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Gerar arte para enfrentar a vida

| artes visuais | 70º Salão de Abril promove visitações a ateliês de renomados artistas cearenses. Amanhã, 19, Hélio e Efímia Rola apresentam ao público seus estúdios de pintura e bordado localizados no bairro Lagoa Redonda

18/06/2019 01:34:13
FORTALEZA, CE, BRASIL, 15.06.2019: Helio Rola, artista plastico. Artistas abrem suas casas para visita do salão de abril.  (Fotos: Fabio Lima/O POVO)
FORTALEZA, CE, BRASIL, 15.06.2019: Helio Rola, artista plastico. Artistas abrem suas casas para visita do salão de abril. (Fotos: Fabio Lima/O POVO) (Foto: Fabio Lima/O POVO))

Do francês atelier, oficina de trabalho de artista, os ateliês de arte são singulares por excelência: os estúdios abrigam as obras em devir e cartografam os processos de cada criador. Nas palavras da pesquisadora Marisa Flórido Cesar: "logo percebemos que o ateliê também encerra as exterioridades mundanas, a trivialidade da vida e dos dias comuns, o ordinário das horas, a rotina do artista. A natureza do ateliê é ambígua: ele pertence ao universo artístico, mas é extrínseco à obra de arte. Como a moldura, insere-se nos domínios da margem". Proporcionando ao público a experiência de conhecer os estúdios de renomados produtores cearenses, o 70º Salão de Abril oferece uma série de visitações aos ateliês de artistas como Sérgio Lima, Sérgio Pinheiro e Carlos Macêdo. Ao longo do mês, Roberto e Lúcia Galvão e o Acidum Project também abriram suas portas. Amanhã, às 10 horas, os ateliês de Hélio e Efímia Rola recebem interessados.

Abrigado em um recanto verde no bairro Lagoa Redonda, o casal de artistas visuais Hélio e Efímia Rola compartilha o fazer artístico há 57 anos. Nessas quase seis décadas de união mapearam Fortaleza entre linhas de bordado e pincéis: "discípulos de José Albano", como define Efímia ao relembrar a casa do fotógrafo na praia da Sabiaguaba, abandonaram os agitos e ruídos da Praia de Iracema para buscar sossego e inspiração em meio à natureza. Criaram assim os filhos André e Silvia.

"Eu desenho com caneta, com tinta guache, com qualquer coisa... E também faço pinturas em tela. No momento, eu fotografo minhas obras, faço fotomontagens e posto no Facebook com algumas reflexões sobre a política. Estou em um caminho entre direita e esquerda, em cima e embaixo…", enumera Hélio ao resgatar sua trajetória artística. Pintor, desenhista, escultor, gravador e cineasta, Francisco Hélio Rola acumulou uma vasta experiência ao longo de seus 83 anos. Estudou na Sociedade Cearense de Artes Plásticas em 1949, mas também graduou-se em Medicina em 1961 e finalizou o doutorado em Bioquímica pela Universidade de São Paulo. Dividiu-se entre a fisiologia e as tintas e, de 1967 a 1970, pesquisou pintura com Joseph Tobin e Agnes Hart no Art Student's League nos Estados Unidos. Em 1981, Hélio concluiu também um pós-doutorado pela Université de Paris XI. Atento ao tempo, o artista cearense é sobretudo um intelectual.

Entre os multicoloridos e incontáveis quadros de seu ateliê, com cidades e demais termas urbanos retratados, Hélio Rola produz arte para enfrentar a vida — arte contaminada pelo cotidiano, arte micropolítica. "Eu tenho feito uma reflexão: compareço com frequência ao Facebook e expresso publicamente opiniões, transformo e faço fusões na minha arte. Percebo que outros artistas não usam a habilidade do metiê para fazer a arte deles… Eu me comprometo de uma maneira que os outros artistas não o fazem. Além de me expor, eu exponho a minha maneira de fazer. Eu acredito que contribuo nas redes sociais porque sempre exponho minhas imagens acompanhadas de reflexões críticas de filósofos como

Michel Serres e Humberto Maturana", partilha o pintor. Em um contínuo processo de construção também de si, Hélio Rola defende uma arte que interpela a sociedade.

"Eu acho que quem ser `artivista´

— artista que faz da arte a sua forma de ativismo — tem que ir mais à frente, tem que pegar o seu mercado e se arriscar. O que quer o artista? Viver bem da sua arte, mas nunca estar mal com as classes dominantes que consomem suas obras. Parece que, ao longo da história, ser artista é ser de esquerda — mas, depois de um certo tempo, isso passou a ser uma religião. A arte tem esse papel de questionar. Estou sempre pensando sobre isso, mas lendo e fundamentando essas reflexões", continua Hélio. Além do Ceará, o artista já expôs suas obras na França, nos Estados Unidos e na Alemanha.

Nascida na Grécia no final da Segunda Guerra Mundial, Efímia Rola e sua família vieram para o Brasil "em busca de dias melhores". Com apenas 16 anos, chegou em Fortaleza e um ano depois conheceu Hélio em uma festa no antigo Clube Iracema. Desde então, constroem juntos essa trajetória pela arte. Professora, pesquisadora e artesã, Efí é graduada em Pedagogia, pós-graduada em Sociologia e une a academia à manualidade. "Senti um abuso da academia formal e decidi ir cuidar da vida", conta aos risos ao explicar seus caminhos. Neta, bisneta e tataraneta de professores; cozinheira numa linhagem de avós também cozinheiras e poliglota por herança familiar, Efímia carrega no corpo de 74 anos a ancestralidade de suas origens.

"Eu sou bordadeira por ofício de família. Bordo em ponto cruz e ponto cheio em tecidos como etamine, talagarça e juta. Nas minhas obras, que se encontram com as do Hélio nas cores, os arabescos, a geometria e a simetria também estão sempre presentes", pontua a autora do livro De bordar e de viver: um livro para Rachel. "A arte me ensinou muita coisa. O delineamento metodológico do meu trabalho é o seguinte: criar um bordado e bordá-lo até o fim. No meio do processo de criação, eu percebi que errava na hora de transcrever alguns desenhos... Mas o erro me mostrou que dali podia nascer uma nova obra. Os árabes têm uma crença que diz assim: 'todo trabalho tem que ter um defeito, porque só Deus é perfeito'. Na arte também é assim", conclui. As inscrições para conhecer os ateliês de Hélio e Efímia são realizadas pelo endereço de e-mail contato@agenciakatu.com.

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Visitação aos ateliês de artistas do 70º Salão de Abril

Interessados poderão realizar a inscrição pelo e-mail contato@agenciakatu.com, informando o nome, o telefone, o ateliê que deseja visitar e a data. A organização do evento disponibilizará transporte para os inscritos, nos dias de visitação, saindo da Vila das Artes (Rua 24 de Maio, 1221 - Centro).

Hélio e Efimia Rola

Visitação: 19 de junho, às 10h

Endereço: Rua Joaquim Ferreira, 911 - Lagoa Redonda

Sérgio Lima

Período de visitação: 26 e 28 de junho, às 16h

Endereço: Rua Nogueira Acioly, 204 - Centro

Sérgio Pinheiro

Período de visitação: 27 e 29 de junho, às 15h

Endereço: Rua Paschoal de Castro Alves, 51 - Vicente Pizon

Carlos Macêdo

Exposição: Mergulho e Descompressão - Uma possibilidade narrativa da história do Salão de Abril, em 25 obras.

Rua Barão de Aracati, 457 - Meireles

Visitação: Agendamento de visita pelo telefone (85) 9 8758.8651

Bruna Forte