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Brasil
ANÁLISE

Especialistas dizem que exaltação de mãe PM que matou ladrão é negativa para a própria categoria

Consequências da repercussão da morte do assaltante são analisadas por pesquisadores especialistas em segurança pública

15:16 | 15/05/2018
Imagem do momento que a PM atira no assaltante (Foto: Reprodução)
 
O assunto mais comentado no final de semana do Dia das Mães foi a ação da policial militar de folga que reagiu a um assalto, resultando na morte do ladrão. O caso aconteceu em São Paulo, na manhã do sábado, 12, em frente a uma escola onde crianças e responsáveis festejavam a data comemorativa. Diversas pessoas se manifestaram a favor da atitude da PM, exaltando o fato do assassinato do assaltante. O governador de São Paulo, Márcio França (PSB), prestou homenagem à conduta da agente. No entanto, especialistas em estudos sobre segurança pública afirmam que o enaltecimento da ação pode causar sobrecarga no trabalho já precário dos policiais.

“Nós temos a Polícia que mais mata e que mais morre do mundo, temos que reverter esse ciclo vicioso”, diz César Barreira, pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV), da Universidade Federal do Ceará. Ele afirma que a morte do ladrão não pode ser ressaltada como “uma grande honra”. O trabalho que deve ser lembrado é a prevenção e a proteção da população. De acordo com Luiz Fábio Paiva, também pesquisador do LEV, o policial hoje também é vítima da situação. Ele fala que a maneira como o fato está sendo tratado deixa um peso muito grande nas costas do policial. “Os agentes estão todo tempo sob pressão. Eles estão sendo cobrados para prevenir, julgar e executar a sentença dos crimes”. 

Em meio ao problema na segurança pública do Brasil, Luiz Fábio afirma que o clima é de “guerra”, por isso a vibração das pessoas com a morte de alguém que comete crimes. Ele destaca que o papel do poder público de garantir a segurança da população não está sendo cumprido, deixando a sociedade com um sentimento de indignação. “Essa sensação de insegurança está sendo canalizada para um ódio generalizado. Nesse momento, que é tão ruim para o País, situações que ferem o respeito e a dignidade do outro acabam sendo reforçadas”, diz. 

 A sociedade tendo o policial como a figura da “justiça”, segundo Luiz, contribui para que a saúde física e mental dos trabalhadores fique comprometida. “O policial cumpre um papel dentro do sistema social de justiça, que é de prevenir, investigar. Ele não pode exceder essa designação em detrimento da própria vida”. Para o pesquisador, a PM que atirou e matou o ladrão deve receber atenção psicológica do estado de São Paulo, não somente homenagens. “Não é simples assim, você não passa por isso sem ser afetado”.

Liberação do porte de armas
Outro ponto negativo da repercussão do ocorrido em São Paulo, para César Barreira, é o reforço do discurso da liberação do porte de armas. Com a justificativa do aumento de segurança da população, alguns grupos pró-armamento defendem que mais pessoas tenham o direito de portar armas. Entretanto, César afirma que a situação é “muito mais de perda para o cidadão”. “Quem sai ganhando é o bandido. Pessoas inocentes morrem e o criminoso ainda se apropria da arma”. Para ele, a saída é justamente o contrário. Diminuir a circulação de armas de fogo deve ajudar no combate ao grande número de homicídios.

Para Luiz Fábio, o conteúdo científico e técnico do debate sobre o armamento da população se esvaiu. Ele afirma que o discurso se encontra limitado a posicionamentos políticos de esquerda ou direita. Fábio aponta a necessidade de atentar-se a estudos já feitos em locais que o porte de armas é liberado, como nos Estados Unidos. “Várias pesquisas demonstram o que as armas de fogo e a facilidade no comércio delas causam em termos de mortalidade e massacres”. Até mesmo para pessoas com capacidade de manusear a arma, o pesquisador afirma que existem grandes riscos. Ele lembra casos de policiais que reagiram a assaltos e acabaram mortos. A PM de São Paulo, para ele, teve sorte.

ALEXIA VIEIRA