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O leitor partido ao meio

13/07/2019 01:36:09

Quando eu trabalhava em uma livraria aprendi a admirar os raros leitores que atravessam o templo dos livros para escapar do mundo. Sempre silenciosos, eram os donos da paciência. Das vezes em que perguntei se desejavam alguma coisa específica, oferecendo ajuda, a resposta não variava muito em torno de uma frase objetiva: procuro novidades. Em outras palavras, eles procuram mais beleza para a vida.

Por respeito ao silêncio deste ato sagrado na busca da alegria, eu deixava os leitores à vontade. Discretamente, continuava a observar as cenas do meu posto privilegiado de recepcionista do Paraíso. No exercício pleno da calma e concentração, alguns mantinham rituais estabelecidos. Primeiro, um passeio pelas prateleiras. Uma das minhas funções era arrumar e limpar os livros e eu tinha o cuidado de deixar o máximo de lombadas na mesma posição. Um banquinho ou cadeira sempre perto era um dos meus outros gestos silenciosos de gentileza.

Depois de olhar o que estava à disposição, esses leitores especiais escolhiam alguns livros e deixavam sobre a mesa. Horas de observação e análise. Corações sensíveis procurando um caminho.

Foi nessa época que me apaixonei por Italo Calvino, seus livros magrinhos, sua prosa que reverencia a fábula, as tradições literárias, a observação do caleidoscópio humano na pele de homens e mulheres fadados ao absurdo. Lembro que um dia eu estava lendo O visconde partido ao meio quando um cliente perguntou do que se tratava, visto que eu parecia tão presa ao livro. Da vida, eu respondi.

Nada mais humano que o sofrimento do Visconde Medardo di Terralba. Um tiro de canhão não foi suficiente para assassiná-lo. Ao invés de morrer, ele foi partido ao meio. Converteu-se em duas metades, cada uma concentrando todo o Bem e todo Mal que um homem pode manifestar nos seus gestos e atitudes. Há desafio maior na vida que o dilema entre dois caminhos? Olhar o tanto que se perde e se ganha na decisão por cada um? O cliente parecia viver algo parecido, pois concordou com minha divagação.

Eu estou certa de que Italo Calvino acreditava no poder das grandes oportunidades em cada confronto do nosso espírito. Uma vida modorrenta, escorrendo pela mesma estrada sem cor acaba apressando a morte dos sonhos. Foi Calvino quem disse: "ser capaz de colocar continuamente em questão as próprias opiniões é, para mim, a condição preliminar de qualquer inteligência."

Expliquei ao cliente que precisamos entender Italo Calvino sobretudo como um Oulipiano, "um rato que constrói seu próprio labirinto de onde se propõe a sair." Intrigado, ele perguntou se havia outro exemplar do Visconde Partido ao Meio. Eu disse que não, era o único, mas poderia vender. Na próxima remessa eu continuaria a leitura. Disfarcei a decepção, recebi o pagamento, entreguei a sacola. Eu não esperava tanta rapidez, mas o novo leitor do Calvino veio no dia seguinte, visivelmente partido ao meio, para me perguntar o que era um Oulipiano. Uma novidade, eu respondi, cumprindo a missão de recepcionista do Paraíso. (Texto publicado originalmente no dia 3/11/2018)

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