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Jornal

Tudo se transforma

|Perfil| Entre os dedos cheios de graxa do mecânico Jair Nascimento, personagens ganham vida em materiais outrora descartados

09/01/2019 01:30:00
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Era 1983 - ou 1984, o tempo castiga a memória. No trajeto de ônibus pela Av. Bezerra de Menezes, o então menino José Jair Nascimento Castro observava pela janela, curioso, as esculturas de ferro carregadas cá e lá por mãos experientes. Um dia, "feito coisa do destino", desceu antes de sua parada e se aproximou do artista. "É o senhor quem faz?", recorda o diálogo. "Sou sim. Você quer aprender? Passe a mão, você está sentindo?". Acanhado, Jair tocou a obra, reprodução de Maria de Nazaré. 

 

Confessa, aos risos, que na época não sentiu nada - mas admite, espantado, que o único encontro com o desconhecido mudou sua vida. Jair ainda não sabia, mas naquele dia trocou dois dedos de prosa com sua maior referência: o escultor Francisco Magalhães Barbosa, conhecido Zé Pinto da Sucata (1925-2004). Hoje, 35 anos depois, o mecânico Jair dá prosseguimento ao cuidadoso trabalho de transformar lixo em arte.

 

"Eu me lembro como se fosse hoje. Depois daquele encontro com o Zé Pinto, eu comecei fazer minhas próprias esculturas... Tinha bem uns 13, 14 anos. Era mal feito, mas pra mim já era legal", recobra. Apesar de muito jovem, Jair já trabalhava lavando peças em uma oficina de carros desde o começo da década de 1980. Filho de paulista com cearense, o artista nasceu no município de Bela Cruz, às margens do rio Acaraú. Na Capital, dedicou-se ao ofício de mecânico e foi entre carburadores desgastados e baterias usadas que encontrou a matéria-prima de sua obra: a sucata.

 

"Até hoje é assim: eu vejo uma coisa por aqui (aponta para o chão)... Pode ser uma tampa de panela, uma garrafa pet, uma telha, uma moeda. Eu trabalho com as quatro matérias: a pedra, o plástico, a madeira e o ferro. Mas, pra mim, só serve se for coisa do lixo. Se for comprado, eu não acho legal. Na minha ideia, nada se acaba: tudo se transforma", defende o escultor. Hoje, aos 48 anos, Jair divide seu tempo entre consertar veículos de marcas luxuosas como Land Rover, Mercedes, Jaguar e BMW em uma oficina no coração da Aldeota e aproveitar as horinhas de folga para torcer, moldar, soldar e pintar suas primorosas e diversas esculturas.

 

Entre os ásperos dedos sujos de graxa, Jair segura com delicadeza sua forte história de vida. Autodidata confesso, aprendeu tudo com a humildade de quem detém-se a observar com respeito e atenção: apaixonou-se pelo teatro aos 16 anos, após poucos meses de aula no Teatro São José, e carrega as máscaras gregas tatuadas em traço firme no pescoço. Depois, encantou-se com a cozinha e a possibilidade de brincar com os sabores da rica culinária nordestina. Mas são seus tanques de guerra, xerifes, corujas, peixes e cantadores em sucata que dão sentido ao mundo e suas renovações.

 

"A arte me salvou", sentencia. Jair não sabe mais precisar quantas peças produziu, presenteou ou vendeu ao longo dos últimos 35 anos. Pai de oito filhos, deixou cedo os bancos escolares para trabalhar e perdeu-se entre desgostos pelas terras quentes do Rio de Janeiro. Caiu nos vícios, como tantos outros, e vendeu suas dedicadas obras a preços irrisórios. "Mas voltei a criar esculturas. Quando eu estava na abstinência, começava a trabalhar", explica. Agora, nutre o sonho de aposentar-se das oficinas e  viver para e - merecidamente - por meio da arte.

 

"O importante, para mim, é que muitas pessoas vejam as esculturas. Uma peça, de repente, estimula a criatividade do outro", acredita. Generoso, Jair gosta de presentear os seus com os trabalhos, mas a primazia das obras é tamanha que muitas peças já ganharam o mundo por meio de compradores. Agora, cerca de dez esculturas do mecânico artista estão em exposição no restaurante Cantinho do Frango, na Aldeota.

 

O reconhecimento do seu trabalho enquanto artista e a possibilidade de  ensiná-lo aos outros são as maiores aspirações de Jair. Nas escolas e associações do bairro, planeja ofertar uma oficina de esculturas com sucata. "Dar de graça o que de graça recebi, não é?". Enquanto isso, segue na vontade de trocar experiências com a classe artística de uma cidade que ainda não descobriu toda a força dessas múltiplas vivências como a de Jair. "Tenho vontade de conhecer os artistas cearenses porque eu não conheço nenhum. Tenho vontade de conhecer só pra me enturmar com eles, sabe? Trocar inspirações, entender como eles produzem. Um dia, ainda abro o meu ateliê", promete.

Bruna Forte

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