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Ritos de devoção

|ESTREIA| Edivaldo Batista, Flávia Cavalcante e Marina Brizeno promovem uma "gira cênica", a partir de pesquisas e investigações corporais nas religiões de matriz africana. Nó cumpre temporada às quartas-feiras de julho, no Teatro Dragão do Mar

10/07/2019 01:33:55
Espetáculo
Espetáculo "Nò", de Edivaldo Batista (Foto: Jean dos Anjos/ Divulgação)

Rituais, celebrações, mitos que remetem às tradições afro-brasileiras. Imersão, festa, uma gira cênica. A partir de estudos, leituras, exercícios e experimentações, os atores-intérpretes Edivaldo Batista, Flávia Cavalcante e Marina Brizeno (além de Aline Rodrigues na criação e operação de luzes) transportam para aos palcos um mergulho nos diversos processos e frentes que caracterizam as macumbas. Intitulado Nó, o espetáculo fará sua estreia hoje, 10, às 19 horas, no teatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (Praia de Iracema), prosseguindo em cartaz durante as quartas-feiras do mês de julho. O ponto de partida para a concepção da montagem, segundo Edivaldo, deu-se no início de 2018 e a partir de uma série de conversas e treinamentos, inicialmente de ordem física.

"Nós três já fizemos Yemonja e a Princesa Negra (2015/2016). Em janeiro do ano passado, entramos em sala para começar esse processo criativo, partindo de um treinamento psico/físico/energético. Começamos a trabalhar muito com exercícios, partindo sempre de linhas, desse corpo que estava se deslocando em linhas, com pontos de partidas e chegadas, com impulsos também, etc., então foram surgindo alguns estados físicos bem provocantes e eles foram se desenhando como memórias ligadas às nossas espiritualidades individuais", revela o ator-pesquisador.

De memórias particulares provenientes de uma relação de ordem espiritual, a partilha dessas experiências trouxe à tona um universo vasto e formado por elementos diversos: rezadeiras, infusões, chás, procissões, curandeiras, novenas. "A gente foi vomitando todo esse processo de memórias e, no final, fomos reconhecendo que a gente os encontrava e os reconhecia dentro do rito religioso da umbanda", afirma Edivaldo. "Selecionamos uma linha e cada um ficou com uma em específico, que foram os pretos velhos, os exus e as pombas giras, e os caboclos. Foram as que mais interessaram e as que a gente mergulhou", complementa.

Nó batiza o trabalho e diz respeito a essa "amarração" de pontos específicos - o rito, o mito e a festa - dentro da narrativa pesquisada e, majoritariamente, cênica. "Cada movimento que gerava esses estados encontrava-se nesses três pontos, o que a gente chamou de nó". O espetáculo, assim, foi formatado para 60 minutos. "O espectador, talvez, vá ter uma relação muito mais de ver o rito e a festa do que o mito", credita Edivaldo. "Fico pensando que ele vá criar uma relação mais direta com o rito cênico e com a festa porque a gente faz questão também. A ideia do encontro, de estarmos no mesmo espaço da partilha, as comidas que são oferecidas e, no final, o festejar, de chamar mesmo a galera para uma festa", detalha.

A partir de Nó, Edivaldo analisa a importância de espetáculos que dialoguem com as referências de ritos religiosos afro. "Acho relevante pela tentativa mesmo de desmistificar esse lugar endemoniado que têm as religiões de matriz africana de um modo geral. Mas, principalmente, sobre a macumba. A umbanda também, mas eu me refiro à macumba porque, às vezes, ela não é vista nem sempre como um rito religioso, mas sim como uma relação ou como um culto ao demônio. Acho importante e relevante, enquanto artista, se debruçar sobre esse lugar e se aproximar das casas de umbanda - nos aproximamos e conversamos, de forma mais direta, com três casas - para tentar dialogar e aproximar esses dois públicos e tentar lançar luz, cenicamente falando, sobre a poesia, a beleza e o poder cultural que elas têm", argumenta.

Dessa forma, a questão da intolerância religiosa também perpassa pela narrativa. "Esse espetáculo faz com que a gente repense muito os nossos lugares de fala. Montar um espetáculo sempre é difícil, mas tem sido gratificante porque a gente acha que, nesse momento de desmonte geral no nosso País, cada vez mais é importante falar desses lugares. Mas não falar por eles, e sim falar juntos para fortalecer, tentar visibilizar a força e o lugar desses territórios e dessas lutas que são feitas cotidianamente e que, de alguma maneira, resistem. A gente também está se desconstruindo".

"Essas casas vêm desenvolvendo uma força e um lugar de resistência que têm a ver com cura, com coletividade, com referências ligadas aos pontos de cultura e de força. Quando a gente resolve organizar um material cênico que dialogue com isso, a tentativa é essa. É um processo de descolonização nosso, de formação quando a gente se aproxima de uma forma verdadeira e respeitosa, e lança isso para a Cidade, para lugares ditos elitistas ou para uma ideia de teatro", conclui.

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Espetáculo Nó (CE)

Quando: às quartas-feiras de julho, sempre às 19 horas

Onde: teatro do Centro Dragão do Mar (rua Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema)

Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). À venda na bilheteria.

Capacidade: 80 lugares (plateia em cima do palco)

Classificação: 16 anos

 

Teresa Monteiro