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Rever e confessar

| DOR E GLÓRIA | Almodóvar traz drama confessional com toques de autoficção e metalinguagem. Estreia nacional ocorre hoje, mas em Fortaleza ainda não há previsão

13/06/2019 01:33:44
Salvador Mallo, interpretado por Antonio Banderas, é um cineasta em crise física e emocional em Dor e Glória
Salvador Mallo, interpretado por Antonio Banderas, é um cineasta em crise física e emocional em Dor e Glória (Foto: Manolo Pavón / divulgação)

Em Dor e Glória, mais novo filme escrito e dirigido pelo espanhol Pedro Almodóvar, Antonio Banderas dá vida a Salvador Mallo, cineasta espanhol que, na casa dos 50 ou 60 anos, encontra-se afastado da profissão por crises físicas e emocionais. Em uma sequência inicial, o diretor fictício encontra, por acaso, uma atriz com quem já trabalhou e os dois conversam sobre um dos maiores sucessos de Mallo, Sabor, lançado há 32 anos. À época do lançamento, o resultado ficou aquém do que ele esperava, levando-o a não apreciar a obra. No diálogo, porém, Mallo conta que reviu o longa dias antes e, surpreendentemente, gostou, usando como justificativa que o tempo teria feito bem à obra. A atriz rebate: "Seus olhos é que mudaram. O filme é o mesmo".

É na toada da revisão - de si e do que está ao redor - que se desenvolve a narrativa proposta por Almodóvar. Em meio a severas crises de dor nas costas e de cabeça, Salvador entra em contato, seja por meio de delírios, drogas ou reaproximações inesperadas, com diferentes memórias da vida, em especial da infância. Essa abordagem memorialística aponta para o momento de vida do próprio cineasta, que completará 70 anos neste ano. A ligação do protagonista de Dor e Glória com o diretor é não somente uma possibilidade como sugerida pelo próprio - não por acaso, nas letras que compõem o nome completo de Salvador encontram-se aquelas que formam a palavra "Almodóvar".

Na primeira hora de filme, as sequências da infância, que contam com a presença da atriz Penélope Cruz interpretando a mãe do protagonista, são mais interessantes do que aquelas do presente do cineasta. São cenas que acompanham o deslumbre do pequeno Salvador ao ver a mãe e suas amigas lavando roupa e cantando ou a entrada dele no coral do colégio religioso. A presença de elementos que já foram anteriormente utilizados na obra do diretor, como a relação filial e a religião - vide Tudo Sobre Minha Mãe (1999) e Má Educação (2004), este último tendo diversos pontos de conexão com Dor e Glória -, reforçam as mensagens que o cineasta quer passar.

Há de se ressaltar, no entanto, que nem tudo o que ocorre no filme é, de fato, autobiográfico. O longa dá pistas disso quando mostra a predileção de Mallo por autoficção. Ao longo do filme, seja nos flashbacks ou na contemporaneidade, Salvador demonstra ser adepto da utilização de diferentes passagens e momentos da própria trajetória para criar obras a partir delas. Algumas vezes, personagens que orbitam ao redor do protagonista mencionam - ora desgostosas, ora emocionadas - terem reconhecido a si mesmas e a histórias vividas com ele em escritos anteriores do cineasta. É como se, assim, Almodóvar confessasse que conta sobre si, mas também se inventa.

Dor e Glória, inclusive, carrega em si um teor confessional que coloca a obra num lugar diferente dentro da filmografia do espanhol. Conhecido por melodramas, cores e exageros, o cineasta, aqui, parece mais sóbrio, comedido. Julieta, longa anterior lançado por ele, já adiantava um pouco o caminho da sutileza, mas as diferenças entre os longas são visíveis. Enquanto em Julieta a narrativa ainda possui peso relevante para o seguimento do filme, Dor e Glória se mostra menos preso a encadeamentos ou sequências narrativas, por exemplo, preferindo mergulhar nas subjetividades do protagonista. Tanto que, para além de Salvador Mallo, não há maior profundidade de nenhuma outra personagem. Daquelas que vemos maiores traços de personalidade, só há espaço porque elas têm relevância aos olhos do protagonista.

Obra estritamente pessoal, Dor e Glória se comunica com o espectador a partir dos temas refletidos por Mallo-Almodóvar e, é possível também dizer, pelo afeto e reverência que faz ao cinema e sua linguagem. Há espaço para reflexões sobre velhice, solidão, homofobia, família, vício, amor, paixão, desejo. E há, também, o discurso inspirador de que a arte pode, sim, dar conta de demônios e mal resolvidos do passado, ajudando - seja o criador ou o espectador - a fazer as pazes com situações, pessoas e, em especial, consigo.

 

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João Gabriel Tréz