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Brasil
COTAS RACIAIS

"Nunca tive privilégios nenhum de branco", diz estudante que teve matrícula indeferida

Fabrício Ramirez ressalta que já foi perseguido por seguranças no supermercado e em lojas de roupa devido à cor de sua pele

11:59 | 12/01/2018
De acordo com informações divulgadas pelo jornal O Estado de S. Paulo, uma em cada três universidades federais do País já investigou a matrícula de estudantes que possam ter fraudado o sistema de cotas raciais. As denúncias, em sua maioria, foram feitas por movimentos negros. A ideia do governo federal é instaurar uma comissão para orientar análise visual dos alunos. 

Há 595 estudantes investigados em 21 instituições de ensino, e a maioria já teve a matrícula indeferida, mas parte conseguiu voltar ao estudos por meio de liminares. Os estudantes acusados alegam que tiveram pouco acesso a informação em relação ao indeferimentos. Uma aluna da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), disse ao O Estado que se sentiu lixo ao ser analisada por meio da aparência, como um objeto. A estudante ressaltou que não fraudou nada, e que na época que entrou na universidade o edital era por meio de autodeclaração. 

O centro da polêmica está no caso dos pardos, que são identificados como “socialmente brancos”, e de acordo com os movimentos sociais não deveriam utilizar o sistema de cotas. Os cursos de Direito e Medicina são os que mais possuem denúncias, por serem os mais concorridos. 

Para tentar resolver o problema, as instituições de ensino criaram comissões de aferição da autodeclaração de raça feito pelos alunos. Porém, como o sistema teve muitas distorções devido a falta de padrões, o governo do presidente Michel Temer decidiu reativar um grupo de trabalhos, com representantes do Ministério dos Direitos Humanos e secretarias do Ministério da Educação e da Fundação Nacional do Índio (Funai), para finalizar um documento que dará base para as comissões que irão avaliar a autodeclaração de raça dos estudantes. 

De acordo com informações do O Estado, o modelo da comissão que está em processo de desenho pelo governo federal, contará com banca de cinco pessoas, formadas de maneiras diversificadas tanto em gênero quanto em etnia dos avaliadores. 

O depoimento do estudante de Direito Fabrício Ramirez Bonacina, 26, que teve a matrícula indeferida pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), chamou atenção.

“Eu me considero pardo e já fui perseguido por seguranças no supermercado e em lojas de roupa. Tive de explicar que sou estudante de Direito, que não sou marginal e não estava lá para roubar. O Balanta (movimento negro da UFRGS) diz que é só o negro preto que sofre racismo, e não é. O que os coletivos falam de privilégios de branco, eu nunca tive. Tenho certeza de que não sou branco. As portas nunca se abriram para mim como esses coletivos colocam. 

A família, por parte do meu pai, é de origem italiana, da Serra Gaúcha. Então muitas vezes houve implicância com a cor da pele da minha mãe. Piadas de negro, diminuindo os negros, ofendendo os negros. Eu olhava para a minha pele e do meu avô e dos meus tios e eu dizia: ‘Espera aí, eu não sou da cor deles’. Então devo estar sendo incluído nessa piada preconceituosa. Percebia muito preconceito comigo e com a minha mãe. 

A genética do negro, misturada com a do índio, anula os traços negroides que a comissão da UFRGS solicita, como lábios grossos e cabelo crespo. Eu me senti extremamente aviltado do meu direito. Eu pesquisei a legislação antes de me inscrever para o vestibular e fazer autodeclaração para ter certeza de que não estava cometendo ilegalidade. Eu me senti tratado como um criminoso. E me senti ofendido.
 
Eu fui preparado para falar questões da minha vida pessoal, questões do meu contexto social, imaginando que fosse isso que a comissão cobraria, mas não cobrou nada. Não me deram chances de me expressar. Eles me olharam, não falaram nada e me mandaram embora em um processo que não durou um minuto. 

Sempre tive origem humilde. Minha infância foi em comunidade e estudei em colégio público no morro. Depois, fui morar na zona rural. Eu ia a pé, 3 km, para a minha escola. Quando resolvi que ia fazer vestibular, eu não tinha condições. Minha escola sempre foi fraca - faltava professor. Quando tinha período vago, eu ficava estudando na biblioteca. Era motivo de bullying por isso. No contexto social, sou tão carente quanto um negro preto.”  As informações são do jornal O Estado de São Paulo. 
 
Redação O POVO Online