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Brasil
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Lute como uma garota

21:36 | 03/10/2018

O dia 29 de setembro poderá entrar para os futuros livros de História do Brasil como o dia em que um levante de mulheres, modificou os rumos da disputa presidencial de 2018. Organizadas em torno da hashtag #elenão, milhares de mulheres saíram às ruas, em dezenas de cidades do país e no exterior, para gritar "não ao machismo", "não à LGBTfobia" e "não ao racismo" do candidato à presidência de extrema-direita, Jair Bolsonaro. 

Por sua amplitude nacional e internacional, a marcha "Mulheres Unidas Contra Bolsonaro", entrará para os livros de história como o dia em que a dicotomia rede/rua foi desfeita. Diferente do que acontece com centenas de outras manifestações surgidas no universo virtual, que parecem se limitarem àquele espaço, as mulheres contra Bolsonaro, organizadas a partir do grupo do Facebook "Mulheres Unidas Contra Bolsonaro", se levantaram nas redes e nas ruas.

Elas estamparão as páginas dos livros com suas diferenças. Ativistas, militantes, artistas, intelectuais, professoras, alunas, donas de casa. Brancas, negras, indígenas. Crianças, jovens, velhas. Filhas, irmãs, tias, avós. Cis, trans. Héteras, bis, lésbicas. De classe média, pobres. Mulheres marcadas por diferenças de classe, raça, geração, identidade de gênero e orientação sexual, que no dia 29 de setembro de 2018, ainda que não tenham esquecido tais diferenças, se reuniram publicamente para gritar: "Ele não".

Nem todas essas mulheres reivindicam o feminismo como orientação político-existencial, todavia, é impossível não apontar os efeitos das lutas feministas no levante: o direito ao voto, a educação igualitária, a liberdade do prazer, o direito ao corpo; a luta contra a violência doméstica, por trabalho e salário igual. Inclusive o fato de terem lutado pelo direito ao voto, e terem conquistado, lhes permite hoje ser uma força a ser levada em consideração. 

Esperemos pelas próximas pesquisas eleitorais para ver os efeitos da mobilização das mulheres na disputa presidencial. Aguardemos, não sem mais levantes, o resultado do dia 7 de outubro, para conhecer as manifestações das mulheres também nas urnas. O fato, histórico, é que, independente do resultado das eleições presidenciais, os futuros livros de História do Brasil não poderão ser escritos sem o capítulo "Lute como uma garota".
 
Joana Maria Pedro, historiadora
E-mail: joanamaria.pedro@gmail.com

Elias Ferreira Veras, historiador
E-mail: eliashistoria@yahoo.com.br