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Ney Matogrosso em isolamento: reflexões e ideias

Ney Matogrosso tem passado os últimos dias refugiado em sua fazenda, na região serrana do Rio de Janeiro. O cantor, de 78 anos, sugere que as pessoas aproveitem o momento para olhar para si mesmas

31/03/2020 19:17:50
Ney Matogrosso interrompeu a turnê Bloco na Rua para se refugiar em sua fazenda e cumprir a quarentena imposta pela pandemia
Ney Matogrosso interrompeu a turnê Bloco na Rua para se refugiar em sua fazenda e cumprir a quarentena imposta pela pandemia (Foto: Divulgação)

Ney Matogrosso não está abalado, como não esteve em nenhuma fase atravessada pelos seus 78 anos. Mentira. Houve um momento, lá pelo início dos anos 1980, em que a culpa bateu. Afinal, por que ele não era feliz se tinha tudo o que todos queriam ter e não podiam? Era certo ter dinheiro? Era certo comprar carro? E a pobreza do mundo? A máquina que ele sempre repudiava, a do sucesso, havia, enfim, o devorado? Mas aí, Ney foi para a terapia e logo se reencontrou depois de apanhar muito com o método Fischer-Hoffman, uma terapia de alto impacto emocional e físico que, de fato, devolveu a ele o equilíbrio e a paz.

Quando a aids chegou nos primeiros anos da década de 1980, noticiada pelos jornais como a "peste gay", um torpedo foi lançado no meio da pista disco Dancin' Days dos anos 1970 e de toda a liberação sexual e comportamental pregada pelos hippies desde Woodstock, em 1968. A direita religiosa dizia ser um castigo dos céus a banir todo o pecado disseminado por pessoas que insistiam em amar outras pessoas do mesmo sexo.

Amigos, amigas e namorados, atores, cantores e médicos, muita gente cheia de vida e bronzeada começou a definhar. Em uma semana, Ney foi ao cemitério três vezes enterrar três amigos.

Ney caminha entre mortos e feridos desde sempre. Antes da aids eram os militares. "Avisa o Ney Matogrosso que ele será o próximo", ouviu o compositor Aldir Blanc ao ser levado para uma das dependências da polícia política no Rio de Janeiro. E, antes de tudo, era o pai, o padre, a professora, os amigos, um apresentador de uma espécie de show de calouros em um parque de diversões. Antes que a palavra gay existisse, nos anos de 1940, Ney não escondia suas delicadezas nem temia suas vontades.

Talvez isso explique a tranquilidade na fala de Ney - alguém que atravessou uma guerra mundial, uma ditadura de 21 anos e uma pandemia de aids - e seus posts no Instagram com flores, aves, borboletas, banhos de rio e coisas de alguém que poderia parecer habitar um outro planeta. Quando soube que o mundo iria começar a virar de pernas para o ar mais uma vez, Ney chamou um amigo e foi para onde sempre vai quando não está gravando discos ou com shows na estrada.

É na Fazenda Mato Grosso que Ney passa seus dias de confinamento forçado, sem poder voltar para o Rio e quebrando a série de shows marcados de sua turnê Bloco na Rua.

A fazenda é o lugar mais próximo de tudo o que ele tem como ideia de mundo perfeito. Um riacho de águas cristalinas, muitos caminhos a se desbravar por entre as árvores, alguns cães, uma jacutinga, espécies de aves que uma vida não catalogaria e uma cachoeira.

A alguns metros dali, descendo pela estradinha de terra, sua mãe, Dona Beíta, 97 anos, vive como quer, cuidando das galinhas e dos porcos. Como o filho, ela não gosta dos dias em que está no Leblon, onde Ney vive teoricamente com mais conforto, em uma cobertura a poucos metros da praia, com um macaquinho como único representante de seu mundo perfeito.

Os vírus devem ter dificuldade se quiserem achar hospedeiros que os levem até a Fazenda Mato Grosso. Eles precisariam primeiro se instalar em algum dos produtos que chegam raramente de um armazém próximo, levados por um funcionário que os deixam a uma distância segura, e resistirem às desinfecções cuidadosas de Dona Beíta.

Ney diz não tomar complexos vitamínicos nem fazer tratamentos rejuvenescedores para chegar bem aos 80, mas conta que, além de chupar limões que apanha em pés espalhados pela fazenda e de um revitalizante suco de inhame, cuida dos pulmões, o destino das novas pragas, com um chá de erva de Santa Maria, chamado também, em alguns lugares de Brasil, por mastruz.

No mais, diz Ney, não há mudança de rotina. Ele sai para fotografar pássaros, plantas e borboletas com seu celular. Mas não imagine Ney cantando pela floresta. "Eu não canto, não sou de cantar. Nem no banheiro".

As notícias de um mundo desconjuntado das pernas têm chegado pela TV, que Ney não assiste para "manter a sanidade mental". Ney diz que, desta vez, sua ida para a fazenda foi mesmo para fugir do novo coronavírus.

"Claro, não iria ficar preso no meu quarto, no Rio. Agora, eu sei também que é difícil para muita gente. As pessoas estão tendo de conviver com elas mesmas. Então, aproveite essa oportunidade de estar só, de se conhecer, olhar para dentro de si".

Ele diz algo que buscou fazer a vida toda, desde a infância solitária vivida no seu quintal de Campo Grande e depois, com todas as drogas e ervas que consumiu em busca de encontrar a si mesmo. "As pessoas passam a vida olhando para fora. E não pirem, porque é bom ficar só. Vai ser difícil para muitos, mas procurem tirar um bom proveito disso. É bom ficar só". (Julio Maria/ Ag. Estado)