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Espetáculo inspirado nas obras de Pedro Almodóvar é encenado no Teatro Porto Dragão

11/07/2019 00:03:53
Solo
Solo "De Las Entrañas", de Alda Pessoa (Foto: Raquel Pimentel/ Divulgação)

"O desejo é algo irracional, pelo qual você sempre tem que pagar um alto preço". Na frase do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, um universo em cena se abre, trazendo à tona personagens, objetos, nuances de personalidade, intensidade. Em meio a flores vermelhas, um salto alto e doses seguidas de uísque, Dolores conversa (ou seria um déjà vu?), extravasando seus conflitos, sentimentos e emoções.

À flor da pele. Com direção assinada por João Paulo Lima, Alda Pessoa protagoniza De Las Entrañas aos sábados de julho (e dia 3 de agosto), sempre às 19 horas, no Teatro Porto Dragão (antigo Sesc Iracema).

A montagem, no entanto, não é recente. "A gente fez em 2011, lá no Teatro das Marias, que foi quando eu e o João nos conhecemos. Montamos muito rapidamente, em cerca de um mês, depois pegamos um (projeto) Quinta com Dança, isso já em 2012, e fizemos essa temporada", relembra Alda. A ida dela ao Rio de Janeiro, porém, adiou a continuidade do trabalho. "Fui embora para o Rio de Janeiro, mas o espetáculo já apontava para muitas coisas teatrais: uma linguagem híbrida, a dança, o teatro e tal... Mas eu não tinha uma formação ainda como atriz. Ia vendo na intuição. Fui ao Rio de Janeiro justamente para ter essa formação", afirmou a cearense.

O solo, cujo título é inspirado num livro do espanhol (Fuego em Las Entrañas, lançado em 1981), teve um recomeço no ano de 2017. "Ele ficou cinco anos parado, nesse tempo que eu estive no Rio, e eu não tive gás para produzir lá, porque estava estudando outras coisas, fazendo outras peças e também longe do João. Em 2017, o João conseguiu uma pauta no Dragão do Mar e falou: 'vamos fazer o De Las Entrañas?' Aí eu: 'vamos!'. E eu me empolguei tanto, que eu voltei para morar! (risos). Em uma semana, a gente remontou e reconfigurou completamente", complementa Alda, que reconhece as modificações e as justifica devido a um amadurecimento seu profissional e, sobretudo, pessoal.

Dolores, nesse sentido, carrega em si o universo de Almodóvar. Mas também muito da intérprete. "Ela traz bastante coisa de mim, com certeza. Dolores é muito intensa, vive muito cada emoção: a extrema alegria, o extremo sarcasmo e deboche, a extrema dor, a extrema vingança. Ela vive tudo no extremo e ela projeta também as coisas nos objetos - quase que como os objetos tivessem o mesmo valor das pessoas - e traz alguns elementos simbólicos, que alguns estão em forma de objetos também". A elaboração da personagem, consequentemente da ideia do solo, resultou de sua pesquisa de conclusão no curso de Dança, feito na Unicamp.

"O trabalho era sobre Almodóvar, só que eram mais três meninas junto comigo, tínhamos a orientação de uma professora, mas era outra configuração, outro título. Eu me apaixonei muito, muito e queria mais. A gente fez aquelas apresentações para concluir o curso e não conseguimos seguir. Eu fiquei com isso na minha cabeça. Passei pelo maior relacionamento abusivo da minha vida, que eu tive a minha vida ameaçada, e aí voltou... Eu fui montando cena na minha cabeça, sabe? Eu queria dar vazão a isso!", revela. A parceria com João Paulo Lima foi tanta que, mais recentemente, foi Alda quem assumiu a direção do solo de João, No'tro Corpo (2018).

A identificação com o diretor de Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos (1988), Carne Trêmula (1997), Tudo Sobre Minha Mãe (1999) e Dor e Glória (2019), dentre outros, foi consequência. "Descobri que João era apaixonado por Almodóvar também, que ele era professor de espanhol, que ele já se ligava muito nos filmes e já usava nas aulas. E eu nem sabia, assim, da experiência profissional dele. Mas eu falei: 'ei, me dirige, então!'. Porque uma coisa que eu sempre entendi é que Almodóvar envolve paixão. Não tem como desvincular. A gente deu muito certo. Foi uma química muito boa, a gente se complementa muito".

Para João Paulo, a instabilidade causada em suas cenas é o que mais aguça o foco do diretor. "Quando assisto Almodóvar, mesmo conhecendo praticamente tudo dele, eu fico instável: fico esperando uma cena trágica, aí vem uma bizarrice; eu espero uma bizarrice, aí vem uma tragédia. Então, às vezes, eu tento sempre conversar com a Alda algo do tipo: 'sempre deixe o público desconfortável, com medo'. Esse dialogar com o público é sempre uma tentativa de interagir e, ao mesmo tempo, criar um pânico nele. Porque o Almodóvar faz isso", explica.

"Trabalhar com (a obra de) Almodóvar fez muito parte do processo da mulher que eu me tornei também. Foi muito perto dos meus 30 anos (eu vou fazer 35 esse ano) - e eu acho que essa idade é muito significativa para a mulher - então não tem como não mexer nas minhas entranhas, de fato. Nas minhas dores, no meu passado, na minha história, nos amores que eu vivi e veio daí mesmo dessa relação. E quisemos deixar o título em espanhol porque é uma língua que parece que tem fogo, tem paixão, tem vermelho. Fora que a gente traz muito a questão do melodrama para a cena. Tem uns momentos bem melodramáticos, quase novelescos", adianta Alda.

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De Las Entrañas

Quando: dias 13, 20 e 27 de julho, e 3 de agosto, sempre às 19 horas

Onde: Teatro Porto Dragão (rua Boris, 90 C / antigo Sesc Iracema - Praia de Iracema)

Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). À venda na bilheteria.

Duração: 60 minutos (aprox.)

Classificação: 16 anos

 

Teresa Monteiro