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Jornal

Rotina

vida_e_arte

09/01/2019 01:30:00
Me perguntava ontem como podem andar a explodir ônibus se na praça do bairro a Susana, de 7 anos, continuava a guiar a bicicleta pra cima e pra baixo. Desconhecia a tragédia, do caos não tinha o mais breve conhecimento, e assim me pareceu que a felicidade tem um componente quase indispensável: o alheamento.

 

Na fila do almoço, conversas esparsas sobre os ataques, mas nada além de um cenho franzido, ombros arqueados em gesto de impotência e a frase salpicada como a máxima de algum sábio chinês: o Governo tinha de fazer isso. Mas isso o quê?

 

A discussão segue nessa toada por mais alguns minutos, findo os quais cada cliente paga seu prato no restaurante por quilo e se encaminha para uma mesa diferente. Ele pede Coca, ela, suco de laranja. "Com o gelo à parte", diz num tom gentil pro garçom, que assente, a expressão levemente contraída por alguma preocupação que associo à dificuldade de chegar ao trabalho nestes dias turbulentos.

 

No sábado saí pra andar de bicicleta pela primeira vez em cinco meses. De início, era como se pudesse cair a qualquer instante, a destreza subitamente enguiçada, a inteligência do corpo lerda como um aplicativo que esqueceram de atualizar. Andava numa velocidade abaixo da que gostaria. Passado algum tempo, porém, recuperei movimentos, e já conseguia desviar dos buracos e mudar a música no telefone sem precisar desviar os olhos da frente ou dos prédios espichados na orla.

 

Havia então um fluxo anormal de helicópteros, não os da polícia, mas aeronaves laranja ou cinza que pousavam no alto dos edifícios como mané-magos nos varais de roupa que minha vó trançava no quintal de casa. Pardais mecânicos enxameando o fim de tarde avermelhado de uma metrópole que, embora nada ali fizesse crer, vinha de três ou quatro dias sacudida por atentados.

 

Esses voos eram novidade. A todo momento, o zumbido metálico produzido pelos rotores quebrava em ondas no calçadão, espraiando-se. Como se metade de Fortaleza estivesse tentando fugir do contato com as ruas enquanto a outra metade, como o garçom ressabiado do restaurante por quilo, precisasse estar com os pés no chão.

 

Essas duas cidades se encontram apenas ocasionalmente, como na fila, ou assim, trocando olhares distantes - o passageiro do helicóptero muitos metros acima do solo, o garçom muitos metros abaixo.

 

Estou de férias, e uma pessoa de férias é uma desgarrada da realidade, um extraviado do horário comercial, um desertor da utilidade. Durmo às quatro da manhã, acordo às 11 horas, e nisso encontro o funcionamento natural do organismo, como se tivesse sido feito pra estar à margem do andamento frenético dos dias.

 

Entro numa padaria de chinela e peço cinco pães "massa fina", os mesmos que na meninice eu chamava de sovado, mas que agora acho vulgar. Volto, preparo comida, leio, escrevo, saio para uma caminhada, mergulho.

 

Às vezes acontece de ler notícias. Um cerco policial, um viaduto avariado, uma van reduzida à carcaça. E a que mais impressionou até aqui: o caminhão com a carga de frangos vivos no qual os bandidos atearam fogo.

 

Há qualquer lição nessa imagem que não apreendemos ainda. Centenas de frangos à espera do abate e que acabam mortos antes do tempo. 

 

Henrique Araújo

henriquearaujo@opovo.com.br

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