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Brasil
RADIOGRAFIA DA ESCRAVIDÃO

Vítimas de escravidão no Brasil: homens, negros, iludidos com oferta de trabalho na agropecuária

Setor concentra maior número de pessoas flagradas em regime análogo à escravidão nos últimos 15 anos no País

18:19 | 06/12/2018
Foto: Sérgio Carvalho/MPT
A oferta de trabalho na agropecuária seduziu 26.518 pessoas nos últimos 15 anos a serem submetidas a condições degradantes de trabalho, indignas a qualquer ser humano, com uma refeição ao dia, privadas de acesso a banheiros e vivendo no mesmo espaço onde faziam necessidades fisiológicas, conforme contam as vítimas. Elas relatam ainda jornadas exaustivas de trabalho, isoladas do convívio com outros seres humanos, sob ameaças físicas e psicológicas.

Em sua maioria homens, negros, pobres e sem escolaridade completa, 44.229 pessoas foram libertadas desde 2003 no Brasil atuando em regimes de trabalho análogos à escravidão, que pouco se assemelhavam às promessas feitas inicialmente. 
 
 
Setores atrativos

De acordo com dados colhidos no Observatório Digital do Trabalho Escravo, coordenado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), as propostas de emprego na agropecuária e na construção civil atraem principalmente homens jovens de baixa escolaridade. A procuradora Catarina von Zuben, coordenadora nacional de Erradicação do Trabalho Escravo (Conaete) do MPT, também apontou esse perfil como o mais recorrente entre as vítimas.
 

Dos 44.229 resgatados, 18,98% disseram ser pardos, mulatos ou negros. 64,32% das pessoas preferiram não declarar a raça. Do total das vítimas, 94,74% são homens. Quanto à escolaridade, 37,85% não chegaram a completar o 5º ano do Ensino Fundamental e 30,95% se declararam analfabetas. 

Catarina conversou com O POVO Online na primeira matéria da série de reportagens Radiologia da Escravidão Moderna. “Não é difícil uma pessoa resgatada voltar, porque ainda tem a ilusão de que vai ganhar melhor, que vai sustentar a família”, disse. Segundo a procuradora, um agravante nesses casos é a vergonha de voltar para casa sem trazer o que prometeu. “Muitos vão em alguma safra, guardam dinheiro, e no ano seguinte voltam de novo com aquela mesma condição de trabalho”, contou. 
Os dados indicam que a prática de explorar ilegalmente a força de trabalho na agropecuária e na construção civil é difundida a ponto de trabalhadores atraídos por ofertas para outras ocupações acabarem indo parar no campo e em canteiros de obras. 

Nos últimos 15 anos, de 26.680 vítimas flagradas em atividades agropecuárias, 26.518 relataram que a oferta inicial de trabalho era para tal setor. Na construção, as vítimas são seduzidas pela função de pedreiro, mas acabam como serventes de obras, sem condições mínimas de direitos. 
Maioria das vítimas são homens, negros, pobres e sem escolaridade completa (Foto: SRT/Divulgação)
 
Ceará 
 
Conforme a série Radiologia da Escravidão Moderna mostrou na última quinta-feira, 5, o Ceará é um exemplo da recorrência do problema no campo. Granja, no a 329 km de Fortaleza, é o município cearense que mais tem cidadãos explorados. Nacionalmente, a cidade está em 17º lugar entre aquelas que concentram maior número de vítimas libertadas.
 
O município está localizado na "Zona da Carnaúba", região que engloba municípios do Ceará e do Piauí. Relatório do 1º Seminário sobre Combate ao Trabalho Escravo no Ceará, realizado em 2016 pela Assembleia, apontou que a extração da carnaúba concentrava até 67% dos casos de trabalho escravo no Estado.

CARLOS MAZZA | IGOR CAVALCANTE