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NOTÍCIA

Nova gestora do Instituto Dragão do Mar reforça "alinhamento" com Secult

Antropóloga Rachel Gadelha é a nova diretora-presidenta do Instituto Dragão do Mar. Em entrevista ao Vida&Arte, gestora adianta prioridades, ressalta importância de reforma administrativa e garante "afinação" com a Secretaria da Cultura

João Gabriel Tréz
13:24 | 02/03/2021
Antropóloga, Rachel Gadelha assume o cargo de diretora-presidente do Instituto Dragão do Mar. Anteriormente, ela geria o Cineteatro São Luiz, equipamento submetido ao IDM (Foto: Igor de Melo / divulgação)
Antropóloga, Rachel Gadelha assume o cargo de diretora-presidente do Instituto Dragão do Mar. Anteriormente, ela geria o Cineteatro São Luiz, equipamento submetido ao IDM (Foto: Igor de Melo / divulgação)

antropóloga Rachel Gadelha é a nova diretora-presidenta do Instituto Dragão do Mar, Organização Social que tem responsabilidade de gestão de mais de uma dezena de equipamentos culturais do Governo do Estado. Entre eles, o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, o Centro Cultural Bom Jardim, o Cineteatro São Luiz e a Casa de Saberes Cego Aderaldo, além da recente inclusão do Centro de Formação Olímpica (CFO), em parceria com a Secretaria de Esporte e Juventude. Com experiência em produção e pesquisa em política e gestão culturais, Rachel era gestora do Cine São Luiz e assume como diretora-presidenta do Instituto Dragão do Mar após ter o nome submetido e referendado pelo Conselho de Administração do órgão no último dia 1º de março, sucedendo a gestão de Paulo Linhares e o período de interinidade de Elisabete Jaguaribe.

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Em entrevista ao Vida&Arte concedida por telefone na manhã desta terça, 2 - o primeiro dia oficial no cargo - Rachel abordou desafios futuros da gestão em cenário de pandemia e escassez de investimentos, definiu prioridades e ressaltou a importância de alinhamento entre a Secretaria da Cultura do Estado e o Instituto: “A Secult precisa do IDM e o IDM precisa da Secult”.

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O POVO - Por quais cargos de gestão e políticas públicas de cultura você passou na sua trajetória?
Rachel Gadelha - Me sinto fruto, digamos assim, das políticas públicas recentes. Era consumidora da cultura e comecei a trabalhar com produção cultural como fruto da Lei Jereissati (lei estadual de cultura criada em 1996). Fiz Antropologia na Unicamp e, quando voltei pro Ceará, exatamente pela Lei Jereissati, pude vislumbrar a possibilidade de trabalhar profissionalmente com cultura. Passei anos vendo a efervescência do que aconteceu com a lei estadual, a lei federal, os governos FHC e Lula. No governo Lula, comecei a ver a complexificação do campo, novas demandas, muitas políticas. Tive muita vontade de estudar e, já tendo feito algumas pós-graduações, fiz um mestrado onde estudei as políticas e a produção cultural no Ceará tentando entender como nós tínhamos chegado ali, que desafios estavam postos e para onde estávamos indo. Foi exatamente quando recebi o convite para ir trabalhar no IDM, fazendo mais diretamente a gestão do Cineteatro São Luiz. São múltiplos olhares, o de quem foi produtor, o de quem inicia pesquisa e estudo e, então, passei para o outro lado do balcão, que é estar no lugar do Estado. Tive a sorte de viver o renascimento do São Luiz e trabalhei muito próxima na interface do IDM com a Secult. Nesse movimento todo, pude presenciar a importância do Instituto Dragão do Mar para a cultura no Ceará.

OP - Há uma intenção na sua gestão de empreender uma reforma administrativa no Instituto Dragão do Mar. Qual a motivação e de que forma ela será realizada?
Rachel - O IDM viveu todas essas políticas, fases, foi pioneiro no Brasil e, nos últimos anos, cresceu muito, passando a administrar diversos equipamentos. É chegada a hora: é consenso e desejo não só de quem está na gestão, mas dos equipamentos, dos artistas, da sociedade, de que realmente o Dragão precisa modernizar os processos de gestão, ter sistemas de compartilhamento de dados, de informação, um fortalecimento institucional, a revisão dos seus documentos, investir mais nas políticas de avaliação e acompanhamento, em como os fluxos podem ser mais simplificados e os processos mais agilizados, na transparência, com facilidade no acesso às informações. É uma instituição que tem 23 anos, precisa passar por essa reforma. É muito claro, também, que a gente está num contexto econômico que não é muito favorável, os recursos não estão abundantes, então tudo isso tem que ser feito com muita efetividade e acerto, otimizando muito cada recurso. Existe essa diretriz fundamental. Estou entrando, vou começar a conhecer, solicitar documentos, fazer um estudo e ver como nós vamos fazer esse processo, em que prazos, quais são as prioridades.

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OP - A reforma administrativa passa por pontos como uma maior aproximação e diálogo com as instituições, artistas e sociedade. Entre críticas ao IDM, há uma constante sobre a falta de regularidade de pagamentos - das campanhas do #pagadragão, em relação ao próprio centro Dragão do Mar, à situação de equipamentos como o Centro Cultural Bom Jardim, que anualmente precisa se articular para conseguir ser atendido. De que forma é possível reverter este quadro?
Rachel - Me lembrei de uma música que diz “afinar um instrumento de dentro pra fora e de fora pra dentro”. A reforma administrativa é um olhar profundo para dentro da instituição, mas tem também o olhar para fora. A reforma é um pilar, temos outros dois. Um deles é a estruturação da rede de equipamentos. Hoje, ainda, muita gente pensa que o Instituto Dragão do Mar é o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, mas o IDM é uma OS que administra muitos equipamentos culturais. Uma das metas é compartilhar os saberes, ter uma visão sinérgica e sistêmica sobre esses equipamentos. Cada teatro tem a sua singularidade, o seu lugar, característica, mas pode dialogar com os outros, e com isso a gente pode compartilhar a experiência e informações e, com isso, ampliar a efetividade. Outra coisa é que todos os equipamentos são relevantes. Nesse contexto, o Centro Cultural Bom Jardim é super relevante e, justiça seja feita, a Secult já vem fazendo esforços. O orçamento dele já aumentou nos últimos anos, a questão da parada em janeiro já teve esforços pra isso, mas ainda tem mais, ainda temos que avançar. Uma das minhas prioridades é tratar e ter uma cultura de proximidade e compartilhamento com todos os equipamentos.

A terceira diretriz é ter um IDM plural, acessível, compartilhado, de escuta. Amanhã a gente tem reunião do Conselho Estadual, há os fóruns, as instituições. Um IDM que partilha, que é poroso. Essas três coisas se complementam. Nesse sentido, sim, acho que tem críticas. Tem muita coisa boa que foi construída, é uma instituição importantíssima pro estado. Devemos louvar e valorizar e, ao mesmo tempo, ter a abertura para reconhecer o que precisa melhorar e trabalhar para isso. Não é um trabalho da gestora, é de um coletivo de agentes e da sociedade. Há muita disposição para fazer tudo que for possível.

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OP - A atual gestão do governo do Estado tem mais dois anos, então os desafios postos serão para o tempo restante de mandato no cenário de pandemia e de dificuldades de investimento. De que forma você pretende lidar com estes dois imperativos?
Rachel - Sobre o contexto da pandemia, falando como gestores de equipamentos, todos fomos pegos de surpresa no ano passado e tivemos que nos reinventar. A gente fez o possível: editais, programação virtual, muitos conteúdos foram gerados que vão ficar na memória da arte e da cultura. Falando por mim, tinha a expectativa que neste ano a gente ia olhar para frente e veria outro cenário e, na verdade, parece que a gente está em março de 2020. Isso traz novos desafios para a gestão cultural. É uma pergunta que os gestores e a própria Secult têm se feito muito: como se manter atuante, próximo e relevante enquanto equipamento cultural no meio disso tudo? Tudo bem, a gente vai continuar fazendo programação virtual se o cenário for este, mas que programação? Como chegar, se renovar dentro disso? São desafios que não são fáceis, não tem fórmula pronta e a gente está buscando como responder a eles. Um dado concreto e objetivo dessa crise é que os recursos vão para a saúde, o que é extremamente louvável e desejável. Eu pergunto, e a sociedade também, qual o lugar e a relevância da cultura neste contexto, em que a cultura e a arte ajudaram a atravessar o ano de 2020.

A gente tem uma política e uma gestão culturais no Ceará que tem sido exemplares e referenciais no Brasil. Agora, o que vai acontecer, como vai acontecer e o que vai ser possível virá no embate, no dia-a-dia, na boa disputa no sentido de se mostrar relevante. É daqui para frente. É ver o que nós vamos fazer, quanto nós vamos ter de orçamento. Isso está em plena elaboração, a história está acontecendo. Neste sentido, acredito que até como uma resposta à boa utilização desses recursos, sejam eles quais forem, temos obrigação de trabalhar com as três prioridades: reforma administrativa, estruturação dessa rede - porque a gente tem que gastar bem e fazer render cada recurso desse - e só vamos conseguir fazer melhor tudo isso ouvindo a sociedade. De cara, sei que vai ser processual. O caminho deve ser longo, mas se a gente conseguir começar a dar passos, já estamos fazendo.

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OP - O IDM tem a gestão de muitos equipamentos culturais do Estado - além do CFO e da Biblioteca do Estado, que deve ter gestão híbrida com o Instituto - e isso acaba sendo um ponto de debate. Como você avalia o modelo de gestão por OS?
Rachel - Falando de forma geral, o modelo é muito bom, tem compartilhamento, uma Secretaria de Cultura forte, próxima, ditando as diretrizes, acompanhando, fiscalizando. Ele dá agilidade, flexibilidade e tempos de execução que a arte e a cultura precisam. Em princípio, o modelo de OS é muito bom e tem locais do Brasil onde essa experiência é bem exitosa. O IDM tem 10 equipamentos, a Bece está chegando, tem o CFO, então penso que ele agora precisa dar uma arrumada na casa, se organizar, estruturar melhor. Sei que a Secretaria da Cultura pensa em qualificar outras OSs, o que acho importante porque compartilha experiências, formas de gestão. No plano estratégico da Secult, já está se trabalhando com o conceito de redes, com equipamentos de fruição, de formação e de patrimônio e acervo, então acho que a gente tem que estruturar essa rede. São bem-vindas outras OSs e o IDM precisa se voltar para dentro para se fortalecer, até para, se for para receber novos equipamentos, estar mais estruturado para isso.

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OP - Justamente pelo modelo de abrangência do IDM, ele acabou construindo um percurso, muitas vezes, que parecia autônomo em relação à Secult. Com a sua entrada na gestão, a intenção é fortalecer o alinhamento entre IDM e Secult?
Rachel - Com certeza. Sabe uma dança? A Secult precisa do IDM e o IDM precisa da Secult no sentido dessa dança parceira, harmônica, sincronizada. É muito importante registrar a autonomia e o lugar de cada instituição, é a premissa inicial. O IDM é o IDM, a Secult é a Secult. Mas a afinação, o alinhamento e a proximidade são fundamentais. Interessa ao IDM ter uma Secult forte, que tem suas diretrizes definidas, tem acompanhamento de resultados, entregas e execução do que ela repassa ao IDM, e interessa à Secult ter um IDM que execute com excelência e gestão, que traga mais se for possível, que tenha vitalidade de movimento aos equipamentos culturais.

É como se os equipamentos dessem uma concretude às políticas, é uma forma delas chegarem. Claro que tem os editais, outras formas, mas os equipamentos dão muito isso. Então é muito importante que um seja bastante próximo ao outro. Do mesmo jeito que pretendo ter partilha e escuta com artistas, coletivos e equipamentos culturais, também com a Secretaria da Cultura, com a gestão, com os coordenadores. Quais as políticas, o que está sendo pensado, como os equipamentos administrados pelo IDM reforçam os editais… Há um mundo para trabalhar em conjunto e essa com certeza é a intenção da Secult e do IDM.