê humana, o inconsciente, da literatura para a psicologia foi um pulo. A alma humana, o inconsciente humano, sempre me fascinou”, justifica. Hoje, o psicólogo faz atendimentos em uma clínica em Stella Maris.

O caminho acadêmico, ele diz que não foi marcado por grandes resistências das pessoas às suas limitações. “Durante toda minha vida acadêmica eu tive poucos percalços, sofri pouco preconceito. O preconceito que eu sofria era de uma forma mais institucional pelas escolas não serem adaptadas. Na faculdade, durante cinco anos o elevador vivia quebrado. O preconceito era muito mais institucional, de um sistema maior, do que propriamente das pessoas. Claro que tinha um ou outro que me olhava torto, mas não era muito incisivo e não muito direto”.

Amor
Durante toda a entrevista, um olhar atento acompanhava a conversa de Gilvã com o CORREIO, na livraria de um shopping. Era Inglid Patricia de Queiroz, esposa do escritor, com quem ele está há oito anos. Quando questionado sobre a história de amor dos dois, ele ri e responde: “Como tudo na vida é incomum. O nosso encontro foi um tanto quanto incomum também porque a gente se conheceu pela internet”. O início nas salas de bate-papo, se transformou em um dos momentos mais importantes da vida de Gilvã. “Estava passando por um momento muito complicado na vida. Quando eu conheci ela, ganhei uma amiga, uma parceira, uma amante, uma companheira. O homem que eu sou hoje é por causa dela”, detalha.

O ‘match’ deu certo e Inglid veio de mala e cuia direto de Natal “atrás do baiano”. Apenas cinco meses depois do primeiro encontro virtual, ela já estava morando em Salvador. A esposa conta que, no começo, a família, inclusive sua filha então com 13 anos, fruto de um relacionamento anterior, tiveram um pouco de resistência para aceitar a relação. A rejeição, no entanto, passou quando parte da família de Inglid veio passar uma temporada em Salvador para conhecer melhor Gilvã. “Acho que eles conheceram a pessoa mais autônoma que eles já viram na vida, apesar da cadeira”, diz a esposa.

Hoje, Gilvã e Suiane, a filha de Inglid, se consideram pai e filha. Perguntamos se ele tinha ideia do motivo que levou os parentes da amada a terem uma primeira reação não tão positiva. Na resposta, uma aula, digna de quem sonha em ser professor. “Se a gente reparar, todo mundo tem alguma limitação, uns menos e outros mais. O que falta mesmo é conhecimento. Uma cadeira de rodas não me faz menos humano ou mais humano, mais ou homem ou menos homem”.

No relacionamento dos dois, inclusive, Gilvã deu outra aula. Colocou em seu nome o sobrenome da mulher, assim como ela fez no dela. O gesto incomum, para ele faz todo sentido. “É para acabar com esse estigma que o homem tem que dar o nome para a mulher como se fosse um prêmio, como se o homem tivesse que tirar a mulher. Porque a mulher não pode dar o nome a um homem? Num casamento a gente vai trocar experiências, sentimentos, por que não trocar o nome também?”, questiona. Ao falar da família a veia de poeta do escritor sobressai: “Minha vida sem elas não têm o mesmo sentido, a mesma cor, o mesmo valor. Não encontro outra palavra que não seja amor”, filosofa.

Mais sonhos
Há doze dias do lançamento do seu mais novo livro, ele, que teve a vida repleta de sonhos, e sempre lutou para tornar todos realidade, ainda quer mais. Um dos próximos sonhos a realizar já está próximo. Gilvã teve seu primeiro livro ‘Queria brincar de mudar meu destino’ aprovado em um edital para entrar no Programa Nacional de Leitura. Agora, a história de Gilvã será conhecida por todos os alunos da rede pública de ensino do país, a partir do próximo ano. “Quero mostrar pra eles que sonhar vale a pena, nem sempre é fácil. Eu quero dizer a eles que, apesar disso, sonhe! Um dia eu fui igual a você. É difícil, mas é possível”, diz determinado.

Em ‘Aqueles Malditos Olhos Azuis’ a história contada é a de Nice, segundo ele a junção de várias mulheres negras que ele conheceu. Assim como em seu primeiro livro, Gilvã quer fazer o leitor pensar. “Nesse livro não tem mocinho nem vilão, todos são vítimas e algozes. O grande vilão do livro talvez seja o machismo e o racismo. Quero que as pessoas leiam e percebam como isso é presente na nossa vida, mesmo quando a gente não percebe”. Para comprar a obra é preciso entrar em contato direto com o escritor, já que a publicação é independente. (veja abaixo as informações para compra).

Se muita coisa já aconteceu na vida de Gilvã, o escritor que diz ter pelo menos outros nove livros finalizados, tem imaginação para sonhar ainda mais. “Por mim, viveria pra sempre, mas, se chegar aos 100 anos, tá bom. Eu quero ter mais filhos, morar fora, escrever mais livros, viver uma lua de mel com a minha esposa, ser conhecido como escritor. Quero que eu venha primeiro do que a minha cadeira de rodas, porque muitas vezes a cadeira vem primeiro do que eu”.

 

Do correio para a Rede Nordeste