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A Costura do Invisível

| Memória | Em entrevista exclusiva ao Vida&Arte, estilista brasileiro Jum Nakao revive seu icônico desfile de papel, apresentado há 15 anos na passarela do SPFW

02/07/2019 01:56:57
Jum Nakao - SPFW 2004
Jum Nakao - SPFW 2004 (Foto: Fernando Louza)

Era sobre moda, mas também não era. O que aconteceu no desfile-performance A Costura do Invisível, do brasileiro Jum Nakao, na passarela do São Paulo Fashion Week (SPFW), em junho de 2004, intriga até hoje com sua mensagem que atravessa o tempo. No desfile de 15 anos atrás, os modelos foram confeccionados em papel vegetal, com reproduções perfeitas de rendas e brocados que consumiram meia tonelada de papel e mais de 700 horas de trabalho. A apresentação de Nakao continua atual. Dialoga com o tempo, sem pedir licença. É dele, para ele, com ele. Fala de design como fala de significado e vida. Em entrevista exclusiva ao Vida&Arte o estilista reflete a costura de um tempo, de um design de moda propositalmente elaborado, na época, para ser tão logo consumido em um rasgo de papel - todos os modelos foram destruídos ao término do desfile. Fala ainda sobre a efemeridade das coisas, dos desafios de se ver e fazer moda, ontem e hoje. Chocar. Rever. O desfile da década, como foi batizado pela própria casa que o abrigou por minutos, no maior evento de moda da América Latina, deixou memórias jamais esquecidas, mesmo para quem não o assistiu, mas ouviu falar. O eco de Jum Nakao para a moda segue além.

O POVO: Qual sua lembrança mais marcante do dia do desfile?

Jum Nakao: A reação do público. Assim que se acenderam as luzes da sala ao término do desfile, a plateia invadiu a passarela. Todos coletavam fragmentos dos vestidos rasgados para levar como souvenir daquele dia. Jamais imaginei que dentro do SPFW pessoas "desceriam do salto", baixariam o "nariz empinado" e se curvariam para recolher estas memórias e prestar esta deferência ao trabalho. O rasgo não era o fim, era o princípio de uma série de reflexões, uma abertura que permaneceria para refletirmos sobre a efemeridade e a permanência, sobre a nossa própria existência.

OP: Passados 15 anos, a ideia do desfile continua atual. Como percebe que ela dialoga com este novo tempo? Qual a reflexão do ontem e do hoje?

JN: A Costura do Invisível continua atual porque modela sonhos e possibilidades, costura visível e invisível, borda permanência na efemeridade. Modela sonhos ao revelar possibilidades duma simples folha de papel, das quais todas as roupas do desfile foram feitas, ao nos mostrar que o encantamento encontra-se nos olhos de quem vê e crê, que não importa do que é feito, mas, sim, como é feito, que sonhos, mesmo que frágeis e delicados como os escritos ou feitos de papel, podem existir para sempre. Costura visível e invisível ao revelar através do rasgo, que, além da forma, deve haver conteúdo, que por detrás de cada palavra existe um pensamento, que o conteúdo sobrevive mesmo depois que a forma desaparece e que os pensamentos reverberam em nossa memória mesmo depois de pronunciadas as palavras. Borda permanência na efemeridade ao "vestir" sem existir: a coleção de papel foi inteira rasgada em seu lançamento sem uma roupa sequer posteriormente ter sido produzida, e perdura através dos tempos como referência de moda. Assim como estrelas que morrem, mas deixam rastros de luz pelo espaço, precisamos compreender que nossos atos são como efêmeras centelhas no infinito, brilham para sempre, têm permanência no tempo e espaço.

OP: A sustentabilidade é uma das principais questões, hoje, da moda. Também há esta interseção com o trabalho de 2004? Que links seriam possíveis, dentro deste rumo?

JN: Penso em sustentabilidade por uma perspectiva da complexidade não reducionista ao princípio ecológico: a matéria, pois a sustentabilidade, ao meu ver, engloba diversos outros fatores. O problema não é como produzir em escala que não degrade o ambiente, é a sociedade consumir na escala adequada. O segredo é que não existe sustentabilidade nos padrões de consumo atual, isso é totalmente impossível. Os valores estão errados. A escala é uma mentira, porque está se consumindo além da escala real de necessidades. Se pararmos para pensar, está tudo muito além. As necessidades não são essas, então, são as escalas que estão fora de proporção. A métrica está totalmente errada, a métrica não é mais a métrica humana, é a métrica da máquina, a métrica do sistema. A máquina, para ser lucrativa, tem que produzir "tanto"; esse sistema, para se manter, tem que ter uma demanda de "tanto". E o centro não pode ser a máquina nem o sistema, o centro deve ser o todo, ou seja: não deve haver centro! Então está tudo errado! Recomeça-se com as pessoas parando para pensar sobre o que elas realmente precisam. Qual o vazio a ser preenchido? Materialmente o que as pessoas realmente precisam? Temos que repensar então o sistema, porque ele está baseado em comércio de objetos e não de valor. Precisamos conferir valor, significado ao objeto, tanto em moda como em design, e não em como comercializar, inserir estes bens dentro de um sistema que já se demonstrou falho. Devemos repensar o sistema e não reiterar, alimentar aquilo que já existe como valores erráticos de uma sociedade. Quem produz um objeto ou um produto está sempre pensando em como inseri-los dentro do sistema que já existe, reforçando toda uma sociedade, todos os valores que já se tornaram obsoletos e apontam para um triste fim. Vivemos uma simples substituição de protagonistas e objetos de uma velha história. Essa dança, essa mudança de protagonistas - o novo designer, o novo estilista - é o que menos importa. Não precisamos de novos protagonistas de uma história velha, mas de uma nova história. O grande problema é que as escolas - toda a educação - não estão fomentando essas mudanças. Elas continuam, assim como todos os meios, a alimentar a manutenção desse sistema falido. As escolas não produzem novas escolas de pensamento. São poucos os meios que se empenham, com essa visão de procurar novos modelos. Continua-se simplesmente a procura do mais novo para substituir dentro do modelo velho. Se você quer que mudanças aconteçam, é necessário que você mude as pessoas. Se você quer que transformações aconteçam, você precisa formar novas pessoas.

OP: No aniversário de dez anos do SPFW, a performance ganhou o título de desfile da década. Que outras barreiras, por meio da moda, ainda faltam serem quebradas?

JN: Romper o anestesiamento geral. No mundo como um todo percebemos este anestesiamento. Uma indiferença generalizada sobre processos e essência. Cada vez mais necessidades cavalares de efeitos especiais e culto ao ego para sensibilizar o público. Não se vive mais a própria história, terceirizamos nossa existência para avatares personificados por e para terceiros. O mundo dos desejos modernos substituiu os sonhos individuais por modelos reproduzíveis sem limite de cópias e sem essência. Não se vive mais, não se sonham os próprios sonhos. Se consomem produtos sem autenticidade e incapazes de preencher vazios e assim aprofunda-se a falta. A cura é através da reconexão com a dignidade. O mundo precisa de pessoas dignas.

OP: O que mais falta para prestarmos mais atenção ao essencial? Aliás, o que seria este essencial na moda/por meio da moda?

JN: Nos reconectarmos com a dignidade. Não apenas na moda ou através da moda, mas na forma como conduzimos nossas vidas em toda sua abrangência, como cidadãos, como profissionais, como familiares, como humanos. É necessário se repensar, se reconectar com a essência humana que ficou perdida em algum momento desta história. Merecemos entregar e receber o melhor e não o pior! O mais dedicado atendimento, o melhor produto, o mais artesanal, o mais natural, o produto e o serviço feito com amor, a materialização do que a humanidade pode produzir de melhor. Infelizmente todos estes valores se tornaram secundários por números que passaram a definir nossas escolhas. Menor preço, maior prazo, mais rápido, maior quantidade, mais likes. Nos tornamos devoradores e reféns destes números e esquecemos de como desfrutar o conteúdo, o invisível, a experiência. Para exemplificar, compartilho a sensação descrita por uma menina de comunidade, durante um workshop, ao ter seu primeiro vestido sob medida: "me sinto digna!". Creio que ela tenha se sentido como "uma princesa em seu vestido". A arquitetura ou design de interiores propiciaria a ela se sentir em seu "castelo". A gastronomia, a música, qualquer ofício pode conferir este sentido à existência humana, servir com e vivenciar: dignidade.

OP: Aproveitando, para destacar, a costura continua invisível? Hoje, qual sua análise sobre a moda?

JN: O invisível continua invisível. Precisamos costurar para torná-lo visível. Mais do que nunca, o rei está nu. Você comeria em um restaurante de um chef famoso que não sabe cozinhar? Provavelmente não. Você compraria de um estilista famoso que não sabe modelar? Provavelmente sim. Você provavelmente não comeria em um restaurante de um chef famoso que não sabe cozinhar, porque provavelmente ele não seria considerado um grande chef. Simples assim. O mesmo não acontece em moda. Moda literalmente sobrevive de imagem. Imagens muitas vezes falsas e de pessoas que sequer sabem cozinhar "moda". Pessoas sem paladar ou capacitação se tornam celebridades na moda, da noite para o dia. Marcas são criadas na calada de agências. Mas o cenário da gastronomia nem sempre foi assim: antigamente ser cozinheiro não estava na moda. Agora: está na moda. Até o status alterou de cozinheiro para chef. Muita água rolou para que isto acontecesse aliada, é claro, à sensibilidade instintiva humana inata: o paladar. Ninguém come uma comida desagradável e faz cara de quem gostou, no entanto, quando o assunto é moda: qual instinto deve nos guiar? Resgato a passagem anteriormente citada: a sensação descrita por uma menina de comunidade ao ter seu primeiro vestido sob medida: "me sinto digna!". A Moda pode e deve conferir dignidade. Acreditem em vestidos de princesas, em armaduras de príncipes, roupas que façam Você se sentir especial, feitos sob medida. Era assim no passado! Você é único, assim como seu corpo. O sapatinho de cristal para os seus pés são somente seus em todo o Universo. Se você não se considerar uma princesa ou um príncipe, nenhum guarda-roupa repleto de grifes, tendências, será capaz de fazer você se sentir especial. Faça suas escolhas com consciência.

OP: O que tem lhe alimentado de ideias novas ultimamente?

JN: Procuro compartilhar sonhos. Sonhos são feitos de matéria instável: um pouco de arte, um pouco de design, um pouco de moda e muita imaginação. Procuro estar conectado com o entorno, fora da redoma, criar para o mundo em interação com a sociedade e estabelecer diálogos abertos e multiplicadores, e assim propiciar leveza às pessoas. Por isso me inspiro nos acontecimentos cotidianos da existência comum para criar novos significados, novas acepções e formas de lidar com a realidade em que estamos inseridos. Inicialmente, antes da moda, eu almejava propiciar novas experiências e formas de relações através da eletrônica e da computação. Fato que ocorre naturalmente hoje em dia, onde a presença e influência das novas tecnologias como internet, redes sociais, apps, a eletrônica nas artes, a realidade virtual, que são ferramentas que mudaram as formas como as pessoas se relacionam e expandiram exponencialmente as possibilidades de compreensão e experimentação do mundo em que vivemos. Não exatamente como eu imaginava. Hoje é visível a alienação do real em prol do virtual, mas fica a pergunta: onde está a real experiência? A resposta é: está na consciência independente da materialidade. Precisamos, então, aprender a navegar no fluxo deste oceano tecnológico contemporâneo e imaterial para cumprirmos os nossos papéis. O importante é conferir profundidade à imaterialidade e preencher com leveza os vazios da humanidade.

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Jully Lourenço