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Conversa com a filha

01:30 | 10/07/2019

Pai, você acha que eu tô parecendo um menino?

A filha vestia bermuda e uma camisa de futebol do Brasil. Olhei. Continuava uma menina, eu disse, apenas usava roupas que não costumava usar, como aquele short e a camisa que lhe demos durante a Copa e que agora, neste momento, por razões que ela não entendia, havia perdido o sentido, o ano 2014 enterrado num passado distante e depois dele também 2018.

Notei algo, porém. Entendi que a filha me desafiava a dizer que sim, que ela parecia um menino. Não disse.

Não pareço mesmo?, insistiu. Não, filha, eu respondi. Continua uma menina.

Fiquei pensando nisso algum tempo. Escrevi um parágrafo, depois dois. Apaguei tudo e liguei a TV.

A filha é vaidosa, gosta de se pintar, passar batom. Usa muito rosa, típico da idade, e espalha sombra nos olhos. Pela manhã gasta o tempo a cuidar de bonecas, que chama de filhas. Enfileira-as na cama, cobre-as com camisetas e diz que estão agasalhadas e protegidas. Pede que façamos silêncio porque as filhas dormem, e então as deixa sozinhas no quarto.

Antes de sair casa, enfeita-se inteira. Pergunta se está bonita. Sempre digo que sim, sempre direi que sim.

Pede ajuda apenas com os cabelos, que eu mesmo gosto de pentear porque já tenho poucos e também porque vê-los contra a luz traz felicidade e paz. Ponho-os de lado, mais ou menos como a mãe penteava o meu cabelo quando eu era criança e eles caíam pela testa, fios tão finos e claros que depois se tornariam escuros e enfim esbranquiçados.

No cabelo da filha meu próprio cabelo, e nos dois esse salto de tempo que eu não eu pude segurar nas mãos.

Lembro quando compramos essa camisa do Brasil. Uma cópia barata de camelô com o nome do Neymar e o número 10. Agora tenho certa vergonha, não da camisa ou de seu preço, mas do jogador. Achei que deveria pedir que a filha não usasse mais o uniforme da seleção, mas acho que não tenho esse direito.

Além do mais, eu teria de explicar muita coisa que ela não entenderia neste momento, de modo que deixamos a casa para um passeio no fim da manhã.

A filha tão luzidia vestindo amarelo, nos lábios um batom vermelho que pedira emprestado da mãe e com o qual espalhara em excesso, borrando de leve o contorno da boca de lábios finos. Como os da avó e os meus próprios.

Então eu a vi andar na minha frente numa trilha do parque, o passo decidido. Admiro suas escolhas, cada pequena decisão revestida de uma confiança que eu não tinha, que nunca terei. Aprendo com ela todos os dias, como no clichê de que os filhos melhoram os pais.

Não sei se melhoro, mas aprendo. A dançar, por exemplo. No São João da escola fiquei surpreso que tenha dançado tão bem uma coreografia que não entendi, mas cuja complexidade as professoras garantiram que estava adequada para a idade da turma. Eu acreditei.

A filha dançou bem. No palco, procurava sempre o olhar da mãe e o meu, sorria e depois se punha novamente a rodopiar, com saia rendada de chita amarela e um laço vermelho na cabeça que a avó preparara com cuidado.

 

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