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A honestidade do exagero

| Crítica | Costurando fatos da biografia do cantor britânico Elton John com o advento da fantasia e do artifício, Rocketman é obra honesta em seus excessos

10/06/2019 05:23:45
A fantasia e o exagero são características do longa Rocketman, que narra a vida do britânico Elton John
A fantasia e o exagero são características do longa Rocketman, que narra a vida do britânico Elton John (Foto: David Appleby / divulgação)

A estreia recente de Rocketman, cinebiografia do britânico Elton John, soma-se a outras obras do cinema que se propuseram a contar recortes mais ou menos extensos da vida de figuras icônicas da música mundial. Entre filmes criticados por omissões de dados relevantes, mas espinhosos - vide Bohemian Rhapsody (2018), que fala de Freddie Mercury -, outros que seguem um modelo mais comum - Cazuza - O Tempo Não Para (2004) ou 2 Filhos de Francisco (2005) - e ainda outros que optam por se fechar em experimentos mais autorais - Últimos Dias (2005) e Controle (2008), que acompanham as derrocadas respectivas de Kurt Cobain e Ian Curtis -, Rocketman se destaca pela honestidade. Tanto o filme não procura esconder problemas sérios da vida do retratado quanto ele o faz de maneira singular, abraçando o artificialismo e o exagero em sua forma.

Dirigido por Dexter Fletcher, com roteiro de Lee Hall, Taron Egerton no papel principal e produção do próprio Elton John, o filme não apenas "tem" músicas do artista, mas se desenrola como um musical de fato. A escolha, de partida, anuncia a utilização do artificial como base de construção da narrativa, abraçando a fantasia que o gênero proporciona desde a abertura do longa. Com uma vida conhecida por extravagâncias visuais e comportamentais, o cantor britânico ganha uma obra à altura dos excessos da trajetória.

Compreendendo um amplo período de vida do astro, Rocketman mostra passagens que partem da infância do astro, em flashback, e chegam aos problemas com drogas por volta dos 40 anos - mostrando, assim, lances da relação pouco afetuosa com o pai e a mãe, a importância da avó, a descoberta da música, o começo do sucesso, a amizade com o compositor Bernie Taupin, a descoberta da sexualidade, o estouro nos Estados Unidos e a relação conturbada e abusiva com o produtor e primeiro namorado John Reid, para citar alguns. Dar conta de tanto em duas horas de duração é um desafio que consegue ser cumprido, justamente, a partir dos inúmeros momentos de suspensão da realidade que têm função narrativa e reforçam o caráter biográfico da obra.

Narrativamente, há uma ou outra ponta desnecessária - como algumas passagens biográficas que pouco adicionam à trama ou o mergulho redundante demais na derrocada causada pelas drogas -, mas nada que estrague o ritmo adquirido pelo filme. Há de se destacar ainda, em termos de roteiro, o flerte que Rocketman faz com o piegas, o "moralmente edificante" e a ideia de superação, mas que, felizmente, não se concretiza em conservadorismo. As cenas musicais de sucesso, fama, poder, dinheiro e sexo são tão extravagantemente construídas quanto os heroicos passos do britânico em direção à reabilitação.

Rocketman, enfim, faz um grande panorama da vida de Elton John, trazendo derrocada pessoal e ascensão profissional em extravagantes performances musicais e resoluções rápidas e ritmadas. Há, ainda, espaço para inserções psicanalíticas e montagens de gosto duvidoso que levam o falseamento e o artificial para níveis quase questionáveis. O filme, por sorte, se assume desde o início tão frontalmente fake que não há razão para constrangimentos maiores. No contexto do filme, qualquer efeito visual mais tosco e as cartelas finais que parecem saídas de um programa de televisão soam sempre, sempre, muito honestas.

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João Gabriel Tréz